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Nuvens, conveniências, fidelidade e a Gameleira

Existem as nuvens; existe a metáfora de fácil entendimento atribuída a Ulysses Guimarães e existem as conveniências de barranco do senador Marcio Bittar. As nuvens não exigem explicações. Soberanas na própria instabilidade, vez por outra garantem sombra a alguém ou carregam rios que despejam de um canto a outro a água que celebra a vida aqui e acolá.

A Ulysses é atribuído o raciocínio de comparar a atividade política à instabilidade das nuvens; como se o exercício da vida pública fosse movido por espécies malandras de “questões de conveniência”. Uma injustiça à história do “Dr. Diretas”, embora seja um fato, observada a vida de muitos políticos profissionais.

O que ele disse, no dia 5 de outubro de 1988, foi o seguinte: “Político, sou caçador de nuvens. Já fui caçado por tempestades. Uma delas, benfazeja, me colocou no topo desta montanha de sonhos e de glória. Tive mais do que pedi, cheguei mais longe do que mereço”.

Já o senso de oportunidade de Bittar e as conveniências de arraial que ele articula exigem mais tinta. Na semana passada, neste mesmo espaço, o site ac24horas tratou da hipocrisia ideológica que o período pré-campanha estava apresentando no Acre.

Lembrou-se aqui que as eleições para escolha de prefeito se diferem das demais porque são mais pragmáticas. Estão preocupadas com a lógica cotidiana do eleitor: o transporte coletivo, a educação fundamental, a necessidade de creches, a limpeza da cidade, ruas decentes, calçadas decentes, trânsito civilizado. É evidente (e isso o texto também lembrou) que as nuances mudam quanto maior (e mais rica) for a cidade: uma coisa é a eleição para escolha da Prefeitura de Sena Madureira ou Rio Branco. Coisa distinta é a escolha do prefeito de Belo Horizonte, São Paulo ou Rio de Janeiro.

Mas o senador Bittar, calculadamente, defende o contrário, dependendo das conveniências do barranco em que está. Preocupado em se reeleger ao Senado, com vistas a disputar o governo no primeiro vacilo do aliado mais negligente, ele quer manter viva a polarização que lhe trouxe a maior vitória política da carreira.

Para ele, é salutar manter acesa a chama daquilo que se convencionou chamar de “agenda de valores”, o debate ideológico no nível mais botequeiro possível: das questões de gênero ao debate religioso da forma mais superficial e maniqueísta possível, o que ele tem em mente é o bocado que ele quer que lhe caiba em 2026 ou 2030. Se isso custar a deseducação do eleitor ou a desqualificação do debate político… paciência! Isso é o que parte dos liberais dos trópicos entende da relação entre Meios e Fins, um tema que foi tão caro ao velho professor italiano.

De outra forma, não podem ser entendidas as críticas feitas por ele à aliança que o MDB de Rio Branco conseguiu construir para a disputa à prefeitura da Capital. Concentradora de quase metade da população do Acre, Rio Branco é estratégica para o calculador de votos. É na Capital que a manipulação nos moldes de um homem de família, de pátria e temente a Deus precisa ser mais eficaz. A crítica que ele faz ao MDB de Rio Branco, no entanto, não serve para a aliança de Cruzeiro do Sul, por exemplo. A permissividade depende da conveniência.

Também foi dito neste espaço semana passada e volta-se a frisar: o debate entre Esquerda e Direita está vivo. Em novos moldes, certamente; com novos instrumentos. Mas é um assunto da ordem do dia em todo o mundo. Em cada país, em cada região, apresenta-se de um jeito diferente, mas ele está lá, pulsando. Mas é bem verdade que a qualidade do debate e o nível de civilidade são instáveis e flexíveis, feito nuvens.
Nesse cenário, factual, Bittar é inteligente, perspicaz. Sabe desse contexto e o aproveita em cada oportunidade. Recentemente, criticou o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luís Roberto Barroso, tachando-lhe a alcunha de uma pessoa com “credibilidade baixa”. Uma agressão para demonstrar calculada fidelidade a um amigo novo, talvez.

Mas o prestígio do senador acreano não alcança muitos corredores de Brasília. Informado pela imprensa local do que havia dito o senador, Barroso virou a página com elegância: “precisamos conversar”. E talvez isso aconteça em breve, sobretudo com as demandas sobre o Orçamento Secreto, do colega de corte de Barroso, Flávio Dino. Ao final das contas, em todo o cosmos, Gameleira mesmo só há uma.

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