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A lenda do homem que matava seringueiros com sernambi amarrado nas costas

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“O homem era ruim, moço. Um sujeito muito perverso, sem coração, sem alma e sem Deus. A sepultura dele está aqui por perto, em cima do barranco. Pode ir ver se quiser. Colocaram umas correntes em volta dela para a alma dele não fugir e atormentar pessoas por aí”.

A princípio, pensei ser mais uma das tantas histórias e lendas dos seringais às margens do rio Acre que ouvi de seus moradores transmitidas pelos antigos. Não, não era…a sepultura estava lá, cercada de grossas correntes. Eu mesmo vi.

Aconteceu em uma de nossas viagens em meados de 80 navegando no rio Acre com mestre Antônio Pelado e o finado Chicão. Passávamos por um estirão do rio, na margem esquerda avistava-se um paredão alto que ficava do lado da Bolívia, onde se localizava um antigo seringal Baturité. Segundo antigos moradores da região, controlado por um homem poderoso e cruel. O desses coronéis de barranca que lutaram com o Plácido na revolução. As terras dele foram conquistadas à custa de bala, suor e sangue.

Depois de passarmos pelo seringal Belmonte, chegando nas proximidades do Quixadá, na praia do Inferno, onde existe um velho navio fundeado, cuja carcaça de ferro aparece nos dias de verão quando o rio fica raso, da curva embaixo logo se avista o paredão. A velha barcaça sepultada nas águas é a cicatriz dos tempos em que a vida no rio Acre florescia. Foi a pique carregada de borracha em uma cabeça d’água violenta. Muitos que desafiaram a força das águas nos repiquetes perderam tudo, até a vida.

Mestre Antônio, no bico de proa cortando vento, eu no banco do meio e o Chicão no timão do cara branca riscando a água. Um Montgomery de 12,5HP, na patinha de 10,5 metros com um metro de boca. Nosso destino era acampar e pescar na região da Praia dos Paus, nos poços do Piauí, Fausto, já chegando na Patagônia. Depois planejamos descer para o Reduto e o poço do Jaraguá, onde as praias eram as mais lindas de se ver. A mata virgem, o igarapé banana com sua água doce e cristalina cheio de piaus e curimatãs. Verdadeiros paraísos nos meses de julho, agosto e setembro quando sopra um forte vento do sudoeste embalando toda a floresta colorida de verde com estampas de lilás e amarelo, época da floração dos ipês e outras árvores.

O murmúrio e o chiado das folhas embaladas pela brisa lembram uma sinfonia, é inspirador, doce aos ouvidos. Nessa estação, as árvores roçam umas nas outras criando atrito e emitindo um gemido que se escuta de muito longe na mata, lembrando o som que os golfinhos fazem nas profundezas do mar. É como se as árvores estivessem conversando entre si sobre os segredos da criação. A floresta é testemunha do tempo. Existem árvores que vivem até mil anos ou mais como as oliveiras em Jerusalém, onde Jesus suou sangue de tanta agonia.

Como disse, nos dias de verão o rio Acre fica manso, sereno e a água morna. A luz do sol da manhã por volta das nove, dez horas reflete um brilho espelhado de doer nas vistas. O céu, de um azul profundo com nuvens brancas formando castelos, bichos e monstros; o rio, as praias, os barrancos altos e a floresta. Beleza única que evoca o passado de quando a vida no campo e nas matas aproximava mais o homem de sua origem divina, principalmente no entardecer quando o Sol se deita no horizonte. Toda mata suspira, os bichos vão se aquietando. Então vem a noite com um céu estupidamente estrelado. Nos confins das colocações mais distantes os seringueiros tinham uma visão privilegiada do cosmos, principalmente nas noites sem lua. O homem, a floresta, o firmamento, Deus e um pequeno rádio. Ter um rádio era um luxo.

