Menu

A contabilidade pública e o silêncio criminoso

O artigo do professor e economista Orlando Sabino da última quinta-feira (9) merece reflexão adicional. O quadro é grave. E sugere postura mais equilibrada em torno da situação real do que a economia regional tem oferecido. A cena toda desautoriza qualquer leitura otimista.

O primeiro ponto de destaque é em relação à arrecadação do ICMS. O período avaliado pelo economista foi de janeiro a agosto. Esse é o recorte temporal. Houve queda de, aproximadamente, 1,3% na arrecadação. Em 2024, a Sefaz colocou R$ 1,45 bilhão para dentro do cofre. Em 2025, caiu para R$ 1,43 bilhão.

E não há outra leitura possível: queda na arrecadação de ICMS é, na economia local (frise-se: na economia local), reflexo direto de desaquecimento da atividade econômica, fundamentada no comércio. “Em caixa, são R$ 19 milhões a menos de poder de compra, apesar do avanço nominal de 3,7%”, aponta o professor Sabino.

Mas alguém pode questionar, em um surto de tentar defender o Governo do Estado. “Mas não houve aumento nominal?” Verdade. Mas o professor Sabino ensina na sequência. “A inflação engoliu o ganho”.

Logo após mostrar como a economia real está desaquecida na região, Sabino expõe que, por outro lado, a importância do Fundo de Participação dos Estados (FPE) aumentou no orçamento público. As transferências da União pelo FPE voltaram a crescer. Em tradução de boteco, seria permitido dizer que o Governo Federal ficou mais generoso com o Acre.

Sempre tendo como referência o recorte temporal de janeiro a agosto, os números são os seguintes: em 2025, o Estado do Acre recebeu R$ 5,16 bilhões do FPE. Esse montante representa aumento real de 7,5% sobre o mesmo período de 2024.

Então, os vetores de arrecadação de ICMS e do FPE estão em sentidos contrários: o primeiro em queda e o segundo em alta. Isso traz uma responsabilidade medonha às equipes da Secretaria de Estado de Fazenda. A orientação técnica que oferecem é de gasto mínimo com a máquina pública. E estão corretos. Com a economia desaquecida, com queda na arrecadação e dependência ainda maior dos repasses federais, como aumentar os gastos com a manutenção da máquina pública?

Um lugar em que o FPE é responsável por 55% da Receita Corrente Líquida está desautorizado, tecnicamente, a fazer qualquer estripulia na gestão. E isso deveria ser objeto de muito debate entre servidores, sindicatos, gestores públicos e TCE. Há situações em que a contabilidade deveria se sobrepor ao cenário político. “Deveria” está conjugado no futuro do pretérito. Portanto, condicional. E o “se” apresenta um mundo cheio de possibilidades: um perigo para as contas públicas.

Outro apressado na defesa oficial poderia se desesperar agarrado ao argumento do aumento da Receita Corrente Bruta (em 2023, R$ 7,05 bilhões; em 2024, R$ 8,45 bilhões e em 2025, R$ 9,38 bilhões). “Olha aí! Olha aí! Vocês da imprensa são abutres! Só veem a metade do copo vazio!”.

Esse é o problema: a Receita Corrente Bruta só encanta aos interessados. Na economia real, há os custos reais da manutenção da máquina pública e há as despesas constitucionais obrigatórias. O diabo é que existe a vida real. E o que se coloca para dentro do cofre não tem dado muita segurança.

O Acre ainda depende muito dos recursos externos. Não tem conseguido criar, internamente, alternativas econômicas sustentáveis com distribuição de renda. Novamente, em uma tradução de boteco: “não tem conseguido fazer ‘dinheiro novo’”. E repare o leitor que ninguém nem falou aqui em capacidade de investimento. Com as atuais contas públicas, isso é um luxo por aqui.

Tendo esse cenário como referência, chega a ser hilariante as caneladas de ordem política que se assiste atualmente no noticiário local. Uma classe política sem nenhuma (ou com pouca) identidade com a geografia e com a Cultura do Acre; observa a floresta como inimiga; ainda estabelece uma falsa dualidade entre “defender os homens ou defender os macacos”; apresentam 49 candidatos ao Senado com a meta de fulminar o STF e gerar o contexto de criação de uma acaciana “Novíssima República”, baseada na lógica do “menininho de azulzinho e menininha de rosinha”. Sobre o que realmente importa para melhorar a qualidade de vida do acreano, poucos falam. Um silêncio criminoso.

Siga o ac24horas no Google Notícias e seja o primeiro a saber tudo que acontece no Acre

Seguir no Google

Veja também

Newsletter

Fique por dentro do que acontece no Acre

Receba em primeira mão as notícias mais importantes do estado direto no seu e-mail. Política, economia, segurança e tudo que impacta a vida dos acreanos.