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Bocalom, Bolsonaro e a lógica da Dona Osmira

Bocalom está em festa. Com o “pisante” engraxado, tintura acaju reforçada nos raros e teimosos fios de cabelo, ele seguiu três dias em destaque político pleno pelos barrancos daqui. Mas há nuances que precisam ser detalhadas, para não se perder o brilho da cena na íntegra. Tudo gira em torno de dois grandes blocos de interesses: o primeiro e mais óbvio é o eleitoral.

Para explicar esse fator eleitoral, é preciso lembrar um cenário: o Acre é um recanto conservador dos mais cristalizados. Aquilo que se convencionou chamar de “conservadorismo de direita” faz lama por aqui há muito tempo. A experiência da “esquerda” no poder no Acre só perdurou por 20 anos porque quem ocupou o poder soube dialogar com esse espírito conservador do acreano e, claro, foi competente na gestão, oferecendo resultados práticos na vida de muitos, sobretudo na zona urbana. O fato simples que se quer reforçar neste espaço é que, no Acre, “ser conservador” é quase um orgulho natural.

Tendo essa referência, não é preciso muita imaginação para compreender a aceitação de Bolsonaro por aqui. E é nesse ponto que os interesses eleitorais mais imediatos se consolidam, sejam para o próximo outubro ou para outubro de 2026.

Bocalom sabe (inclusive diz isso abertamente nas entrevistas) que a presença do ex-presidente é capitalizada pelos agentes políticos locais. Para um público que considera o “imbrochável” uma pessoa “ungida” e, por isso (na concepção deles), inimputável, estar ao lado de uma figura dessas é estratégico. Entrar em um partido referendado por um ser iluminado desse nível, é meio caminho andado para a aceitação nas urnas na próxima eleição.

Mas que Bocalom não se iluda (como se iludiu com o Carnaval). Parte significativa desse eleitorado que venera Bolsonaro consegue fazer bem a distinção: “Bolsonaro é Bolsonaro; Bocalom é Bocalom”. Uma coisa é “fechar com o Capitão”; outra bem distinta é aceitar bovinamente a gestão da cidade que se desmancha, como ocorreu na chuva que atrapalhou a festa de filiação.

Nessa toada do “bloco de interesse eleitoral”, cabem também as figuras de Marcio Bittar, Alan Rick, Ulysses Araújo, Roberto Duarte e tantos outros. O guarda-chuva eleitoral os abarca. Há uma grande encenação: essas personagens todas têm plena consciência da gravidade da cena em que o inelegível Jair Bolsonaro está enroscado. Acompanham com lupa e informações privilegiadas todos os movimentos do Judiciário em Brasília.

Eles sabem como poucos que a reunião do dia 5 de julho de 2022, por exemplo, teve a declarada intenção de planejar um golpe de Estado; eles sabem também que o movimento de descredibilizar as urnas eletrônicas, não tem sentido senão para reforçar uma retórica criminosa de enfraquecer a democracia e a Justiça Eleitoral. Dessa turma, talvez quem destoa em um ou outro detalhe seja o deputado Roberto Duarte.

Mas os demais “fecham com o Capitão”. Aliás, alguns, como o senador Marcio Bittar, referem-se a Bolsonaro como “nosso eterno presidente”. Em uma avaliação mais imediata, toda essa demonstração de carinho tem cálculo eleitoral, com toques leves de teoria política de boteco e uma ou outra citação bíblica, com muito esforço decorada.

O outro grande bloco de interesse é menos claro. Guarda relação direta com o ex-presidente. Por que Bolsonaro veio ao Acre? No atribulado cotidiano de afronta à Justiça, com tantas reuniões com advogados para elaborar linhas de defesa, será que ele alimentava tanta ansiedade em receber o título de cidadão rio-branquense proposto por um obscuro vereador? Ou estava na mira dele a filiação de Bocalom ao PL como uma estratégia para amenizar a imagem de truculência e intolerância?

É evidente que não se trata disso. O Acre é estranho no currículo de Bolsonaro. Os quatro anos à frente da presidência demonstram isso. Basta olhar como deixou a BR-364. A imagem que “o Capitão” queria do Acre ele a teve tão logo desembarcou no aeroporto. Se o pensamento dele pudesse ser captado naquela hora em que ele sobe em uma caminhonete, seria possível ouvir: “Vim aqui para isto!” A cena dos “bolsonaristas” amontoados por uma selfie faz parte de uma estratégia para mostrar a quem vai sentenciar a possível prisão o seguinte vaticínio: “Prenda-me e uma convulsão nacional se fará!” É uma falsa e arrogante profecia que só alimenta o público que já o considera ungido. Falsa porque o brasileiro tem outras urgências para cuidar na rotina. Arrogante por se considerar acima da lei.

No Acre, Bolsonaro sentiu-se à vontade para falar tudo o que mede para dizer em outros lugares. Sugeriu que ele criou o Pix, reclamou de “traíras” (sem citar a ex-deputada Joice Hasselmann), falou de “viadagem”, de cidadão de bem, de armamentos, de Estado de Sítio autorizado pelo Congresso, de Joãozinho que não pode virar Mariazinha e de Mariazinha que não pode virar Joãozinho etc. etc etc.: tudo dito para delírio dos presentes.

“Onde nós erramos? Há até pouco tempo, todos os políticos eram iguais. Isso mudou. Começamos a mudar isso em 2018 quando fui eleito e mudei o sistema, mas não foi fácil. Não sou especialista em Segurança, mas liberando drogas, tirando arma da mão do cidadão de bem, imputando na cabeça dos jovens a ideologia de gênero, com certeza pioramos a segurança. Este ano temos eleição, temos o Bocalom aqui como pré-candidato à prefeitura. Dá para mudar essa realidade. Não tem mais cabimento votar na esquerda. O Bocalom não vai fazer milagre aqui, mas faz aquilo que é compatível e com responsabilidade, via de regra só se fala bem dele. É um orgulho ele estar se filiando ao nosso partido”.

D. Osmira Albuquerque, uma simpática senhora flagrada pelos repórteres do ac24horas na saída da Fieac, esperava por um abraço a Bolsonaro desde o aeroporto. Chegou às cinco da manhã na sede da Federação das Indústrias. Quando a caminhonete preta passou, levando o ex-presidente e ignorando o esforço da mulher, ela ficou brava. “Eu lá vou mais atrás disso! Estou desde às cinco da manhã para dar um abraço nesse homem que eu amo. Valeu à pena?”, esbravejou antes de ceder novamente. “Eu vou atrás dele aonde ele tiver. Fiquei triste. Fazer o quê? Mas quem ama perdoa!”. É o Acre. Na versão de sempre.

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