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“Paradoxo Tostines” e os desafios dos trabalhadores rurais

Alguma coisa está fora da ordem. O cenário porque passa o trabalhador rural, de todo Acre, mas, sobretudo, o de Rio Branco, é de agonia. As iniciativas pontuais, do Governo do Estado ou das prefeituras, em produtos muito específicos, geram uma falsa expectativa de que o contexto é de abundância, mas não é. A cena é bem outra.


Poucos lugares representam tão bem o contexto de pouco entusiasmo quanto o do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Branco. Em reportagens recentes divulgadas aqui em Rio Branco, fica claro o abandono. Onde antes havia 15, 16 mil trabalhadores reivindicando política pública, hoje não chega nem a cem.


É evidente que a responsabilidade por uma situação dessas não é exclusiva de governos (seja do Estado ou do Município de Rio Branco). O próprio trabalhador deixou-se ficar dependente das ações de governos. O sindicato quando fica “aparelhado” pelas instâncias de poder passa, automaticamente, a se distanciar de quem deveria representar. Passa a não ser plural, diverso, democrático, participativo. Quando ele se “aparelha”, ele se anula, sem perceber.


Quando o Partido dos Trabalhadores estava no poder por aqui, no afã de valorizar a classe do agricultor de base familiar, foi socando convênios e mais convênios; cursos e mais cursos; foi acomodando um ou outro diretor do sindicato nesta ou naquela secretaria. Como a máquina pública tem lá as suas limitações, não dava para ajudar a todos. Os dirigentes foram se afastando dos sindicalizados. Há uma evidente contradição. É quase a representação do “Paradoxo Tostines” (fazendo uma alusão a uma campanha publicitária muito popular nos anos 80 cujo slogan era “Tostines vende mais porque é fresquinho; ou é fresquinho porque vende mais?”).


Até mesmo a política pública federal dos governos Lula e Dilma mudaram o cenário. Os números foram apresentados em reportagem do último domingo (30) neste site. Não se trata de opinião, necessariamente. É contabilidade pública.


O fato é que de 2003 a 2006, figuras emblemáticas da nossa Geografia, da nossa Política e da nossa Economia foram lembradas como símbolos do fortalecimento da agricultura de base familiar: Josué de Castro, Celso Furtado, Herbert de Souza eram citados em entrevistas em que técnicos do governo se esforçavam para explicar o programa Fome Zero. Sem falar no Programa de Aquisição de Alimentos, Política de Preço Mínimo, o Compra Direto do Produtor e a reestruturação da Conab.


O país saiu do Mapa da Fome. Isso está sendo lembrado menos para falar de governos, mas para enaltecer a ação estratégica do agricultor de base familiar. Para garantir Segurança Alimentar, no Brasil, precisa-se, obrigatoriamente, rediscutir a valorização do agricultor de base familiar. Tudo aquilo que não tiver o agricultor de base familiar como referência é discurso vazio.


Lembra-se disto também porque, quando a classe trabalhadora rural se desorganiza, cria-se um terreno fértil para que o populismo agrário ganhe força. Slogans de campanha óbvios e vazios passaram a se agigantar diante a uma classe trabalhadora cada vez mais vulnerável. São obras feitas sem a devida discussão, sem o aval de quem deveria ser ouvido. Para além da retórica, o “ouvir” aqui é, de fato, atentar para o que diz o agricultor. Não se trata apenas de cumprir um protocolo oferecido pelas assessorias políticas do governador e prefeitos.
Recentemente, mais uma falsa polêmica foi criada. A clássica historinha dos debates sobre Desenvolvimento, fundamentada na geração de renda e riqueza com base no Desenvolvimento Sustentável. É uma estratégia quase tola de tentar retirar atenção dos problemas reais do cidadão, tanto da área rural e florestal quanto da cidade. É um desfocou calculado para encobrir uma série de tarefas não cumpridas.
Não adianta subir em trator ou posar para fotógrafos lambuzado de calcário. Os gestores do Acre precisam, com pressa, colocar o agricultor de base familiar na agenda pública. Aos trabalhadores, cabe a persistência. A retomada da reorganização olhando com desconfiança para todos, mas manejando a esperança com a teimosia necessária.


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