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Sobre medicamentos, posturas e limites

Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil

A semana que terminou ontem começou em alto nível de tensão na gestão pública do Estado. O desvio de R$ 1 milhão em medicamentos movimentou o noticiário e sacudiu a imaginação de muita gente, sempre pronta a especular que há mais metiolate público escondido em algum lugar, vigiado por gestores maldosos. O diabo é que antes da especulação e da politização de botequim existem os fatos e eles são os seguintes.


A Polícia Civil, por meio da Delegacia de Crimes Fazendários (Defaz), cumpriu mandado de busca e apreensão em uma residência localizada no sugestivo nome de Beco da Glória, Bairro da Pista, região da Baixada da Sobral. A única pessoa que estava na casa era um idoso de 74 anos, hipertenso, com problemas no pulmão (consequência de tuberculose) e responsável por uma criança com problemas congênitos graves de saúde. Preso em flagrante, o ex-balconista de farmácia foi solto em audiência de custódia. “Foi concedida prisão domiciliar humanitária devido à idade avançada e aos vários problemas de saúde”, alegou o advogado de defesa David do Vale Santos.


Outro dado elementar em relação ao flagrante é o de que a operação policial é consequência de uma denúncia formalizada pelo próprio Secretário de Estado de Saúde. Havia medicamentos de alto custo; medicamentos controlados; para tratamento de combate a câncer e aparelhos utilizados em processo de hemodiálise. As informações básicas são estas.


Não foi divulgado há quanto tempo as investigações estavam em curso antes do flagrante. O bom senso e a lógica apontam que: da denúncia ao flagrante, o tempo foi mínimo. Caso estivesse monitorando a situação há muito tempo, é evidente que a Polícia Civil escolheria uma hora mais adequada para flagrantear. Talvez encontrasse mais gente além de um ex-balconista de farmácia, velho e doente.


A primeira página, do primeiro manual, da escolinha de detetive da Foz do Envira, aponta que há suspeita de que há mais pessoas envolvidas. Seria muito difícil um idoso, com pulmões endurecidos pela tuberculose, com filho doente, pudesse desviar da Sesacre uma quantidade tão grande de medicamentos, justamente os considerados de alto custo. A investigação vai continuar.


A retórica fácil segue o roteiro de que “esse é um governo que não aceita corrupção”; “a denúncia feita pelo próprio secretário demonstra intolerância com a corrupção”. É um raciocínio. Se o histórico dos últimos 7 anos e 10 dias do atual Governo do Acre autoriza a crença nisto, o leitor tem plena condição de avaliar.


Fato é que o gesto do secretário de Estado de Saúde alimenta especulações de toda ordem. É claro que ele teria plenas condições de conduzir o desfecho contra o crime praticado de outra forma. Mas resolveu dar publicidade ao processo. Nenhum problema quanto a isto.


Só não é possível dar ao gesto oficial o carimbo de “heroico”, porque de heroico nada há. O administrador público, sabedor de um crime de tal gravidade, se não tomar providências, estará incorrendo em outro crime, o de prevaricação. Palavra feia para dizer que ele é obrigado a fazer o que precisa ser feito, em nome do bem público. No caso, medicamentos que estavam deixando de beneficiar quem precisava para alimentar uma cadeia criminosa que ainda não se sabe muito bem como funcionava.


Algumas estruturas da administração pública do Acre têm razões que a própria razão desconhece. A Sesacre é um desses lugares. Explicar as entranhas que justificam a medida tomada é empresa que vai muito além do que é dito em uma coletiva de imprensa. No mais, os desdobramentos do fato ainda estão por vir. Personagens novos, instituições novas entrando em cena, avaliações sobre até onde a investigação deve ir, fazem parte da prática na relação entre polícia e política. Seja qual for o desfecho, este ac24horas estará com um repórter à disposição para noticiar. Neste espaço não cabem autoelogios. Noticiar o que ocorre já basta.


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