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Vida noturna dos anos 70 no Acre: A história não contada!

Vista aérea da Avenida Epaminondas Jácome, centro comercial de Rio Branco, Década de 70

(1ª parte)


“Os tigres vêm à noite com a sua voz suave como um trovão”. (Victor Hugo – Os miseráveis)


O passado de Rio Branco guarda segredos e sussurros de grandes histórias de amor e sexo, ocultas pelo véu do tempo. Nos anos 1970, a cidade, com cerca de 70 mil habitantes, vivia dias de tranquilidade, mas era durante a noite que a vida realmente pulsava.


Apesar de pequena e aparentemente pacata, Rio Branco tinha uma vida noturna vibrante. Mudanças econômicas e sociais, como a decadência dos seringais, a saída de moradores e a chegada de migrantes vindos do centro-sul do Brasil, alteraram radicalmente a cidade em um curto período.


A narrativa autêntica da capital do Acre não pode se restringir aos relatos vindos das mansões, palácios, igrejas e gabinetes dos que permaneciam distantes do que se passava nos bastidores dos prostíbulos e casas noturnas. É nos espaços marginalizados, muitas vezes considerados submundos, que pulsa parte essencial da vida social e afetiva da cidade.


Esses ambientes, invisibilizados por muito tempo, desempenharam papel fundamental na formação da identidade local, abrigando histórias de encontros, paixões e transformações sociais.


Ao reconhecer a importância dessas vivências, amplia-se o olhar sobre o passado, valorizando não apenas a elite, mas também todos que contribuíram com sua presença e experiências para a construção da memória coletiva de Rio Branco, uma cidade ligada ao resto do mundo apenas por via fluvial quando os rios comandavam a vida. O Brasil vivia uma ditadura onde a liberdade era restringida, porém, à noite a única regra era viver o amor livremente.


A magia das noites


Espalhadas pela cidade, casas noturnas, bares, becos, quarteirões recebiam amantes e frequentadores que buscavam encontros discretos e momentos de paixão e sexo ardente. O ambiente era embalado por baladas bregas e românticas da época, onde casais se encontravam para viver intensamente o amor, mas, também, para satisfazer homens e mulheres sedentos de sexo.


Essas casas, popularmente chamadas de “boates ou puteiros” eram palco de encontros marcantes, que, embora silenciados pelo tempo, ajudaram a moldar a história afetiva da cidade.


Naquele período, experimentar o amor e a paixão era uma vivência intensa e espontânea. As relações se desenvolviam em um ambiente de liberdade, onde as pessoas podiam se entregar aos sentimentos sem receio embaladas pelas bebidas alcoólicas da época.


Não havia câmeras, celulares ou redes sociais para registrar ou expor os momentos, permitindo que cada encontro fosse único e reservado. Essa ausência de tecnologia proporcionava uma intimidade genuína, tornando o sexo puro e simples em encontros casuais, os romances e as paixões da época ainda mais autênticos, memoráveis e avassaladores registrados apenas na memória de quem viveu aquele período.


Vamos revisitar o passado de Rio Branco ao som de “A Casa do Sol Nascente”, resgatando memórias esquecidas sem preconceitos. Essa canção, tão emblemática para a época, serve como trilha sonora nostálgica para relembrar momentos intensos vividos nas noites vibrantes da cidade.


Ao permitir que a melodia conduza as lembranças, abrimos espaço para reviver histórias de encontros, paixões e experiências que foram fundamentais para a construção da identidade afetiva.


Nessa viagem no tempo, é essencial deixar de lado julgamentos e preconceitos, valorizando todos os personagens que fizeram parte desse universo noturno. Ao som de “A Casa do Sol Nascente”, cada memória ganha um novo significado, tornando-se parte de um mosaico coletivo que compõe o cenário social da capital acreana durante os anos 1970.


A sofisticação da boate Aquarius


Começaremos a viagem no tempo em uma das casas noturnas mais emblemáticas daquele período, a boate Aquarius que se destacava no cenário de Rio Branco. Situada estrategicamente na Avenida Getúlio Vargas, no ponto de encontro com a rua coronel José Galdino, no bairro Bosque, a Aquarius era sinônimo de requinte e exclusividade. O dono era um argentino que vivia no Acre já naquela época.


