Em 18 de julho de 1967…
Naquele dia estavam os homens. Cavavam, arrancavam, feito tiradentes da terra, as pedras, enormes pedras – para meus olhos infantes – do fundo da cacimba. Puxavam pela roldana, agarrados na corda. Suas mãos sangravam, o suor escorrendo pelas suas pestanas, o sol fazendo sua parte… Ah, que parte! Precisava brotar água do miolo da terra, já que do infinito céu azul, de Nosso Senhor não pingava gota alguma, pra mais de quinze anos! Fazia muitas horas que não chovia no Ceará.
Seu Otávio, que contratou aqueles bravos trabalhadores ordenou e pediu que dona Rosa não deixasse faltar ao menos uma garapa de limão com açúcar, cafezinho ralo, umas lascas do rolo de fumo e um papel do saco de pão, pra mode eles pudessem fumar um cigarrinho depois do almoço. Seu Otávio pensava em de um tudo. Ele tinha que ir ali, no hospital do Exército cumprir sua obrigação, pois que soldado era. Como servente, recebia ordens de seus superiores, no caso, os enfermeiros. Naquele dia, algo terrível aconteceu.
Enquanto pensava nos seis olhinhos que esperavam por ele em casa, lavava um balde de aço galvanizado da melhor qualidade, daqueles que só o general da Décima Região Militar poderia comprar, em dúzias, para ter em seu casarão. Aquele magnífico exemplar de balde lhe fora ofertado em homenagem ao seu excelente serviço pela Pátria. Então, eis que chega, agoniada, a enfermeira-chefe mais um cabo estrelado, quase sargento, com as caras de quem perdeu dinheiro. Bem ali, naquela hora pensou: “Eita, lasquei-me!”.
– O avião do marechal caiu! Dá cá esse balde, mocorongo!
“Mas que merda é essa?” – Pensou, o soldado raso –. Otávio cutucou, coçou seu couro cabeludo da cabeça, assungou o jaleco para cima do rumo do cangote, esticou o pescoço e disse: “Sim, senhor!”. Bateu continência e, depois que eles saíram avexados, sorriu. Acho que gargalhou à moda miúda. O soldado Otávio ficou foi alegre. Parecia um homem feliz. Quem viu diz que foi mesmo assim. Um sorriso de orelha à orelha enquanto enxugava com esfregão o passeio dos médicos, repórteres, militares… gente prali, pracolá, dentro do hospital.
Otávio recebeu de volta o balde de flandre da melhor qualidade, ensanguentado, cheio até a borda com os fatos, os miúdos, as tripas do marechal. Otávio quis engoiar, mas, que bom soldado era, bateu continência e disse “Obrigado, estamos às ordens!”. No radinho de pilhas Eveready, dentro do ônibus, escutava o “Samba do Arnesto”. Chegando em casa foi ver a obra da cacimba que encomendara. Os meninos o abraçaram pelas pernas. Beijou os três mais a dona Rosa. Partiu no rumo do quintal carregando na mão, pela alça de arame seu troféu.
Perguntou para os trabalhadores, que esperavam seu qualquer (o pagamento):
– Deu água?
– Deu sim, senhor!
Olhou para dentro do profundo poço. Conferiu o trabalho, cochichou com o mestre Expedito, acertou as contas, entregou as cédulas e todas suas moedas que se escaparam de seu soldo, pois que soldado era. Pagou o dividendo. Chamou a turma prali, abriu uma garrafa de cachaça, descascou um pedação assim de fumo. Dona Rosa chegou logo com uma galinha cozinhada na cebola, mas antes de comer, Otávio falou. Falou não, gargalhou! Pediu que Expedito pegasse aquela pedra ali. A pedra maior. E Expedito botou a pedra aos pés do patrão, conforme lhe fora ordenado.
Naquele momento estavam os homens e eu, menino, observando meu pai. “Vai prali, bichinho – Ele disse –, que papai vai fazer um negóço bem aqui. Vai prali, vai, bichinho.”. Pegou o balde de ferro polido, da melhor qualidade, gargalhando feito gente feliz e os peões, devidamente remunerados, segurando seus copos de pinga, também achavam graça daquela estória, do dia histórico que ele vivenciara. O presidente do país morrera num terrível acidente aéreo. Seu corpo foi necropciado durante o plantão do servente, soldado raso Otávio Carneiro Braga.
Meu pai, o soldado Otávio pegou seu precioso balde, que havia sido guardado a sete chaves, para inaugurar sua nova cacimba, o enganchou na pedra, aquela que o mestre Expedito colocou a seus pés, pegou outra pedra e tacou nele! Tacou de novo a pedra sobre o balde, com fúria caninana. Se lhe soltou a alça, toda torta. Não prestava mais para encher d’água. Tirou o escangalho amassado e pulou em cima dele várias vezes.
– Morre, desgraça! Morre, coisa ruim! Chegou o dia da graça! Se acaba, o que num presta! De ti não sobrará nada! Apenas e somente o fim!
Pensei: “Vai ter raiva de balde assim lá na baixa da égua! Eu hein?!”.