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Fronteiras agrícolas e o método do solavanco

Foto: Reprodução/Internet

A integração econômica com o Peru é uma construção vagarosa. Seria dito em outros tempos: “obra de Igreja”. Rasteja, engatinha, arrasta-se. Ano passado, daquilo que o Acre exportou, 28,47% foram para o Peru. Rendeu US$ 24,8 milhões. Pensando na economia de um estado, é dinheiro miúdo. Ainda não paga nem o tanto que já se falou sobre o assunto nem o que já se investiu na aproximação dos irmãos andinos. Mas é preciso reconhecer que uma relação sólida leva tempo mesmo. Há, no entanto, uma sutileza que exige uma reflexão intensa para não causar desequilíbrios, nem de um lado e nem de outro da fronteira.

A expressão “integração econômica” fica um pouco subjetiva, distante, quando não se busca elementos concretos. O leitor de sites de notícias tem se deparado, com cada vez mais frequência, com informações de grupos empresariais do Acre que vão ao Peru, acompanhados de parlamentares e gestores públicos. Simplificando a explicação, querem “dinamizar o comércio”, oferecendo ração animal, ovos de galinha, café, castanha e comprando truta salmonada, morangos, laranjas, cebola, alho. É um escambo revisitado.

O trabalhador rural, o agricultor de base familiar do Acre, ao se deparar com essas notícias, precisa ficar atento. Normalmente, comprar hortifrutigranjeiros de lá é estimular a cadeia produtiva e a geração de renda lá.

Os parlamentares entusiastas da integração precisam ter o cuidado de fazer a aproximação, mas de forma calculada. Para isso, têm que ter régua e compasso bem regulados com o Governo do Acre para que não se estabeleçam desequilíbrios. Estimular a agricultura do lado peruano em detrimento da penúria do agricultor daqui não é bom nem para o Acre e nem para os votos dos parlamentares.

É bem verdade, no entanto, que o cenário da agricultura acreana (para usar uma expressão bem regional) “não se garante”. Vários fatores ajudam a explicar. O primeiro e fundamental: não existe um Plano Agrícola. Não existe uma Política Agrícola.

Sem um instrumento de referência para nortear o que fazer, as coisas vão acontecendo na base do improviso e das circunstâncias. Atualmente, a circunstância dita “plante café”. É a moda. Rende manchetes e algumas cifras, mas não é algo que dê segurança nem a quem produz e nem ao cidadão que depende dessa produção para garantir o que comer.

Sem uma política agrícola definida, ficam fragilizadas a assistência técnica e a infraestrutura. É importante o leitor observar a cena sem paixão e sem partidarismo. Repare se não é exatamente isto o que acontece: não há política clara para a área agrícola; não há infraestrutura (pontes, ramais); assistência técnica é fraca, dependendo do engajamento e do voluntarismo heróico de poucos e já cansados extensionistas rurais. É exatamente isto. Há lugares do Acre em que o agricultor vive uma rotina produtiva do século XIX. Sem exagero.

E o que isso tem a ver com a integração econômica com o Peru? Tudo. Primeiro torna o agricultor do Acre mais vulnerável, sem condições de competir. Segundo: força quem decide pela integração a relativizar a ideia. “Se eu não estimular a integração com o Peru, eu vou continuar comprando frutas e hortifruti da Ceasa de São Paulo? Afinal, o que fazer?”

O azar menor do Acre é que o Sul do Peru, cuja fronteira ocorre pelo Alto Acre, é a região mais empobrecida (monetariamente falando) do país andino. A área rural precisa de capital, tecnologia e infraestrutura tanto quanto do lado de cá.

Há uma diferença, no entanto: o governo peruano tem demonstrado querer estruturar a região para que ela atenda ao que o Acre precisar no que se refere a produtos agrícolas. Com destaque para os já citados morango, cebola, alho, laranja e truta salmonada. É a esse movimento que o site ac24horas chama atenção: pobres, os dois lados da fronteira são. Mas do lado de lá há indicativos de que uma decisão política quer investir na ideia de fortalecer a agricultura. Do lado de cá, o que se tem de “novidade” é que os agricultores dos ramais Jarinal e Olho D’Água (ambos na Transacreana) denunciam que uma emenda de bancada, de 2017, veio para beneficiar a infraestrutura da região. O lugar está um lamaçal só. Não são as fronteiras que dividem os povos. É a condução do processo que, quando estimula a produção, o faz aos solavancos.

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