A sofisticação do ambiente era notória, atraindo um público seleto e exigente. Frequentada principalmente pela elite da época, a boate reunia pessoas influentes e admiradoras de uma atmosfera refinada. Mulheres bonitas compunham o cenário, tornando o local ainda mais desejado e glamouroso. A Aquarius inaugurou a era de luz negra no Acre, que depois migrou para as discotecas na década de 80.


Assim, a “Boate Aquarius” foi palco de muitos encontros marcantes e tornou-se referência na vida noturna, contribuindo para as histórias de amor e paixão que marcaram toda uma geração. Por lá frequentavam as amantes dos homens mais ricos e poderosos daqueles anos dourados.


“Papouco”


Descendo a Getúlio Vargas entramos na Floriano Peixoto – também conhecida como “rua da Catapora”. Adentramos ao Papouco na esquina onde ficava a primeira sede da Polícia Federal no Acre comandada pelo Dr. Cid. Já no bordel o bar do Severino comanda a farra. As mulheres ficam à disposição dos clientes que chegam assim que anoitecia porque muitos eram casados. Além de vender bebidas, comandar o som, o bar do Severino também aluga quartos de madeira para os casais que combinam na hora o valor do encontro.


Não há sofisticação, chuveiros ou banheiras, mas uma bacia de água com sabonete Phebo para o famoso banho cheque-cheque. O Papoco foi uma das zonas de baixo meretrício mais conhecidas e frequentadas da capital nos tempos áureos, quando a goma valia a peso de ouro. Foi um cenário marcado por discussões causadas pela combinação de álcool e ciúme. Aquele ambiente foi também palco de acontecimentos dramáticos nas décadas de 40, 50 e 60.


“Taboquinha”


A boate Taboquinha era conhecida por seu formato peculiar, lembrando um grande chapéu de palha, e atraía homens e mulheres de diversas origens. Localizava-se no fim da Quintino Bocaiúva, perto do 4º BIS, início da estrada antiga para Porto Acre, onde havia um centro comercial e carros de fretes que atendiam os colonos. De lá se cruzavam as terras do coronel Sebastião Dantas, que hoje é o bairro das Placas indo para Porto Acre.


Há relatos que o bar e boate Taboquinha encerrou suas atividades por conta de um tiroteio. Um importante figurão da cidade teria matado um desafeto. Casais que gostavam da noite também frequentavam o local apenas para se divertir. O sexo ficava para quando chegassem em casa.


“Tabira”


Localizada próxima à entrada do Manoel Julião, na rua Isaura Parente, esquina com a rua José Kairala, região da Estação Experimental, a boate Tabira era um ponto de referência para quem buscava experiências marcantes nas noites de Rio Branco. O ambiente se destacava pela presença abundante de mulheres, criando um cenário de intensa movimentação e encontros.


O Tabira era frequentado por homens de diversas classes sociais, que buscavam viver momentos de paixão sem amarras. O local era marcado por uma única regra: ali, as pessoas se encontravam para promover o amor e sexo se entregando livremente, sem julgamentos ou restrições. Essa atmosfera permissiva e espontânea tornava a boate um espaço emblemático da vida boêmia da cidade, onde o desejo e a liberdade ditavam o ritmo das relações e dos encontros.


“Espanta Cão”


Não se espante com o nome, mas a boate Espanta Cão era uma das principais concorrentes do Tabira, ambas situadas na região da Estação Experimental, na rua Isaura Parente. Essa proximidade estimulava uma disputa saudável pelo público que buscava entretenimento nas noites de Rio Branco.


“Cajueiro”


Na área onde atualmente se encontra a Funbesa, na Estação Experimental, existia antigamente o conhecido muquifo chamado “O Cajueiro”. Ao contrário do que sugere a canção “Cajueiro Velho”, interpretada por Alcione, que fala de um cajueiro vergado, sem frutos, sem flores e sem vida, o Cajueiro local possuía uma energia própria e bastante intensa. O Cajueiro funcionava como um bordel movimentado, frequentado por muitos clientes e com grande quantidade de mulheres.


