Acre 01

“Os EUA querem riquezas, não aliados”, afirma historiador da Ufac ao comentar festa da direita acreana

Por
Whidy Melo

A comemoração pública de políticos de direita no Acre diante da invasão dos Estados Unidos à Venezuela e da prisão de Nicolás Maduro e de sua esposa, ocorrida na madrugada deste sábado (3), provocou reações duras no meio acadêmico. Em entrevista ao ac24horas, o professor doutor em História Contemporânea da Universidade Federal do Acre (Ufac), Wlisses James de Farias Silva, classificou o episódio como mais um sinal de um mundo em colapso das regras internacionais e fez previsões consideradas alarmantes sobre o impacto direto do conflito no fluxo migratório para o Brasil, inclusive pelas fronteiras amazônicas do Acre com Peru e Bolívia, já conhecidas de deslocamento humano.


Para o historiador, a celebração da ofensiva militar revela não apenas alinhamento ideológico, mas também um equívoco histórico da elite política brasileira, que, segundo ele, insiste em enxergar os Estados Unidos como um aliado fraterno. “É um problema histórico, cultural e educacional da elite brasileira, não só dos políticos de direita. Há essa ilusão de que os norte-americanos nos consideram iguais, irmãos. Não consideram. Nos veem como latinos, sul-americanos e submissos”, afirmou.


Wlisses James foi direto ao apontar as consequências práticas do conflito. Segundo ele, ainda que seja cedo para mensurar números, o aumento da imigração venezuelana é inevitável. “É óbvio que vai ter impacto nas nossas fronteiras, como já tem tido nos últimos dez anos com os embargos e as tensões entre Venezuela e Estados Unidos. Com uma invasão militar, esse movimento tende a se intensificar”, avaliou.


Na leitura do professor, a lógica é simples e brutal: guerra gera medo, e o medo empurra populações civis para fora de seus territórios. “Pessoas estão sendo mortas na Venezuela neste momento. Bombas estão caindo entre civis e militares. Não existe essa ideia de que só morre soldado. Quando uma bomba cai, ela destrói casas, vidas, famílias. E quando a vida deixa de ser garantida, as pessoas fogem”, disse.


O historiador lembrou que o Brasil, por fazer fronteira direta com a Venezuela, será um dos principais destinos desse deslocamento forçado, inicialmente por Roraima, mas também por outras rotas menos visíveis. “É natural que os venezuelanos procurem sair por onde é possível. Assim como, se fosse o contrário, nós aqui no Acre correríamos para a Bolívia ou para o Peru. As fronteiras do Acre com Peru e Bolívia já são rotas migratórias conhecidas e podem voltar a ganhar protagonismo”, alertou.


Além da crise humanitária iminente, Wlisses James criticou o entusiasmo de setores da extrema direita brasileira com a ação militar norte-americana. Para ele, esse posicionamento está ancorado em uma visão distorcida da geopolítica internacional. “Os Estados Unidos não estão interessados no povo venezuelano, assim como não estariam interessados no povo brasileiro. O interesse é material: petróleo, recursos naturais, riqueza”, afirmou.


O professor também lembrou que esse alinhamento automático não é novo e remonta ao apoio de parte da elite brasileira ao golpe militar de 1964. “Desde aquela época existe essa esperança de que, ao apoiar os Estados Unidos, seríamos respeitados como parceiros. Isso nunca aconteceu”, disse.


Na avaliação do historiador, há ainda um componente mais radical no discurso da extrema direita atual, especialmente a bolsonarista. “Existe um sonho, uma esperança, de que uma ação semelhante pudesse ocorrer no Brasil: derrubar o atual presidente e recolocar Bolsonaro no poder. Isso foi dito publicamente, inclusive por Flávio Bolsonaro, quando falou em bombardear a Baía de Guanabara”, lembrou.


Para Wlisses James, esse pensamento revela uma contradição profunda. “Eles acreditam que são irmãos dos norte-americanos, mas não são vistos assim. São apenas parte de um território de interesse econômico. Celebrar a destruição de um país vizinho é celebrar também a possibilidade de mais mortes, mais deslocamentos forçados e mais pressão sobre regiões já frágeis, como a Amazônia e o Acre”, concluiu.


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Whidy Melo