Conecte-se agora

Diário do Acre / Santa Rosa do Purus/ É natal na Aldeia Novo Recreio

Publicado

em

O pão ainda estava no forno, enquanto colocávamos a carga no bote. Desci o porto do seu Roque, às margens do Rio Purus com a gasolina. Campeão carregou as sacolas, Ediseu arrumava a carga junto com Cláudio Kashinawa. Cláudio trouxe a esposa e os filhos. A mais velha iria ficar na aldeia 6 de julho, no caminho. Nosso destino era a aldeia Novo Recreio, comunidade onde o Claudio mora.

Mal começamos a decida e já encostamos numa praia para ir no mato e aproveitamos, para tomar café e comer um pouquinho de farofa de carne e mortadela com arroz. Professor Rigio kulina vinha passando de pés e encostou para dar um oi, ofereci farofa. Enquanto comíamos, Claudio falou que na volta conversaríamos mais, não foi um compromisso, era apenas um sinal de educação dos que vivem às margens do rio.

Atracamos na comunidade Moacir, para abastecer um corote. Meu Bichinho, dono do comércio não estava, havíamos cruzado com ele no Purus. Dona Nova nos ofereceu água e nos vendeu a gasolina, por aqui lá está 10 reais o litro. Na volta, buscamos falou Ediceu, enquanto se despedia. Já era quase meio dia quando atracamos na Aldeia Novo Recreio e começamos a subir o Porto.

Fomos recebidos pelo cacique Zé Maria e as lideranças da aldeia Hunikuin. Seguimos direto para o local de reuniões, três bancos ao redor de uma mangueira. Ediseu não parava de olhar pra cima na esperança de comer uma manga. Perguntei sobre a história da comunidade. Cláudio me contou que seu pai Cacique Pancho Comprou o seringal recreio do Chico Tiboso por 30 mil cruzeiros e lá começou a criar sua família.

A chuva nos levou pra dentro da casa do cacique Zé Maria, onde a conversa estava para lá de animada. Quando parou fomos para a casa do Zé Luís, irmão do Zé maria onde iríamos ficar hospedados. Atamos as redes e continuamos a conversa enquanto almoçávamos. Zé Maria e os mais novos pediram licença, pois precisavam continuar com os preparativos para a noite e para o outro dia. Não gosto de ficar parado, resolvi acompanhá-los para conversar mais.

Ja era tardezinha quando alguns jovens da aldeia Nova Morada, que fica Purus abaixo, chegaram para bater bola. Zé perguntou se eu jogava, preferi assistir um pouco do jogo, antes de me pronunciar. A pelada era todos calçados e uniformizados e cada partida era apostada. Preferi apitar o jogo e não arrumar problemas para a minha vida.

A noite o motor de luz roncou e todos da aldeia se reuniram na igreja indígena para a celebração em comemoração ao aniversário do cacique Zé Maria. Música
e uma palavra de ânimo embalaram a noite, pastor Raimundo lia na língua Hunikuin os versículos e levava a palavra de fé. Fui surpreendido, a comunidade preparou um presente para mim e Ediseu, fomos presenteados com cocares que representam símbolos de autoridade indígenas. O meu enfeitado com algumas penas de gavião real utilizadas apenas por caciques.

O bolo foi para o centro do salão e perfumava o ambiente, a barriga roncou com o cheiro do bolo. Zé maria fez uso da palavra para nos agradecer pela visita, assim como alguns parentes que tinha vindo de aldeias vizinhas. Após os parabéns e bolo com suco todos seguiram pra casa. Zé maria avisou os curumins que haviam lhe dito que Papai Noel estava ali por perto e bem cedinho ele iria passar na Aldeia. Mal deitei na rede e já peguei no sono, mesmo preocupado com as carapanãs.

Quando fui no terreiro cedo, os homens mais jovens da aldeia já estavam indo buscar o boi para a festa do dia. Voltei pra rede e esperei o dia amanhecer. Zé Maria chegou animado com fogos em punho avisando que as crianças já estavam pinotando no terreiro. Tomamos café e fui avisar o Papai Noel que já estava na sua hora.

