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Entre Chicó e Mãe Diná: previsões para 2026

Eu acredito que 2026 será um bom ano. Um ano feliz. Por quê? Não sei, realmente não sei. Só sei que será um ano bom – parafraseando Chicó, do Auto da Compadecida.


Será um ano de novas cadências sociais, desafios econômicos e importantes alterações políticas. Vai aqui um breve e leve exercício de futurologia, levantando possibilidades bem reais, diante das evidências que esses dias corridos de início de ano apresentam.


1. O Acre experimentará uma nova mudança na política, em que o controle do poder, hoje exercido pelo grupo que chegou ao governo em 2018, chegará ao fim. E a razão é bem simples: depois dos 20 anos da Frente Popular, o povo não quer uma nova dinastia política controlando seu destino. Por isso, quem fizer campanha contra o sistema vencerá a eleição. E vencerá de forma contundente, caso faça uso desse argumento como mote.


É também o momento em que a esquerda, após oito anos da penitência imposta pelo povo, voltará a ocupar posição relevante na política local. E não porque o tempo de reparação tenha terminado — ele ainda seguirá adiante, ainda que mais brando. A razão é que a polarização já não será tão intensa; as necessidades materiais das pessoas voltarão a falar mais alto e começa a aparecer o reconhecimento de que “muita coisa boa aconteceu no Tempo dos Vianas” (como o povo diz).


2. O movimento evangélico entrará em espiral descendente aqui no Acre; ou seja, começará sua longa crise, depois de ter se estabilizado em 2025, após mais de 20 anos de crescimento intenso. Os ativos da doutrina evangélica neopentecostal começam a cair por terra, fragilizados pela recorrência com que têm sido usados nessas duas décadas. A prometida prosperidade, principalmente a material, não chega — e seguirá não chegando. Por uma razão simples: a capacidade de geração de riquezas aqui é limitada, e o pouco que se gera segue apropriado pelas elites de sempre.


Quanto ao povo, que correu atrás das igrejas evangélicas acreditando na promessa de que “bênçãos sem medida” lhes estavam reservadas, cresce a frustração diante de uma situação de vida que não muda.


A doutrinação do G12, a chamada “Igreja da Visão Celular”, que foi fundamental para a proliferação de pequenas denominações evangélicas por todo o Acre, consolida o seu ocaso. A inviabilidade de manter igrejas com uma mensagem teológica forte sem dispor de dirigentes e evangelizadores bem formados ficará evidente. E a “Visão” cairá como consequência de ter dado certo em um tempo excessivamente curto.


Outra razão para o início da crise do movimento evangélico é o esgotamento do modelo de conversão baseado na conhecida “guerra espiritual”. Esse é um padrão teológico em que o crente é levado ao limite do medo, enxergando a presença de “Satanás” em tudo o que acontece no seu entorno. Na guerra espiritual, a vida passa a ser espiritualizada em todas as suas dimensões. O resultado é cobrança excessiva, frustração, muito adoecimento mental e autossabotagem.


3. As pessoas iniciarão uma trajetória de vida para além da política e dos governos. Como política e governo, leia-se tudo o que envolve a esfera pública. Veremos um novo impulso da sociedade civil e da iniciativa privada empresarial.


É como se as pessoas, após terem passado as últimas três décadas inteiramente voltadas para o dinheiro e as iniciativas públicas — seja do governo, seja das prefeituras —, caíssem na real de que “desse mato não sairá cachorro” e voltassem a acreditar em suas próprias capacidades. Isso é bom. Uma sociedade civil vigorosa, com ONGs, sindicatos, associações, cooperativas, fundações e institutos privados — enfim, toda sorte de organizações surgidas de iniciativas comunitárias e sociais — é mais forte, mais vibrante e mais propensa a construir suas próprias soluções, em vez de esperar por milagres por parte das autoridades públicas. Uma comunidade assim exerce melhor os micropoderes que caracterizam as sociedades modernas, e constrói um tecido social mais sadio e próspero.


4. No cenário nacional, 2026 será o ano em que experimentaremos toda a força da democracia brasileira. O país passará pela eleição nacional em normalidade, apesar de algumas decisões estranhas por parte dos operadores do TSE. E partidos sem identidade, que disputam o poder pelo poder e buscam prioritariamente a manutenção de privilégios, sairão menores e menos poderosos. A corrupção voltará a ser um importante tema da política, mas com tratamento bem diferente daquele que prevaleceu quando era dominada pela narrativa da Lava Jato.


Com Trump tocando o terror e o mundo em sobressaltos, o Brasil será um oásis de tranquilidade – algo que agrada a maioria do povo brasileiro.


Se minhas capacidades de “Mãe Diná” estiverem afiadas, 2026 será um grande ano.