Estou no ninho das grandes aves de chilro estrondoso. Além, muito além das vidraças, acima das nossas cabeças, depois das escadas rolantes e dos elevadores panorâmicos, olhando para o além se vê entre as nuvens a chegada de centenas dessas criaturas metálicas, coloridas, brilhantes, magníficas. De asas sempre tesas e rabo duro, e sovacos cuspidores de fogo e fumo esticam suas patas de pés redondos e só então trinam, quando tocam o solo num pouso magistral.
Bufa, ronca e zune perenemente… Demonstra cansaço a ave maior, por conta de seu voo intercontinental. De sua boca lateral regurgita centenas de pessoas que se afastam dela em passos acelerados – provavelmente por medo que as engula de novo. Ao derredor pequeninos seres humanos trabalham para seu bem estar, limpando-a, alimentando-a, enquanto excreta bolotas de todo tamanho, formato e padrões de cores. É um dejeto extraordinário ao qual jamais se igualará qualquer cocô de qualquer ser desta dimensão.
O saguão da rica gaiola iluminada é repleto de transeuntes agoniados, para ali, para acolá buscam o ir e o voltar, por vezes parando para cutucar objetos brilhosos que têm nas mãos ou simplesmente, como famintos que são tomar um desjejum após horas de terror contido entre as nuvens e agora de volta ao chão. Alguns folheiam jornais, observam vitrines, perguntam retóricas aos uniformizados no afã de sentirem-se presentes, como se quisessem dizer que ainda estão aqui, que existem, que vivem.
Pelas plataformas deliberadamente engendradas, seres humanos caminham sorridentes. Acenam para trás, seguem arrastando suas esperanças no rumo da goela da grande ave que as acomoda em suas entranhas cientificamente refrigeradas. Ao derredor parentes, amigos e curiosos também acenam, dão adeus, pois que à Deus cabe se irão e, porventura voltarão. De barriga cheia o pássaro de aço, de beleza plástica assume sua majestade. Diante dos olhos molhados dos que ficam admirados pela sua grandeza faz seu poético passeio pela terra.
Os humanoides afastam-se velozmente de suas poderosas patas. De ouvidos tapados com aparelhos que protegem os tímpanos, de longe ainda escutam e sentem seu barulhento cantar. Tremulam as vidraçarias, os copos e garrafas tilintam, os pelos dos braços arrepiam-se, as lágrimas escorrem, a ave alça voo. Deixando atrás seu rugido ela corta o espaço, desenha no azul seu desaparecer no rumo do céu. Ah, como é bonito de ver! Dá um aperto no peito da gente que vai, da gente que não foi. Ah, como é bom voar!