Da proa, contra o vento, mestre Antônio, voltando-se apontou para o paredão do rio falando em alta voz para que eu pudesse ouvi-lo, já que o barulho do motor ecoava de volta quando batia no paredão. O motor de popa ecoa longe no rio e na mata, é um som estalado, nostálgico, um som de viagem. A vida é uma viagem. Chegando ou partindo, subindo ou descendo o rio, um vai e vem como os barcos, e o tempo passando, e o tempo passando… até que tudo se acaba. O mundo gira e com ele as pessoas. O barulho do motor orientava e avisava aos moradores das margens, até das colocações do centro anunciando a chegada de barcos nalgum porto.

Como era a vida nos seringais

_ O dono desse seringal se instalou antes da Revolução Acreana há mais de cem anos, quando brasileiros tomaram essas terras da Bolívia. Foi na virada do século passado. Era um desses “coronéis” perverso; um homem ruim, mau. Costumava amarrar sernambi nas costas dos pobres dos seringueiros que acumulavam saldos no barracão e ateava fogo nos coitados amarrados em uma árvore. Sempre cercado de jagunços disfarçados de trabalhadores do barracão. Também mandava matar seringueiro de tocaia, no pé do toco, como fizeram com o Plácido no seringal Benfica. Era o que as pessoas daquele tempo contavam acerca desse lugar, hoje tomado pelo mato. A sepultura dele está aí em cima cercada de correntes…

Fiquei impressionado com o relato de mestre Antônio Pelado. Ele sempre me contava as histórias dos seringais, das famílias, de patrões e seringueiros. Despertou-me a curiosidade em ver o que restou do barracão e da tal sepultura com correntes que ele disse existir ali. Mas não havia tempo a perder, tínhamos outro objetivo. Talvez em outra oportunidade. Seguimos rio acima.

Durante a viagem acampando nas praias entre uma pescaria e outra perguntava ao mestre Antônio Pelado detalhes sobre a vida naquele seringal do paredão do rio nos tempos áureos da borracha, quando ainda era povoado pelos seringueiros e suas famílias.

Em um tempo já esquecido, os seringais tinham leis implícitas, códigos que serviam para escravizar ainda mais o seringueiro nas relações de produção de quem trabalhava na extração do leite da seringa e dos que verdadeiramente lucravam e usufruíram de sua riqueza, o ouro branco.

O seringueiro não poderia vender a borracha para regatões ou para outro barracão sob pena de ser punido com a morte, além de outros castigos severos. O pior que poderia acontecer era um seringueiro produzir bastante borracha para pagar a aviação (mercadorias do barracão) e tirar um bom saldo. Poderia morrer de tocaia. Era proibido colocar pedras, cocos de Ouricuri e barro dentro da pela de borracha para aumentar o peso. Considerado um crime.

Todavia, em alguns seringais, os patrões para estimular os seringueiros a produzirem muito ofereciam prêmios. O mais cobiçado era o rifle Winchester 44, alcunhado de “papo amarelo” devido a placa de metal amarela próxima a alavanca de chamar a bala para a agulha. Também tinha calças jeans americanas, cachaça Cocal, doces e latas de biscoitos que vinham de Manaus e Belém, algumas até importadas da Europa. Calendários com fotografias de santos, de cidades, animais e até de mulheres com roupas íntimas de dormir. O seringueiro carente, acreditava nas relações de amizade com a família dos patrões, mas a diferença social o esmagava e o escravizava ainda mais. Um enricava, o outro empobrecia. O filho do patrão ia estudar nas grandes cidades, até na Europa; o filho do seringueiro virava seringueiros desde os oito, nove anos de idade.

Os que tinham mulheres e filhas bonitas às vezes eram roubados. Muitas delas iam morar e servir nos barracões onde acabam engravidando. Sem poder revelar o nome do pai da criança, alegavam que o boto, que se transformava em lindo rapaz nas noites de lua prateada, as engravidava depois de uma bela noite de amores nas praias brancas. Desse fato nasceu a lenda do boto. Uma lenda aceita por todos para evitar confusões e mortes.

O barracão e a sepultura com correntes

Uma feliz coincidência me permitiu fazer esse relato. De baixada, o motor precisou ser abastecido de gasolina parando bem na frente do paredão do dito seringal Baturité. Me animei para subir o barranco e procurar pelas marcas do velho barracão e, mais ainda, da tal sepultura. Eu tinha dúvida se toda aquela narrativa era invenção do povo mais antigo transmitida oralmente para as novas gerações.