“Cantina Rex” (A lanchonete)


Durante o auge da Cantina Rex — um estabelecimento que funcionava simultaneamente como lanchonete, bar e boteco na movimentada avenida Nações Unidas (próxima a Caixa Econômica no coração da Estação — esses três locais destacavam-se como pontos centrais da diversão na cidade. Tabira, Espanta Cão, Cajueiro, Buraco do Rato e Cantina Rex formavam, juntos, um verdadeiro complexo dedicado ao lazer e à boemia.


A atmosfera desses lugares era marcada pelo consumo abundante da famosa cachaça cocal, símbolo de descontração e animação. O fluxo constante de pessoas circulando entre esses bares e boates fazia da região um polo de encontros, festas e histórias que ajudaram a moldar a vida naquela época. Vale ressaltar que muitas pessoas frequentavam ambientes noturnos acompanhados de suas companheiras apenas por pura diversão, se misturando às mulheres de vida fácil daquele tempo sem preconceitos.


 “Pombal”


O Pombal era um famoso conjunto de sobrados de madeira localizado na rua São Paulo, entre a Romcy e a avenida Ceará, próximo ao cemitério São João Batista. Conhecido por abrigar prostitutas, ganhou o apelido de “puteiro residencial” porque as mulheres moravam no local. Eram muitos os homens da cidade que afluíam cedo da noite para o Pombal em busca de amor e sexo.


“Bola Preta”


Antes de receber o nome Ladeira do Bola Preta, o local era frequentado por mariposas atraídas pela luz. O cantor Nelson Gonçalves já alertava: “Lembre, Mariposa, que toda luz se apaga.” O Bola Preta tornou-se um ponto de encontro noturno para prazeres mundanos, ganhando destaque especialmente após a chegada de famílias vindas do êxodo rural causado pela crise dos seringais.


“Boate Internacional na Rio Grande do Sul”


A rua Rio Grande do Sul desempenhava papel fundamental na dinâmica urbana de Rio Branco, conectando o centro da cidade ao aeroporto na região da antiga fazenda Sobral e estabelecendo-se como uma das principais vias de acesso para moradores e visitantes. Margeava o rio Acre passando pelo famoso “Morro do Marrosa”. O desbarrancamento do rio destruiu a avenida Rio Grande do Sul.


Nas proximidades do aeroporto, onde atualmente se localiza o Ginásio Coberto, situava-se a famosa casa noturna Internacional. O estabelecimento ganhou notoriedade por ser frequentado por homens de boa posição financeira, atraídos tanto pelo ambiente quanto pela exclusividade dos serviços oferecidos.


A principal atração da Internacional era a presença de mulheres trazidas especialmente de Cuiabá e Rondônia. Isso consolidou naqueles anos sua reputação como ponto de encontro de uma clientela exigente e de maior poder aquisitivo.


“Tangará”


Tangará não era considerado um bairro de classe média, mas sim uma boate localizada em uma área afastada da cidade. Este espaço se destacava por oferecer um ambiente propício para encontros discretos, atraindo pessoas que buscavam momentos reservados longe dos olhares do centro urbano.


Durante a década de 1970, o Tangará consolidou-se como um dos pontos mais famosos da vida noturna local. Era marcado por muita música, dança e bebidas, reunindo frequentadores conhecidos por sua elegância. Assim, Tangará tornou-se referência para quem desejava desfrutar de noites animadas, embaladas por diversão e anonimato.


A ascensão da “Boate Porta Aberta”


Segundo relatos de moradores antigos, a boate Porta Aberta destacou-se como uma das principais casas noturnas de Rio Branco. Inicialmente localizada na região da Seis de Agosto como o nome de “Porta Larga” (talvez inspirada em uma passagem bíblica que fala do caminho largo para o inferno dos prazeres) posteriormente estabeleceu-se em um endereço privilegiado, ao lado do Posto Policial da Corrente, no cruzamento da BR-364 com a AC-10, via que dá acesso ao Quinary.


