No coração da Amazônia Ocidental, onde a biodiversidade se revela em aromas e sabores ainda pouco explorados pelo grande mercado, um pequeno negócio nascido em um charmoso contêiner reciclado está redefinindo o conceito de sorvete e, ao mesmo tempo, desenhando um novo horizonte para o empreendedorismo local. A Nãnê Sorvete Amazônico, idealizada pela visionária chef de cozinha Izanelda Magalhães, deixou de ser uma promessa para se tornar um fenômeno em Rio Branco. Agora, com a inauguração de uma moderna planta industrial e o lançamento de uma linha de picolés, a marca se prepara para um salto ainda maior: a conquista do Brasil por meio de um audacioso e inclusivo sistema de franquias. A trajetória da Nãnê não é apenas uma história de sucesso empresarial; é um retrato vívido do potencial econômico do Acre, que busca na bioeconomia e na valorização de seus recursos naturais um caminho para o desenvolvimento sustentável, mostrando como a inovação pode brotar do chão da floresta e gerar emprego, renda e identidade cultural.

Foto: Sérgio Vale
O cenário econômico do Acre, embora repleto de desafios logísticos e de um mercado consumidor mais restrito em comparação com os grandes centros do país, tem demonstrado uma resiliência notável, ancorada justamente na força de sua vocação amazônica. Enquanto setores tradicionais buscam se modernizar, é no empreendedorismo que reside uma das forças motrizes da transformação. Iniciativas como a Nãnê exemplificam uma tendência crescente de negócios que não apenas vendem um produto, mas oferecem uma experiência atrelada à origem, à sustentabilidade e à autenticidade. Em um estado onde a agricultura familiar e o extrativismo são pilares sociais e econômicos, a sorveteria de Izanelda cria um elo poderoso na cadeia produtiva. Ao adquirir polpas de frutas, sementes e outros insumos diretamente de produtores rurais locais, cooperativas extrativistas e agroindústrias, a empresa não só garante a matéria-prima mais fresca e genuína, mas também fomenta um ciclo virtuoso de renda, valorizando o trabalho de quem vive da floresta e mantendo o capital circulando dentro da própria comunidade.
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A Alquimia dos Sabores: Da Cozinha do Bistrô à Produção em Larga Escala
Tudo começou de forma modesta, na cozinha do Jannu’s Bistrô, restaurante de alta gastronomia com a assinatura de Izanelda Magalhães, já conhecido por sua habilidade em traduzir a riqueza amazônica em pratos sofisticados. Os sorvetes, inicialmente criados para compor o cardápio do bistrô, rapidamente ganharam fama própria. O passo seguinte foi a criação de uma Unidade de Validação no Parque Horto Florestal, o mais antigo parque urbano do estado. Dentro de um contêiner, com uma equipe enxuta de três pessoas, a Nãnê começou a produzir cerca de 300 quilos de sorvete por semana, conquistando um público fiel com sabores que evocavam memórias e sensações únicas. O sucesso foi impulsionado pela participação no Inova Amazônia, um programa do Sebrae Nacional focado em startups, que deu o suporte necessário para que a ideia se transformasse em um plano de negócios robusto.

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A transição para a nova fábrica, localizada no bairro Bosque, representa uma mudança de paradigma para a empresa. “Produzia sorvetes para o meu restaurante e comecei a produzir em uma escala um pouco maior. Quando surgiu o Inova Amazônia, resolvi desenvolver uma sorveteria baseada em frutas, cascas de árvores, folhas e sementes da Amazônia. Deu certo a primeira fase e agora estamos aptos a produzir em larga escala nessa fábrica com equipamentos de última geração”, explica Izanelda. Os números ilustram a dimensão do crescimento: a capacidade produtiva saltou para 200 quilos de sorvete por hora e mil picolés simultaneamente, exigindo a contratação de mais oito trabalhadores. Essa expansão não foi apenas quantitativa. Para garantir que a qualidade artesanal não se perdesse no processo industrial, a Nãnê buscou a consultoria de Francisco Santana, um dos maiores especialistas em sorvetes naturais do mundo. “Ele é averso à produção de sorvetes com produtos artificiais e saborizantes. Ele trabalha exclusivamente a fruta porque o Brasil é muito rico em fruta. Essa qualificação ele passou para a gente aqui, passando uma semana no Acre, produzindo e baseando tudo em frutas frescas sem água”, detalha a chef. Esse rigor técnico permite aferir validade, temperatura ideal de transporte e todos os parâmetros necessários para levar o produto a qualquer lugar do país com a máxima qualidade.