O bom velhinho, junto com seus ajudantes, surgiu ao lado das casas, os olhares desconfiados de uns contrastava com a alegria de outros. Papai Noel não é muito famoso por essas bandas, mas as crianças estavam felizes, assim como os pais que saudavam papai Noel enquanto ele se aproximava. No horizonte, o rio Purus corria forte levando e trazendo as boas energias para aquele local.

Vi papai Noel tentar animar as crianças perguntando se todas tinham se comportado, obedecido os pais e tirado boas notas, mas eles não davam muita moral para quem falava apenas o português. Cacique Zé Maria repetia em Hunikuin o que ele dizia e só assim ele se fazia entendido de verdade e conseguia tirar algumas risadas dos curumins

A fila das crianças rapidamente deu lugar as mãozinhas estendidas ao redor do velhinho esperando uma lembrancinha. Os mais velhos diziam que eram crianças e algumas mulheres e homens também cercaram o Papai Noel. Todos ganharam um pouquinho de carinho uma lembrancinha e os desejos de dias cada vez melhores. Ele se despediu e seguiu seu caminho e por onde se passava na aldeia as crianças felizes brincavam umas com as outras com suas lembrancinhas.

A aldeia estava toda em festa. Na casa do Zé Maria o boi estava sendo destrinchado e distribuído entre as famílias para o churrasco. Hunikuins de outras aldeias e alguns Nawas chegavam para um torneio de futebol. Mulheres preparavam comida e podia se ouvir música em algumas casas animando o ambiente. Comemos um pouquinho na casa do Isaque, um pouquinho na casa do Zé, onde passamos havia fartura, banana, macaxeira, pepino e churrasco.

Foi difícil partir e todos lamentaram nossa saída, mas ficou certo que logo logo vamos voltar. Enquanto subia o Purus a caminho de Santa Rosa, escrevendo essas linhas a chuva fria molhava o corpo, mas a alma aquecida pelos bons dias ao lado de novos amigos nos fazia refletir que diante de tantas dificuldades que estamos passando o espírito do natal de solidariedade e companheirismo que está presente todos os dias na aldeia devia está presente também todos os dias em toda a sociedade. Feliz Natal.

Diário de um Acreano

Diário do Acre: Comunidade Santo Antônio, Jurupari e Feijó

Publicado

em

A comida mal sentou no bucho e pegamos a estrada: eu, Raylane, Davi e Rosa Maria. Aproveitamos para dar carona para o Antônio, Diná e a filhinha do casal que moram na comunidade Santo Antônio, Rosa, nossa presidenta do sindicato, combinou para dormimos na casa do seu tio Antônio. No quilometro 45 entramos no Ramal da Madeireira, e pegamos um atalho pelo alto dos bodes.

Parece que por lá choveu um pouco e no caminho acabamos atolando numa passagem. Depois de muito empurrar e acelerar em vão, caminhei com Antônio uns 20 minutos até um trator que mexia o ramal. Pedi socorro, o tratorista ficou receoso, era seu terceiro dia de serviço e temia perdê-lo, por sair pra ajudar, mas depois de muita insistência, ele foi e ainda fez o favor de melhorar a passagem.

Chegamos no alto do bode, uma clareira que outrora foi o acampamento da madeira. Nos organizamos para sair, de lá até o Santo Antônio são duas horas de caminhada. Davi pegou parte da carga do Antônio para caminharmos mais rápido, Rosa calçou suas botas sete léguas, e eu e a Raylane, que já estávamos com os pés sujos da lama do atoleiro, resolvemos ir de sandálias mesmo, assim como Davi.

O caminho é dividido em dois pedaços: no primeiro um varadouro que se estende pela mata por uma hora, tempo suficiente para se conversar de tudo, Rosa até contou que um dos seus irmãos viu um o mapinguari no seringal. Duas ladeiras que deixam qualquer um cansado só de olhar. Na subida não dá nem de conversar, no final desse pedaço, chegamos no Boqueirão, casa do Carlos, tio do Antônio. Lá aproveitamos para completar as garrafas com água e, logicamente, tomar um café para despertar.

A segunda parte se dividi entre dois campos e uns pedaços de mata. A caminhada no campo castiga pelo sol na moleira. O caminho ficava mais úmido conforme nos aproximávamos do Santo Antônio, enquanto eu reclamava da distância Antônio disse que não conseguia contar as vezes que teve que ir de pés desde a entrada, que agora pode ser chamado de ramal, até sua casa, eu marquei e só de ramal são 20 quilômetros.

