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Vale Tudo: As lições amargas que o remake deixou à Globo em aniversário de 60 anos

Debora Bloch em cena que Odete Roitman "ressuscita"; Vale Tudo deixou legado de furos - Reprodução/TV Globo
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O ano em que a Globo celebrou seis décadas no ar terminou com um dos maiores testes de resistência da teledramaturgia recente. Grande aposta da emissora para o seu aniversário, o remake de Vale Tudo marcou 2025 como uma decepção envolta em uma tempestade rara: recorde de críticas, memes diários, rejeição crescente e um desgaste público da autora Manuela Dias.

A emissora queria transformar seu clássico de 1988 na vitrine do momento, no apogeu do pacote de comemorações dos 60 anos e num lembrete do poder de seus folhetins. O que ganhou, porém, foi uma nova percepção sobre os limites dos remakes, a diferença entre nostalgia e repetição e a importância da coerência narrativa mesmo na era do consumo rápido das redes sociais.

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Nas primeiras semanas, o debate parecia limitado às inevitáveis comparações: o que ficou fiel ao original, o que mudou, o que valia ou não atualizar. Mas o burburinho cresceu quando os problemas começaram a ultrapassar a barreira da memória afetiva.

A trama acumulou furos e situações forçadas, como personagens que mudavam de função para fazer a história andar –caso de Olavo (Ricardo Teodoro), transformado em atirador de elite da noite para o dia nos últimos capítulos, ou de Renato (João Vicente de Castro), convertido em cupido oficial sempre que a novela precisava empurrar um casal.

O clima nas redes se tornou um capítulo à parte. Vale Tudo virou “saco de pancadas”, mas também viveu do engajamento que gerava. Memes do topete de Odete Roitman (Debora Bloch), dos móveis de Celina (Malu Galli) e até do bebê reborn dominaram os perfis na web.

Mesmo as críticas mais duras eram acompanhadas daquela compulsão coletiva de continuar assistindo, quase como um “relacionamento tóxico” descrito por jornalistas e noveleiros.

Nunca se falou tanto de novela, e a avalanche de comentários –do deboche à indignação– mostrou o quanto a Globo ainda consegue pautar conversas, mesmo quando o produto provoca mais caretas do que aplausos.

No campo artístico, o elenco foi quem mais segurou as pontas. Debora Bloch redefiniu Odete Roitman à sua maneira e entregou talvez a única unanimidade positiva do remake. Malu Galli brilhou como Celina. Paolla Oliveira teve momentos potentes como Heleninha, apesar das críticas iniciais, e Ricardo Teodoro ganhou status de revelação do ano com o carismático Olavo.

Mesmo assim, nenhum bom trabalho individual foi capaz de esconder a maior frustração da versão 2025: o apagamento de Raquel, vivida por Taís Araujo. A protagonista desapareceu da trama sem que isso tivesse qualquer impacto dramático –algo impensável na obra original, e que virou até tema de denúncia ao compliance da Globo.

O roteiro não foi o único problema. A direção e a continuidade formaram um combo que virou pauta nacional. Erros visíveis alimentaram a sensação de que o produto final parecia um rascunho apressado, longe do padrão de acabamento que o público associa ao horário nobre.

Foi nesse ponto que a crítica especializada soou mais dura: não se tratava de “liberdade poética” ou de aceitar certos exageros apenas “porque é novela”, mas de questionar por que uma obra desse porte escorregou tanto no básico.

A comparação com a original também se mostrou mais profunda do que uma briga entre nostalgia e modernização. A Vale Tudo de 1988 carregava uma espinha dorsal política e crítica que justificava sua existência. O remake prometeu atualizar esse debate para o Brasil atual –mas não entregou.

Tramas essenciais desapareceram, discussões sociais se esvaziaram, personagens foram abandonados no meio do caminho. Temas como pensão alimentícia, alcoolismo, assexualidade, representatividade negra e até o casal lésbico foram totalmente abandonados. A novela acabou se tornando apolítica justamente ao tentar revisitar uma obra que nasceu para incomodar.

O desastre narrativo culminou em um final que simbolizou o percurso: Odete Roitman, milagrosamente viva depois de levar um tiro no peito, ressurgindo de um saco funerário num plot twist que chamou mais a atenção pelos erros de continuidade do que pela ousadia.

Se a ideia era subverter o clássico “quem matou?”, faltou sustentação e sobrou perplexidade. Um desfecho tão questionado reforçou algo maior: a Globo ainda não encontrou a fórmula ideal para remakes que honrem o passado sem sacrificar o presente.

No balanço geral, Vale Tudo ensinou muito mais do que pretendeu. Mostrou que engajamento não equivale a qualidade, que a viralização não sustenta dramaturgia, e que o público, mesmo quando está rindo, é capaz de perceber que um produto perdeu o seu rumo.

Para uma emissora que atravessou seu aniversário de 60 anos repensando estratégias, o remake deixa uma mensagem clara: não basta ter uma marca poderosa, é preciso entender por que ela funcionou da primeira vez e como adaptá-la sem diluir sua essência. Depois de tanto barulho, fica a lição e a responsabilidade para fazer melhor nas celebrações de 70 anos em 2035.

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