A Globo vem há algumas semanas mexendo em Três Graças na ilha de edição. A medida não tem relação com tentativas de turbinar a audiência, como ocorreu com Mania de Você (2024), cujos primeiros episódios foram picotados –até demais– pela emissora. Agora, a intervenção ocorre por um motivo técnico: os capítulos entregues por Aguinaldo Silva estão ligeiramente mais curtos do que o necessário para ocupar a faixa.
Esse é um movimento até comum nos bastidores, que já afetou até folhetins de sucesso, como Vai na Fé (2023). Apesar disso, também traz riscos. Um deles foi o que acabou atrapalhando Um Lugar ao Sol (2021), que foi alongada à força para dar mais tempo de produção ao remake de Pantanal (2022).
O folhetim de Lícia Manzo, que recentemente voltou a reforçar o time de autores da Globo, acabou perdendo os seus ganchos. Ou seja, aquela cena mais forte no final do capítulo para prender a atenção do telespectador e, assim, incentivá-lo a assistir à história no dia seguinte.
Até aqui, Três Graças conseguiu manter os seus ganchos até que bem intactos, já que a edição tem preferido puxar cenas de menor impacto do próximo capítulo para manter o tempo de arte. Essa medida, porém, não é à prova de falhas.
Especialmente porque os autores –ainda mais alguém do quilate de Aguinaldo Silva– também criam “microganchos” dentro de sua história. São as sequências pensadas especialmente para serem exibidas antes do intervalo comercial, a fim de evitar que o público zapeie por outros canais.
Esses ajustes ajudam a explicar, ainda em partes, porque Três Graças tem perdido alguns décimos importantes na Grande São Paulo.
A novela das nove já foi superada até por Êta Mundo Melhor!, sobretudo porque –com a mudança de comportamento no horário nobre– tem que se esforçar ao máximo para que o público não mude de canal, migre para o streaming ou desligue a televisão após às 22h.
A Globo ainda acredita no potencial de Três Graças, que segue elogiada internamente, nas redes sociais e até pela crítica especializada. Mas o ajuste fino na ilha de edição mostra que até mesmo produções de peso precisam de calibragem constante para se adequar ao novo consumo televisivo.
Em um cenário em que cada minuto conta, a diferença entre um corte preciso e um excesso de remendos pode definir se o público permanece ligado diante da TV –ou se desliga o aparelho antes do último gancho.


