Uma igrejinha no alto da terra marca a chegada no centro da comunidade, no pé da terra próximo ao rio Jurupari uma escolinha bem jeitosa. Seu Antônio dava milho para as galinhas, quando chegamos. Mal cumprimentamos e já fomos nos abancando na varandinha da entrada da casa, o cansaço era notório.

Maria, filha mais nova do seu Antônio, já foi passar um café, nos disse que nem nos esperava mais por causa da chuva. Aproveitei para conhecer um pouco mais o seu Antônio, cearense que chegou no Acre com 8 meses de vida e que já está com 66 anos. Infelizmente, nunca conseguiu voltar por lá. Seu pai veio cortar seringa e trouxe a família.

Seu Antônio já morou na margem do Rio Purus, em frente a comunidade Morada Nova e fronteira perto do novo recreio, aquela de Santa Rosa que fui no Natal passado. Contei que conhecia o rio, as aldeias e tinha alguns amigos por lá, ele me disse como se dava bem com os “txais”. Mas tinha se mudado para onde está hoje para ficar com os pais, que moraram com ele até o último dia de cada um.

Seu Antônio contou com tristeza que morava só ele e a Maria [filha], pois a sua esposa quando a filha ainda era pequena. Os pais faleceram depois. A tristeza nos olhos era disfarçada pela disposição das palavras, chamou pra subir, mas, antes falou da sorte do genro que mais cedo pegou um porquinho no roçado e gabou seus cachorros que acuaram ele.

O sol se pôs e a escuridão tomou de conta, descemos para tomar banho. A luz da casa se destacava na noite, as placas solares garantiam alguns bicos de luz e a TV ligada a noite toda. Chegamos no final do jornal nacional, os filhos do seu Antônio que moram perto foram chegando e rapidinho todos estavam sentados na sala para assistir Pantanal.

No intervalo Maria nos chamou para jantar, servido no chão da cozinha de um assoalho limpíssimo. Porquinho, galinha caipira, farofa de ovo, arroz e feijão de praia, tudo muito gosto. Estávamos cansados, voltamos pra sala pra terminar de assistir Pantanal e assim que acabou já fomos se ajeitando pra deitar. Seu Antônio cedeu o quarto do filho, que está trabalhando na madeireira, para eu e a Raylane dormirmos, duas redes e algumas cobertas. Nem percebi quando peguei no sono.

Umas 4 horas os galos começaram a cantar e eu já acordei, Raylane continuou na rede. Fui à varandinha da cozinha olhar as galinhas, seu Antônio levantou e veio me dar bom dia. Colocou uma água para o café no fogo e foi passar um rádio para os irmãos que moram ali ao redor.

O café ainda estava na mesa quando José Gonçaulo chegou, pensa num cabra animado e cheio de vida, Hilda reclamou não termos passado por lá e lhe contamos sobre o atrapalho do atoleiro. Dali a pouco, a sala foi se enchendo de primos e primas, tios e tias da Rosa que dava conta da saúde da sua mãe para cada um. Fiquei feliz de reencontrar alguns que conheci na luta do sindicato, convite para ir à casa de cada um não faltou.

A banana verde frita que foi servida no café era beliscada por um e por outro com um pretinho quente, enquanto a roda aumentava e uns falavam de caçadas, política e o ramal que nunca saia. A conversa esticou e nossa hora foi chegando. Seu Antônio pediu para esperarmos o almoço, mas, o nosso tempo estava corrido e ainda tinha mais 2 horas de caminhada pela frente.

Antes de nos despedirmos, com o compromisso de voltar, Maria encheu um vaso com farofa de seringueiro para matar a fome no caminho. As duas horas voltando já pareceram mais curtas e as ladeiras menores. A cada passo que dávamos saindo da floresta e voltando para cidade aumentava minha reflexão sobre o que é importante na vida, tantos dias que passo fora de casa, pensei comigo mesmo, como é bom poder reunir a família a noite em casa mesmo, nem que seja só pra assistir à novela.