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Criando Memória Degustativa com a Alma da Floresta
O grande diferencial da Nãnê, segundo sua fundadora, é oferecer o que os outros não oferecem. A marca se propõe a ir além do simples ato de consumir um doce gelado; ela busca criar uma “memória degustativa”. “Uma coisa é a lembrança boa, mas é diferente de você ter memória degustativa, porque a memória degustativa é uma coisa muito importante para o ser humano. É aquela comidinha da sua mãe, o feijão da sua mãe, que você lembra até o final da sua vida”, filosofa Izanelda. Para isso, ela mergulha no conhecimento ancestral e na biodiversidade local. O próprio nome “Nãnê” significa Jenipapo em uma linguagem ancestral, fruta de proteção para os povos originários. Sabores como Cumaru de Cheiro, uma semente aromática usada em chás, xaropes caseiros e até no rapé indígena, são transformados em picolés e sorvetes, conectando o consumidor a uma cultura e a um ecossistema.

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Essa busca pela autenticidade se reflete em combinações inusitadas e surpreendentes, como Cupuaçu com Pitaia ou a ousada mistura de Acerola com Chicória, uma erva tipicamente usada em pratos salgados na culinária amazônica. “Quando você pensa em chicória, pensa no caldo do peixe, no feijão. Quando a gente traz ela para o sorvete, todo mundo diz que não vai dar certo, mas quando você coloca na boca, tem uma surpresa”, conta a empreendedora. A Nãnê se posiciona como um contraponto à padronização da indústria alimentícia, que, segundo Izanelda, tem limitado o paladar das novas gerações a sabores básicos como baunilha, chocolate e um açaí muitas vezes descaracterizado. “Tem uma geração toda que está vindo agora que ela só reconhece três sabores. Muitas pessoas nascidas na Amazônia a partir dos anos 2000 não reconhecem o sabor da graviola, não sabem o que é um Araçá-boi. Queremos resgatar isso”, afirma. Em parceria com a Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (Funtac), a marca desenvolve essências a partir de cascas de árvores e já planeja lançar sabores como Jatobá e Açaí com Mutamba, uma planta medicinal, aprofundando ainda mais sua conexão com a floresta.

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Um Modelo de Negócio com Propósito Social e Ambiental
A visão de Izanelda Magalhães transcende o produto. O plano de expansão através de franquias é desenhado para ser acessível e ter um forte impacto social. A ideia não é apenas abrir lojas em shoppings de grandes capitais – embora já exista uma lista de interessados em São Paulo, Brasília e Rondônia –, mas também criar um modelo popular que possa gerar renda em comunidades locais. “Queremos que, por meio de comodato, as senhoras de casa possam ter renda e colocar um freezer nosso em todo canto desse Acre. Onde tiver movimento, que tenha um freezer nosso espalhado nos bairros, nas praças. Queremos fazer com que o nosso negócio possa mudar vidas”, projeta. Essa estratégia de capilaridade, se bem-sucedida, pode transformar a Nãnê em uma marca onipresente no cotidiano acreano, resgatando a nostalgia de sorveterias de bairro que marcaram época, como a lembrada “Sorveteria do Fabiano”, famosa por seus sorvetes “da fruta de verdade”.

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A sustentabilidade é outro pilar inegociável. Do palito à embalagem, todos os materiais utilizados nos picolés e sorvetes são biodegradáveis, um compromisso que reflete a origem e a filosofia do negócio. A expansão física também segue um modelo pensado para se integrar à vida da cidade. Após o sucesso da unidade no Horto Florestal, a segunda unidade de validação está prestes a ser inaugurada em um trailer no Lago do Amor, próximo ao Parque Ipê, um local frequentado por praticantes de atividades físicas. “Essa unidade foi pensada para as pessoas que fazem exercícios na região e querem um produto de qualidade, seja um sorvete com gosto de Amazônia ou os nossos picolés”, destaca a chef. Ao ocupar espaços públicos de lazer e convivência, a Nãnê reforça sua identidade como uma marca que faz parte da paisagem e da rotina das pessoas, oferecendo uma pausa refrescante e genuinamente local. A Nãnê, portanto, não está apenas vendendo sorvete; está embalando e distribuindo a cultura, a biodiversidade e o potencial do Acre, um sabor de cada vez.
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