O local tinha estrutura simples, com tábuas, salão central e quartos laterais de madeira, funcionando como um precursor dos motéis da cidade (lembrava as boates que se vê em filmes do Western. Oferecia água em abundância e banheiros rústicos, mas atendia à demanda. As roupas de cama eram lavadas em uma das primeiras lavanderias da região. A presença de mulheres de diversos estados atraía homens de diferentes classes sociais.


A boate Porta Aberta representou um marco para uma geração que vivenciou tempos de vida simples e relações íntimas. Seu funcionamento refletia uma rotina onde o sexo, apesar de ser uma atividade remunerada, integrava naturalmente a dinâmica social, perpetuando práticas já comuns desde épocas anteriores.


Praça da Bandeira: Dualidade e Vida Noturna


Situada bem no coração da cidade a Praça da Bandeira escondia, em meio ao movimentado comércio da época, locais dedicados à prostituição. Entre esses pontos, destacava-se o conhecido “Açougue do Carneiro”, frequentado predominantemente por mulheres desprovidas de atributos físicos convencionais, mas dispostas a tudo, remetendo à figura de Geny, personagem icônica de Chico Buarque de Holanda.


Em contrapartida, havia também o espaço chamado “A Beleza da Rosa”, local onde se misturavam pessoas dos mais variados perfis e origens, tornando-se um ponto de encontro diverso e plural dentro do cenário urbano. Sempre regado a cachaça, conhaque, cortezano e outras bebidas da época.


Vale ressaltar que toda a movimentação da cidade girava em torno do Rio Acre, principal via de chegada e partida de aventureiros, que utilizavam navios, lanchas e gaiolas como meios de transporte. À época ainda havia o embarque de castanha e borracha e a chegadas produtos manufaturados e migrantes que vinham em busca de riqueza e aventuras.


Assim, a Praça da Bandeira não apenas refletia a dinâmica do comércio e do cotidiano local, mas também se integrava ao fluxo intenso de histórias, encontros e despedidas marcados pela vida às margens do rio.


 Em meio a essa atmosfera de liberdade velada, surgiam personagens emblemáticos que transitavam entre luzes e sombras, compondo o mosaico cultural de Rio Branco. Mulheres destemidas, músicos boêmios, trabalhadores das noites e jovens curiosos cruzavam caminhos, criando laços que desafiavam as convenções sociais e ampliavam os horizontes de uma cidade sedenta por vivências autênticas.


Cada noite trazia novas narrativas, permeadas por segredos e promessas, enquanto os bares e prostíbulos se tornaram refúgios para amores proibidos e sonhos sussurrados ao pé do ouvido.


Assim, parte significativa da identidade acreana se firmava não apenas nos grandes comércios, nas grandes avenidas, mas principalmente nos becos, vielas, bares e salões onde o desejo, a música e o anonimato reinavam soberanos, eternizando uma era marcada por intensidade, ousadia e pelo fascínio do desconhecido.


Imaginar a trajetória da humanidade sem a presença das relações íntimas é, de certo modo, negar a própria essência da vida e sua dimensão mais genuína. Desde os primórdios, o convívio entre pessoas sempre foi marcado pela busca de afeto, desejo e proximidade física, elementos que transcendem épocas e culturas.


Ao longo dos séculos, as relações íntimas se manifestaram das mais variadas formas, integrando o cotidiano e contribuindo para o desenvolvimento social e emocional dos indivíduos. A sexualidade, longe de ser um mero ato físico, revela-se como parte fundamental da natureza humana, influenciando comportamentos, valores e tradições.


Negar a existência ou a importância dessas relações é ignorar um aspecto central da experiência humana. Elas estão presentes nas histórias pessoais, nos vínculos familiares e nas interações sociais, constituindo uma força motriz que impulsiona o viver e o conviver.


Em suma, a história é, em grande parte, também a história das relações íntimas que moldaram e sustentaram a vida até nossos dias. Rio Branco tem a sua própria narrativa na formação histórica de sua brava gente.


*Muitos personagens, inclusive, donos de alguns desses estabelecimentos ainda estão vivos em idade avançada.


(Continua para os anos 1980…)


(Com a colaboração do repórter policial mais antigo do Acre: Antônio Carlos Batista)