Continuar lendo

Diário de um Acreano

Diário do Acre: PAE Remanso e Capixaba

Publicado

em

Marcamos de nos encontrar cedinho no sindicato, para tomar café e seguir viagem. Nossa comitiva era grande, eu Raylane e Danilo nos somamos a Leidiani, Chagas, Darla e Luiz. Depois de um pão de milho com ovo, já pegamos a BR e entramos no ramal do São Luiz.

Era a primeira vez que todos íamos no Remanso, mesmo que alguns já tivessem amigos por lá. O combinado era que o marido da Francisca, uma companheira que estava ajudando no sindicato, mas que agora estava dando aula na comunidade, nos encontraria no porto da Subaía e nos conduziria pela comunidade.

Chegamos na Subaía, no final do ramal, já às margens do rio Acre. Uma meia hora depois do combinado e nada do Francisco, deduzimos que ele esperou um pouco e já voltou pra trás. Não costumo dar viagem perdida, então fomos na escola e pedimos passagem aos barqueiros, seu Bibil nos levou até o porto do Edvan na outra margem uns 15 minutinhos acima.

Subimos o porto e encontramos dona Helena, mãe do Edvan, cuidando das galinha no terreiro. Ela nos disse que o Edvan estava numa broca, perguntamos o caminho para a casa da Leia, onde fica a escola e ela nos indicou uma trilha, no meio do pasto, pode seguir reto toda a vida, que vai bater lá. Só é um pouco longe. Nos despedimos e começamos nossa caminhada.

No pasto as vacas, muitas de bezerro, nos olhavam desconfiadas, peguei logo um pedaço de pau, a desconfiança era mútua e só quem já pegou carreira de vaca no campo sabe que não é uma boa experiência. Terminou o campo e entramos num lindo bananal, a sombra já era um alento ainda era cedo, mas o sol já estava castigando.

Dona Monique nos recebeu na varanda de casa, nos viu ofegante e já ofereceu uma água, chagas aproveitou pra falar do sindicato e dona Munique pra reclamar do luz pra todos que ainda não chegou por lá. Elogie o bananal e dona Monique nos ofereceu umas bananas, sem esquecer de reclamar do ramal.

No caminho, encontramos Cigano que estava ajeitando um roçado perto do campo. Um cachorro bom de tatu todo serelepe passou cheirando todo mundo. Cigano é cunhado da Monique e também falou da luz que já cruzou o rio e chegou na casa dele, mas que não veio até a comunidade toda. Seguimos nossa pernada. O sol estava quente e o caminho era longo.

Dava de ouvir longe as crianças na salinha de aula, montada na terra da dona Maria Pacheco, de uma família tradicional na comunidade. – “Queria que essa escola levasse o nome do meu pai”, me disse enquanto servia uma água gelada. Infelizmente não é uma escola, mas apenas uma sala anexa da escola da beira do rio e não podia ser feita a justa homenagem. Quando dissemos que íamos até a Leia e queríamos almoçar por lá, ela disse pra apertarmos o passo.

Deixamos o campo e o ramal se fechou em mata. De longe ouvíamos um motor roncando, já com mais cuidado pois podia ser uma derrubada avançamos. Quando nos aproximamos mais, deu de distinguir que eram roçadeira, alguns homens ajeitavam um pedaço de Capoeria pra plantar legumes.

César, esposo da dona Maria, comandava os trabalhos e por lá encontramos o Edvan, eles estavam reabastecendo os motores e pararam para tomarmos um café, água e comer umas rosquinhas. Quando chegamos, virou uma roda de conversa. E histórias não faltavam.

Edvan me contou de um cara, que na política passada fez ele matar uma vaca pra fazer um churrasco e disse que quando ganhasse voltava pra pagar a vaca. Um gaiato já abarcou de lá, o tombo só não foi maior por que comemos o churrasco. Piá nem saiu da capoeira, quando ouviu a história, porque todo mundo já falou do tombo que ele levou em duas bolas de arrame do mesmo cara.

Perguntamos quanto tempo de caminhada ainda tinha até a Leia e ouvimos mais uma vez que ainda faltava uma hora, mais essa hora nunca passava. Depois de uma meia hora andando encontramos a casa do Tião Pacheco, que nos disse que ainda faltava uma hora e nos mostrou um ramal que virou varadouro e passava atrás da casa dele.

