De origem muito pobre, filha de pai maranhense e mãe acreana, Natália Alves dos Santos, de 68 anos de idade, nunca teve vida mansa, mas jamais lhe faltou disposição para o trabalho. Quando perdeu o marido, em meados da década de 1980, resolveu vender doces com a ajuda dos filhos para dar conta do sustento da família. Mas descobriu que o tacacá era mais rentável e passou a se dedicar ao aprendizado da iguaria de origem indígena que faz tanto sucesso na Amazônia.

 

Viúva há cerca de 35 anos, Natália é uma senhora simples, simpática e de sorriso fácil, que nunca teve emprego público nem trabalhou em nenhuma empresa do setor privado. Também não teve a oportunidade de cursar nenhuma faculdade, mas criou e educou os sete filhos produzindo e vendendo sua arte culinária no centro de Xapuri, no histórico Palanque Municipal, onde se tornou uma das principais referências da cultura popular em uma cidade que já foi conhecida pelas suas iguarias e doces tradicionais.

 

Natália conta que começou a fazer tacacá depois de receber o convite de uma amiga, Carminha Veloso, que possuía um conhecido restaurante de comida caseira na Rua 17 de Novembro, em frente à Casa Portuguesa, de propriedade do casal de empresários Luis Morte da Costa, o “Luiz Gallo”, e Liet’s Arruda. Carminha também não dominava completamente o preparo do tacacá, mas incentivou Natália a prosseguir com a ideia.

 

Naquela época, os conhecimentos sobre a produção do bom tacacá eram monopolizados por algumas poucas mulheres, entre elas a saudosa Nena do Coco, que também ficou famosa pelo preparo do pato no tucupi mais saboroso do Acre. Mas Nena, afirma Natália, não gostava de ensinar os detalhes mais minuciosos do preparo do tacacá. “O jeito então foi aprender fazendo”, diz ela.

 

Na prática, os ingredientes e temperos foram se ajustando com o passar dos anos e o sabor do tacacá de Natália passou a agradar um número cada vez maior de pessoas. “No começo eu colocava o alho, a chicória e a pimenta de cheiro e depois coava o tucupi. Descobri que o segredo era fazer exatamente o contrário”, explica.

 

Natália faz questão de demonstrar o orgulho e a felicidade que tem com o ofício do tacacá. Para ela, a iguaria representa muito mais que um simples alimento ou um meio de subsistência. “O tacacá é a minha realização de vida. Sinto prazer em trabalhar com uma coisa que agrada tanto as pessoas, independentemente da idade ou da classe social”, diz.

 

 

Por mais de 30 anos, a empreendedora vendeu seu tacacá no Palanque Municipal, na Rua 6 de Agosto. Depois mudou para a praça Barão do Rio Branco, em frente à igreja de São Sebastião. Mas sua maneira de trabalhar continua sendo a mesma durante todo esse tempo: do modo mais artesanal possível e sem necessitar de nenhuma sofisticação. Foi assim que ela conquistou a sua fiel clientela, construiu sua casa e se tornou uma das pessoas mais conhecidas e queridas da cidade.

 

Um carrinho simples de madeira, que serve como transporte do tacacá de sua casa até o local de venda, também é o suporte para os molhos de pimenta bem temperados, a goma de mandioca, o camarão seco e o sal, para que o apreciador desse caldo arrebatador para muita gente dê o último retoque no sabor, segundo a preferência e o gosto de cada um.

 

O “Tacacá da Natália”, sem desprezo com o trabalho de outras pessoas que trabalham no ramo na cidade e também produzem um excelente produto, é um patrimônio xapuriense que precisa ser mais valorizado pelos nativos e conhecido pelos visitantes. Sua dedicação a esse ofício mantém viva uma tradição local das mais importantes, o que não aconteceu no caso das históricas doceiras da cidade, como Adelina Mortes e Maria Cossom, que produziam a melhor cajuína do Acre, legado que não teve continuidade.

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