Pedi licença ao mestre Antônio Pelado, que me alertou para que não demorasse, pois breve a noite chegaria. Saí da canoa e vi ramas de cipós que desciam do barranco como é comum. Me agarrei a eles e com certa dificuldade subi de onde escorria uma água cristalina.

Em cima havia uma chapada. Me deparei com uma velha capoeira rasa, uns pés de jurema, jurubeba, um pequeno campo sujo de carrapichos, entrecortados por caminhos na grama feito por gente, ovelhas ou gado, que se estendia até a soleira da mata onde uma velha cerca de arames farpados marcava uma divisória. À minha direita, há cerca de cem metros, barrotes e esteios grossos denunciavam o que fora em anos passados o barracão do Baturité.

Olhando para aquele lugar senti a brisa morna no rosto e imaginei ver no barracão os fantasmas do passado entre as cores do horizonte. Concebi toda a vida que pulsava naquele lugar. Era como se pudesse ainda enxergar as luzes das lamparinas, dos candeeiros, ouvir as vozes de homens, mulheres, crianças, latidos de cachorro, a lenha queimando no fogão e o cheiro de carne defumada frita na cozinha naqueles dias de glória do barracão do Baturité, nos dias passados. Ouvi os gritos do coronel com seus empregados e o canto das lavadeiras. Senti o cheiro inconfundível das pelas de borracha, o movimento no porto dos que chegavam com promessas de riqueza e vida. Um sonho perdido no tempo.

Mas, onde estaria a sepultura com correntes?

Antigamente havia cemitérios nos seringais, sempre próximos aos barracões. Se realmente existia deveria estar ali por perto. Era muito comum nas décadas de 70, 80 e 90 familiares que migraram para as cidades com o êxodo, voltarem nos Dia de Finados para chorar e reverenciar seus mortos. Costume que foi aos poucos sendo abandonado pelos mais novos, os filhos da cidade. Mesmo assim ainda se encontra as marcas no chão das velhas sepulturas, cruzes de madeira apodrecidas com o tempo, pés de cajueiros, acácias, flamboyants, ipês onde as aves fazem seus ninhos em meio às flores. Onde a coruja das ruínas murmura nas noites de lua aos que se foram à casa eterna. Vidas que foram ceifadas por doenças, mulheres que morriam de parto, crianças de desidratação e pneumonia, homens de afogamentos e mortes violentas geralmente de peixeira nas festas. Nas colocações distantes também tinha sepulturas de filhos, filhas, esposas, maridos que morreram doentes com mordidas de cobras. Creio que assim como o mar devolverá seus mortos no último dia, como diz o Oráculo de Deus, os rios e a floresta também entregarão os seus para o julgamento final.

A sepultura com as correntes está lá

Caminhei beirando o paredão de onde avistava o estirão do rio e o barco lá embaixo até uma ponta de mata que havia à minha esquerda. Entre a capoeira rala identifiquei algumas pedras a meia distância. Foi então que ao me aproximar ainda mais vi as pequenas pilastras com as correntes presas a elas. Creio que eram umas seis cercando e protegendo a sepultura de pedras de mármore. Uma pequena portinhola de madeira já consumida pelo tempo dava acesso a parte de dentro. Na pedra vi uma velha fotografia oval desbotada pelo tempo de um homem de rosto largo, calvo, bigode e sobrancelhas grossas. Seria ele o tal coronel acusado de matar seringueiros amarrando sernambi nas costas ou de tocaia? Não tive tanta certeza assim. Lembrei que muitas sepulturas que vi tinham correntes servindo como enfeites. Talvez fosse um homem duro, rígido e até por vezes cruel, mas a lenda que se tornou em torno dele ficou muito maior do que sua própria existência no seringal Baturité nos dias que os seringais prosperavam no rio Acre. Quando voltei para o barco decidimos que dormiríamos ali por perto em alguma praia. Naquela noite sonhei que os fantasmas do seringal que povoam a minha memória até os dias de hoje.

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