Foto: David Medeiros
A reportagem do ac24horas Play esteve, nesta segunda-feira (5), na Casa de Passagem para Migrantes, em Rio Branco, onde conversou com o secretário municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SASDH), João Marcos Luz. Segundo ele, o espaço abriga atualmente 54 imigrantes venezuelanos, embora tenha capacidade para 60 pessoas.
O secretário destacou que a maior parte dos custos de manutenção recai sobre os municípios e cobrou o repasse regular de recursos por parte do governo federal. “Primeiro dizer que Rio Branco tem abraçado os nossos irmãos venezuelanos. Nós temos aqui na Casa dos Migrantes atendimento psicológico, atendimento social e alimentação — são quatro refeições diárias, comida quentinha e de qualidade. Fazemos encaminhamentos para a saúde, seja para o pronto-socorro ou para a fundação. Temos um carro e uma equipe específica para isso”, afirmou.
João Marcos explicou ainda que o município providencia a documentação dos migrantes, realiza a inclusão no Cadastro Único e no Bolsa Família, além de encaminhá-los para o mercado de trabalho. “Nós também encaminhamos para indústrias e fábricas, inclusive fora do estado do Acre, até porque muitos deles têm qualificação. A Casa do Imigrante é muito importante, mas o que falta hoje é apoio, inclusive do governo federal, porque não temos o cofinanciamento”, ressaltou.
De acordo com o gestor, o governo federal repassa R$ 900 mil para a unidade, porém há atrasos. “A segunda parcela do segundo semestre do ano passado, até hoje, não caiu. Aqui tudo é urgente: alimentação, saúde. Infelizmente, 70% das despesas estão nas costas das prefeituras. Não é só Rio Branco, Assis Brasil também enfrenta essa realidade. O Acre tem três casas de imigrantes”, pontuou.
O secretário fez um apelo direto ao governo federal para ajudar na manutenção das casas de acolhimento. “Fica aqui esse alerta e esse pedido. Amanhã teremos um representante do governo federal no estado e vamos cobrar mais uma vez, porque não dá mais para as prefeituras bancarem sozinhas. O prefeito Tião Bocalom tem feito questão de garantir um atendimento humanitário aos nossos irmãos venezuelanos”, disse.
Atualmente, segundo João Marcos, a Casa acolhe 64 pessoas, número acima da capacidade. “A Casa comporta 60, mas fica sempre superlotada, porque não tem jeito, a gente precisa abraçar. Se passar disso, temos outra casa, mas ela é menor. Só de venezuelanos são 54. Em 2025 inteiro, atendemos quase 600 venezuelanos. De 2022 para cá, já ultrapassamos 2 mil atendimentos. É uma Casa muito importante, e é bom destacar que o dinheiro do imposto do cidadão de Rio Branco tem sido investido aqui”, afirmou.
O gestor também comentou sobre o cenário da crise na Venezuela e os reflexos para o Acre. “Existem duas situações: a apreensão por uma nova crise migratória, maior do que as anteriores, mas também a esperança de que as pessoas parem de sair da Venezuela e que quem saiu volte. Ainda é cedo para dizer o que vai acontecer. O fato é que vamos cobrar cada vez mais do governo federal para que atue nas fronteiras. Não é possível as pessoas entrarem de qualquer jeito. Nós acolhemos, mas é importante saber quem está entrando por Assis Brasil”, alertou.
João Marcos também cobrou mais regularidade nos repasses do governo estadual. “No final do ano, o governo do estado enviou mais uma parcela, mas ainda há atrasos. Pedimos que não atrasem recursos financeiros. Além de serem poucos, ainda atrasam. É fundamental que esses apoios aconteçam na prática”, reforçou.
Segundo ele, o enfrentamento da situação exige união entre os entes federativos. “É a união do governo federal, do governo do estado e dos municípios. A gente espera que a crise cesse, mas, se piorar e mais pessoas começarem a entrar, nós vamos ter que acolher. Existe uma Lei de Migração que precisa ser cumprida, mas não pode continuar com 70% das despesas nas costas dos municípios”, concluiu.
A coordenadora da Casa, Carla Adriana Santos, explicou que, apesar de haver 54 venezuelanos, o total de acolhidos chega a 64 pessoas, incluindo migrantes de outras nacionalidades. “Nós acolhemos colombianos, que são a segunda maior população, cubanos em terceiro lugar, peruanos em quarto. Também recebemos argentinos, equatorianos, sudaneses e até franceses. No mês passado, tínhamos um casal”, relatou.
Ela detalhou como funciona o trabalho assistencial desenvolvido no local. “O nosso serviço consiste em tirar o migrante da vulnerabilidade máxima em que ele chega. Muitos vêm migrando espontaneamente, a pé, e chegam precisando de socorro imediato, com alimentação e acolhida humanitária”, explicou.
Segundo Carla, a equipe atua desde a regularização documental até o acesso à saúde e ao mercado de trabalho. “Apoiamos na retirada do CPF, no acesso ao cartão do SUS e no agendamento de consultas na atenção básica. Muitas vezes eles chegam doentes, alguns precisam de atendimento emergencial nas UPAs. Também damos apoio para encaminhamento à Defensoria Pública, quando há direitos violados, e mantemos parceria com o Cine para inclusão no mercado de trabalho. Temos realizado processos admissionais constantemente e hoje acolhemos cerca de 30 crianças”, finalizou.