Por volta de 3h15 da madrugada, fui despertado por uma chuva torrencial. O som intenso das gotas batendo no telhado invadiu o silêncio da noite, trazendo consigo uma profunda sensação de nostalgia. Cada gota parecia ressoar memórias adormecidas, transportando-me para tempos distantes da minha infância, mas que, na verdade, permanecem vivos em algum lugar da minha alma.
A chuva, por si só, desperta lembranças do passado e carrega uma melancolia inerente. Enquanto os relâmpagos iluminavam o céu e as nuvens cinzas e densas cobriam tudo, minha mente retornava à infância vivida em Brasiléia.
Havia uma conexão quase mágica com esses elementos naturais, como se fossem portais para emoções profundas e memórias preservadas pelo tempo: lembrança dos pais, avós, irmãos, tios, primos amigos … o quintal, a rua, a escola, a igreja, o rio… ahhh o rio.
O curioso é perceber como a chuva me afeta profundamente, despertando sentimentos e reflexões, enquanto ela própria permanece indiferente ao meu mundo interior. A chuva simplesmente cumpre seu papel na natureza: ela apenas chove. Toda essa intensidade de sensações e recordações nasce em mim, enquanto o fenômeno natural segue seu curso, alheio aos sentimentos humanos.
Senti nas gotas da chuva noturna que estrondou no telhado que minha pequena cidade cabia inteira no meu coração. Fui transportado para o passado distante, onde as noites silenciosas, sem energia elétrica, eram marcadas pelas precipitações repentinas nas madrugadas de dezembro com a chegada das primeiras águas do inverno. Essas deixaram marcas profundas, tornando-se parte inseparável das minhas lembranças e sensações.
A mente infantil, sensível e aberta, conectava-se de forma densa ao tempo e à natureza. O barulho da chuva, o escuro absoluto e a brisa fria não provocavam apenas sensações físicas: despertavam também um universo de emoções sobre o poder da natureza. Parecia ouvir a voz de Deus nos trovões. Meu coração batia forte. Me sentia menor do que eu era. A vida parecia tão frágil e bela diante de tanta força, poder e energia.
Nessas noites, às vezes, antes mesmo do vento e da chuva chegarem, eu já estava desperto, atento, procurando ouvir o som das almas e o barulho do mundo girando. Essa sensibilidade aguçada tornava a experiência da infância algo inesquecível e hoje está sempre presente na memória a cada pancada de chuva que desfia na madrugada…
Por alguma razão, depois das chuvas torrenciais antes do partejar, o dia amanhecia bonito, esplêndido, brilhando mais do que os dias comuns de outras estações não menos belas. Era como se o céu, depois de toda fúria e intensidade da noite, se abrisse em cores vibrantes e luz renovada, trazendo consigo uma sensação de esperança e renovação.
Os primeiros raios de sol atravessavam as nuvens dissipadas, iluminando a paisagem ainda úmida, onde o cheiro da terra molhada parecia intensificar a beleza da manhã. Esse contraste entre a força da tempestade noturna e a delicadeza do amanhecer tornava o início do dia algo especial, quase mágico, marcando o ciclo da vida e da natureza com uma promessa silenciosa de recomeço. Meu coração se alegrava, a vida pulsava em mim.





















