Um seringueiro nunca perde a majestade. Lidar com a extração do látex das seringueiras – uma das árvores rainhas da Floresta Amazônica – requer sabedoria e o acreano José Rodrigues de Araújo, de 49 anos, soube muito bem como usar a sua. Após uma vida inteira sobrevivendo do que a natureza oferece, resolveu inovar: fabricar produtos cuja matéria-prima já era bastante íntima de sua família, que nasceu e se criou na floresta.

 

Atualmente residente em Epitaciolândia, na Comunidade Nova Esperança, interior do estado, e chega a fabricar mais de 400 peças por mês. Se tornou um dos artesãos mais conhecidos do estado e zela pela relação sustentável com a natureza.

 

Trabalha com o látex desde os 10 anos de idade. Hoje, seu grupo familiar une os conhecimentos tradicionais com a técnica Folha Semi-Artefato (FSA) para produzir sapatos de borracha, que são vendidas para todo o Brasil e no exterior.⠀

Hoje conhecido como ‘Doutor da Borracha’, José tem orgulho de se reconhecer como seringueiro, designer de acessórios e artesão. É ele quem cria as peças que já chegaram até numa feira de exposições na Itália e que lhe deram o Prêmio Chico Mendes de Florestania, que valoriza o trabalho de desenvolvimento sustentável da região e a proteção às florestas do Acre.

 

José começou a fazer extração de látex em seringais localizados no município de Assis Brasil, no extremo Acre. Lá, seguiu os passos do avô e seu deu pai, desenvolvendo respeito pela floresta que lhe dava o sustento. “Na fase adulta, em 2004, fiz um curso do Laboratório de Tecnologia Química (Lateq), oferecido pelo polo da Universidade de Brasília, onde aprendi a técnica de trabalhar com a borracha, chamada Folha Semiartefato (FSA)”, explica.

 

Os produtos são feitos a mão com o látex – seiva da seringueira – sem cola química e sem costura. Tudo ecológico e sustentável. Há 16 anos, José vive do artesanato, um meio de trabalho que encontrou para manter o sustento da família. O primeiro calçado produzido por ele foi um sapatinho ao seu filho que tinha apenas 3 anos na época.

 

Mais de uma década depois, já possui um verdadeiro arsenal de formatos, cores, modelos e produtos, femininos, masculinos e unissex. “Faço sapatos e acessórios para crianças, adolescentes, adultos e idosos. Ou seja, alcanço todos os públicos”, diz o profissional. O empreendedor não possui loja física, apenas um ateliê onde armazena os produtos.

 

“A gente comercializa os sapatos e acessórios com vendas sob encomendas. E também quando participamos de feiras e exposições pelo Acre e também em outros estados e até países”. O Doutro da Borracha tem suas criações espalhadas por praticamente todas as regiões do país e no exterior, como Itália, Austrália, Holanda, Inglaterra, Portugal, Paris etc.

 

Para ele, o mais difícil mesmo em meio ao processo de trabalho é conseguir a matéria-prima (látex). “Com o desmatamento contínuo da Amazônia e com a pandemia, está ficando muito mais difícil pra conseguir o látex para vender os produtos”. Ainda assim, se diz otimista. “Esse foi um dom que Deus me deu. Também já trabalhei como agricultor antes de me tornar artesão e hoje me dedico a criar sapatos, colares, pulseiras, bolsas, tudo 100% oriundo da borracha, um serviço totalmente artesanal”.

 

Antes da pandemia do novo coronavírus, José chegou a empregar até 9 pessoas em sua empresa. Hoje, por conta dos problemas econômicos ocasionados pela doença na região, trabalha apenas com o apoio da família. “A gente recebe bastante indicação dos clientes para outras pessoas, principalmente porque nossos produtos, como os sapatos, passam muito conforto”.

 

O apelido de ‘Doutor da Borracha’ veio há alguns anos, durante a Feira Panamazônica, onde José participava e protagonizou uma reportagem, ouvindo pela primeira vez o apelido carinhoso. “Daí, ficou até hoje e para sempre”, brinca. Atualmente, também consegue divulgar seu trabalho por meio das redes sociais, onde perfis de empresas de fora do estado também revendem seus produtos.

 

O processo de fabricação dos produtos não é simples, uma vez que se trata de materiais naturais, mas é baseado no uso de coagulantes especiais (que dispensavam rodar a seiva na fumaça). A aceitação do público para com os produtos do Doutor da Borracha foi imediata, tanto pelos clientes acreanos quanto os de fora, que o incentivam a continuar com a produção.

 

Agora, ele espera que a cada dia possa expandir e assim colaborar na preservação do meio ambiente. “Pretendo crescer muito na minha empresa e assim ajudar mais famílias”.

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