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Sem mapa, sem caminho: sobrou um olhar

Deu a lógica: o desfecho melancólico da COP30 marca bem o espírito da época em que se vive. A imprensa hegemônica só não mancheta que a conferência foi um sonoro “fracasso” em função da simpatia que alimenta pela ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Marina Silva. É bem verdade que ninguém, com o mínimo de decência e bom senso, credita à ministra brasileira o resultado pífio. Por ela, todos sabem, o resultado seria bem diferente.

Foto: Wilton Júnior, Estadão

Mas a COP30, em Belém, revelou o que já se sabe; já se vê e já se sente. Os países ricos têm, na agenda ambiental, ou um engodo patrocinado pelo que chamam de uma “pauta de esquerda e radical” ou um fator que trava o crescimento das empresas e dos projetos de “desenvolvimento”. Essa é, em síntese, a retórica genérica.
Os Estados Unidos não participaram, mas deixaram o cão de guarda: o posicionamento da Arábia Saudita de, praticamente, não admitir sequer manter o que ficou combinado na COP29, em Baku, aponta para um retrocesso. A China participou, protocolarmente.

Quem conseguiu se alimentar com alguma esperança com as duas propostas apresentadas pelo presidente Lula na Cúpula dos Líderes deve estar frustrado. Só lembrando o que o presidente brasileiro propôs: ele trouxe a ideia de se criar um “Mapa do Caminho” para o fim do uso de combustíveis fósseis. Cada país teria que estabelecer metas claras e dizer como iria, gradualmente, fazer a transição energética, até chegar ao uso pleno das energias de bases ambientalmente sustentáveis e renováveis. A segunda proposta era zerar o desmatamento.

A proposta do “Mapa do Caminho”, embora lógica e absurdamente necessária, foi apresentada no fórum por alguém que estava desautorizado a tratar do assunto após o fator “exploração de petróleo na Foz do Amazonas”.

Aliás, Lula usou a expressão “lenga lenga” para criticar a suposta demora do Ibama para liberar a autorização dos estudos de prospecção. Ou já nos esquecemos disto? O militante lulista mais apressado (ou o pseudo-intelectual de plantão) pode se rebolar na retórica que não vai conseguir desatar o nó desse paradoxo.

Beira o cinismo a tentativa de defesa de que parte do recurso utilizado por uso do combustível fóssil é usada na “transição energética justa”. Os cientistas alertam que o cenário exige posturas práticas, ações concretas e urgentes na busca pela substituição. Não cabe mais a defesa midiática do uso de energias renováveis e, na prática, comemorar o barril de petróleo que existe no quintal. Aliás, nessa toada, o PT é imbatível de lideranças que se comportam assim, com destaque para o senador Randolfe Rodrigues (PT/AP).

Essas contradições tornam a COP30 uma experiência inacabada. Os grandes agentes econômicos (e poluidores) ou negam as evidências das mudanças climáticas ou minimizam o caos que se avizinha. Qual é a retórica construída pelo presidente da COP30, o simpático embaixador André Corrêa do Lago? A fala é: o mandato dele na presidência da conferência extrapola o período da COP30 e que o “Mapa do Caminho” será levado a outras instâncias de debate pós-Belém. Isso não ameniza a fragilidade do que se apresentou nas duas últimas semanas na agenda ambiental.

Houve um aspecto positivo: a COP30 foi uma conferência de participação popular. Foi bonito ver as ruas de Belém com passeatas e expressões culturais de dezenas de povos indígenas de todo país. Foi simbolicamente forte a imagem do presidente da COP olhando o bebê do povo Munduruku. No diálogo silencioso, entre o embaixador e a criança, há quem tenha ouvido o seguinte debate entre os dois. “Prometo fazer o que for possível”, dizia Lago com o olhar. A resposta veio em tom de quem tem pressa: “Faça o impossível. Estou aqui para lhe exigir isto!”. Em tempo, os Munduruku vivem sobretudo no Pará e no Amazonas. Na COP30, exigiram que o governo Lula mude o cenário de projetos de desenvolvimento que não incluem as comunidades: créditos de carbono sem consulta prévia, portos privados, hidrovias, ferrogrão. Tudo feito com justificativa econômica sem o convencimento político de quem é impactado por esses projetos. O olhar da criança Munduruku não deveria incomodar apenas o embaixador. Todos deveriam se sentir intimidados por aquele olhar.

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