Danilo Lovisaro deixa a Procuradoria Geral de Justiça do Ministério Público do Estado do Acre em janeiro de 2026. O editorial poderia reforçar o clichê de que ele passará a faixa a Oswaldo D’Albuquerque Lima Neto “com a sensação de dever cumprido”. Mas a sofisticação de Lovisaro não permite vaidades rasteiras, não combinam com quem vive os conflitos internos provocados pelas contradições de um homem que já ruma para 60 primaveras.
Graduado em 1993, cinco anos depois, já ingressa no Ministério Público. O leitor é capaz de lembrar como era o Acre em 1998? Por meio de um consórcio de movimentos político e jurídico, as instituições públicas daqui expurgavam, com muitos esforços, o Esquadrão da Morte. No Ministério Público Federal do Acre, atuava um homem que se tornou quase símbolo desse momento, o procurador da República Luiz Francisco Fernandes de Souza. No MPE, destacaram-se as lideranças de Eliseu Buchmeier e da procuradora Salete Maia. No Tribunal de Justiça, brilhou a mão firme e crente nas instituições do então presidente da corte, Gercino José da Silva Filho.
Na política, o Acre contava com o apoio institucional do presidente da República à época, Fernando Henrique Cardoso. Aqui no Acre, foi o único lugar do país onde o PT e o PSDB se coligaram: Jorge Viana (PT) e Edson Cadaxo (PSDB). A metáfora de Arthur Schopenhauer da floresta, do frio, da noite e dos porcos espinhos é a melhor imagem para ilustrar essa união à época. A política teve que construir um cenário de união para combater o crime organizado e viabilizar a possibilidade da gestão.
Imagine o leitor: um jovem, recém-saído dos bancos da universidade e com uma carteira novinha de Promotor de Justiça. Acrescente a isto o contexto histórico enfrentado por essas figuras do MP, da Justiça e da política. Isso foi adrenalina em estado puro nas veias imaturas do jovem promotor Danilo Lovisaro. O mundo seria mudado a partir do MP. Ele não tinha dúvidas disso. E “partiu pra cima”, amparado por um cenário político institucional que lhe oferecia segurança, mesmo com todas as falhas.
Não seria exagero dizer que Lovisaro estruturou o grupo de combate ao crime organizado no MPE, liderou um conjunto de promotores tão sonhadores quanto ele, com destaque para Sammy Barbosa, outro promotor à época com postura quixotesca.
Foi muito esforço, muito trabalho e muito estudo para que se pudesse dizer com alguma tranquilidade que aquele cenário criado pelo crime organizado nos anos 90 e início dos 2000 só teve “página virada” em 2010, 2011. O problema se entranha de tal forma nas instituições e na rotina do povo que não se expulsa tão facilmente do cotidiano de uma comunidade. Hoje, o crime organizado mudou de método e de feições: uma nova trincheira para um novo MP.
Durante todas essas etapas de trabalho, Lovisaro não descuidou dos estudos. Conquistou o grau de mestre em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina e de doutor pela Faculdade de Direito da Universidade de Roma Tor Vergata. Em 2010, publicou um livro que, em boa medida, passou a ser referência para quem estuda o tema: “Biopirataria na Amazônia – Uma Proposta Jurídica de Proteção Transnacional da Biodiversidade e dos Conhecimentos Tradicionais Associados”. O livro foi publicado pela editora Juruá.
Em 2014, entendeu que já havia acumulado experiência suficiente e arriscou se candidatar à Procuradoria Geral de Justiça. Calculou mal. Não avaliou que aquele grupo político com o qual se identificara tinha, neste momento, outra percepção sobre o papel do MP. Discretamente, isso foi lembrado por ele na primeira posse à frente da PGJ. “Há 8 anos, tentei e não consegui”, atirou, despejando uma dose certeira (e sentida) de veneno.
O tempo e as cãs já raras, naturalmente, transformaram o homem. Exigir que o procurador Geral de Justiça Danilo Lovisaro seja o mesmo promotor de Justiça Danilo Lovisaro não seria razoável e muito menos justo. É um raro movimento em que o mais velho ampara o mais jovem. Paradoxalmente, é possível também que o menino estenda a mão quando o adulto fraqueja. Humanamente, isso mostra que ainda é possível alguma indignação, mesmo com os vícios e compromissos impostos pela experiência cívica. Essa luta interna Danilo Lovisaro trava todos os dias. Ou deveria.
















