Você deve estar pensando: o Irailton pirou! O que o Acre tem a ver com essa tal “nova ordem mundial”? Afinal, que importância isso tem para as nossas vidas? As respostas são: tudo e muito, para uma e outra questão. Explico.
A invasão da Venezuela e o sequestro do ditador Nicolás Maduro pelo exército americano anunciam a implementação da nova doutrina de política externa dos Estados Unidos. Em suma, ela estabelece que os americanos poderão fazer o que quiserem aqui nas Américas, enquanto os russos e os chineses poderão agir da mesma forma em suas respectivas áreas de influência. Foi como se Donald Trump, numa só jogada, entregasse a Ucrânia de “mão beijada” para Vladimir Putin e Taiwan para Xi Jinping, ao mesmo tempo em que se apodera do petróleo da Venezuela e abre caminho para fazer o mesmo com outras riquezas da região.
Segundo analistas de política internacional, a ordem global baseada em regras e na mediação de instituições multilaterais, como a ONU e a OMC, acabou. A partir de agora, o mundo funcionará com base na “lei do mais forte”, com as regiões divididas em zonas de influência das três superpotências da atualidade: Estados Unidos, China e Rússia.
Por essa lógica, a América Latina volta a ser considerada “quintal dos Estados Unidos”, de onde os americanos podem extrair as matérias-primas necessárias ao seu enriquecimento, sem a obrigação de manter equilíbrio político ou oferecer contrapartidas sociais. Na verdade, a história de nossa região é marcada pela pilhagem, ora por americanos, ora por europeus. Que o digam a Bolívia, com o roubo da prata de Potosí pelos europeus, e o México, que teve metade do seu território expropriado pelos americanos.
Aqui estão em abundância três dos mais importantes ativos minerais do momento: o petróleo da Venezuela (a maior reserva do mundo), o lítio da Bolívia, do Chile e da Argentina (50% das reservas mundiais) e as terras raras do Brasil (25 milhões de toneladas, a segunda maior reserva mundial, atrás apenas da China, com 45 milhões). Os Estados Unidos já fizeram guerras mundo afora por petróleo. Antes deles, a Inglaterra fez o mesmo. Hoje, o lítio é mais importante que o petróleo. Trata-se de um mineral fundamental para a produção das baterias que armazenam energia para carros elétricos, computadores e celulares, sendo amplamente utilizado na indústria.
Entretanto, enquanto os americanos patrocinavam guerras de hegemonia pelo mundo – como na Ucrânia contra os russos e no Oriente Médio contra o Irã –, a China, por meio de investimentos financeiros e suporte operacional, cresceu fortemente na região nos últimos vinte anos. É a maior investidora na Venezuela, firmou grandes contratos de exploração de lítio na Argentina e no Chile, ao mesmo tempo em que faz forte investida para conseguir o mesmo na Bolívia. Além disso, financia portos, aeroportos, ferrovias e indústrias, e representa mercado decisivo para o agronegócio do Brasil e da Argentina (soja e carne).
Atualmente, a China é o principal parceiro comercial de Brasil, Chile, Uruguai e Peru, e o segundo da Argentina.
Nesse contexto de investimentos, os chineses inauguraram recentemente o porto de Chancay, no Peru, considerado uma ação estratégica no planejamento do país. A intenção é transformar esse porto em um importante hub comercial para a entrada de produtos industriais chineses e a saída de produtos primários dos países da região. Para viabilizar o porto e garantir que ele cumpra o papel para o qual foi planejado, é imprescindível a construção de uma ferrovia de grande porte que atravesse o continente. É aí que entra o Acre. Sim, nosso pequeno estado está no meio dessa confusão toda. Como sempre. Foi assim no final do século XIX, quando a borracha produzida a partir do látex da Amazônia foi fundamental para a nascente indústria automobilística americana; e na Segunda Guerra Mundial, quando novamente estivemos envolvidos na estratégia dos grandes, que precisavam da borracha amazônica para o esforço de guerra.
Parece brincadeira, mas é fato que estamos no meio dessa história. Afinal, para o Acre, a tão falada ferrovia chinesa – cujos estudos de viabilidade, segundo o Ministério do Planejamento do Brasil, já estariam em andamento – pode representar uma “oportunidade de ouro”. O principal trajeto desenhado passa por aqui, cruzando todo o Vale do Acre. Ou seja, enquanto a presença chinesa na região representa imensa oportunidade, a divisão do mundo em impérios e suas zonas de influência, com os Estados Unidos mobilizados para impedir qualquer possibilidade de consolidação dessa presença, ameaça jogar essa oportunidade por terra. A não ser que o Brasil, o Peru e outras nações da região sejam capazes de, como nações soberanas, contrapor-se ao conhecido egoísmo e à arrogância imperial americana, colocando seus próprios interesses acima da covardia e da sabujice colonial.
Confesso que é difícil acreditar que isso aconteça. O alinhamento das elites econômicas, políticas e militares da América Latina aos interesses americanos é conhecido de longa data – salvo Cuba e, recentemente, a Venezuela, com as consequências sociais e políticas que todos conhecemos. No caso do Brasil, ao longo de toda a nossa história, o único líder político que teve a ousadia de se contrapor ao imperialismo americano foi Lula da Silva, no episódio recente das tarifas e da aplicação da Lei Magnitsky pelo governo de Donald Trump. Seria ele capaz de garantir que a China siga com seu plano de construir a ferrovia que poderá colocar o Acre no mapa da economia mundial? Talvez. Seguramente, não o seriam aqueles que chegaram a comemorar o ato imperial americano na Venezuela. O fato é que, como vimos, nosso futuro está novamente entrelaçado com os destinos do mundo!