Na saída do varadouro, a esperança de encontrar a casa da Francisca e a escolinha na casa da Leia já ia se esvaindo, nos questionávamos se já não havíamos passado, pois cruzamos algumas mangas do ramal. Cansados vimos uma casa ao longe e de lá uma mulher deu com a mão, era Francisca finalmente chegamos.

Já fui me jogando no assoalho da casa, estava exausto, Francisco estava por lá e questionamos se ele tinha ido nos esperar. Avisou que tinha ido e esperou muito num porto abaixo de onde embarcamos e tinha vindo por um outro caminho mais curto quase uma hora. Passa por uma picada na mata e por isso não nós topamos.

Após o almoço na casa da Francisca, fomos na casa da Dona Leia e seu José Maia. Conheci a escolinha, um quadro e umas cadeiras embaixo da casa sem paredes, uma tristeza a dificuldade das crianças para estudar.

Leidiane estava animada para reencontrar dona Girlene, que estudou com ela na escola da floresta. Chegando lá, foi só alegria. Dona Girlene já saiu pra cozinha pra fazer uns bodós e passar um café, enquanto seu marido Chapelão nos ofereceu umas laranjas. Parecia uma reunião de ex-alunos. A pergunta era sempre como está fulana e ciclana?

Para voltarmos mais rápido, pegamos a varação indicada pelo Francisco, um caminho mais curto que passava pela casa do seu Ribamar. Ele nem esperou chegarmos e já mandou o menino buscar água. Montado encontramos Joaquim e sua esposa. A conversa foi curta já estava anoitecendo e o cansaço era grande. Perguntei a distância que ainda faltava. A mulher do Joaquim disse que ainda tinha uma hora de cachorro apanhando.

Quase sem fôlego chegando no Porto, já estávamos preparados para remar, quando ouvi um motor zuando, gritei e pedi passagem, ele gritou de lá dizendo que ia da., Romualdo era o nome do barqueiro. De volta ao Porto da Subaía, a alegria era imensa, foram 5 horas de pernada pra conta, os pés cheios de bolhas e a bagagem repleta de novos amigos e sonhos.

Continuar lendo

Diário de um Acreano

Diário do Acre: Tupá, Rio Branco e Xapuri

Publicado

em

Juntamos as coisas e pegamos a estrada cedo, Raylane, minha esposa, seguia entusiasmada pois marcamos de visitar seu tio conhecido como Caroncha e sua tia Dona Girlene conhecida como Tique, me contou que quando criança passava as férias na casa deles na estrada velha em Epitaciolândia. Mas, desde que eles se mudaram para o Tupá ela não tinha ido por lá. A mãe da Raylane, dona Luzia também nos acompanhou nessa jornada, assim como o Danilo que fez os retratos.

Após esperar por quase uma hora para atravessar a balsa, seguimos pelo ramal até a comunidade Rio Branco, paramos na casa do Raimundão para pegar mais informações de como chegar no Tupá. As coisas estavam animadas por lá, eles já estavam organizando o terreiro para o dia seguinte. Raimundão completou 77 anos no último dia 14 e estava organizando uma festinha para receber os companheiros. Cadeiras estavam empilhadas no terreiro e uma novilha estava sendo retalhada por alguns amigos que estavam ajudando.

Fiz questão de perguntar quem seria o churrasqueiro para fazer logo amizade. Ser amigo do churrasqueiro é a coisa mais sábia a se fazer antes do fogo ser aceso. Após pegar as informações de como seguir nos despedimos e aproveitamos para dar carona para uma companheira que também ajudava no feitio da comida.

Na entrada do ramal encontramos o Ismar, um dos primos da Raylane que todos chamam de “Bebo”, ele nos conduziu até a casa da dona Girlene, tia da Raylane. Foi só alegria eles já estavam esperando, porém, Carocha estava brocando, Raylane queria ir até lá, mas seu primo Ismael lhe advertiu da distância. Dona Luzia já foi logo se abancando e começaram a organização da janta, Tique avisou que Caroncha tinha caçado no dia anterior, vamos cozinhar no leite de castanha foi a decisão das duas que já começaram a descascar as castanhas e esquentar as panelas.

A cozinha já era o centro de tudo quando Raylane me chamou para ir na Mirian, ela é casada com Deilson primo dela que já conheci em Rio Branco. Deilson não estava em casa, esse mês vai passar quase todo trabalhando em uma derrubada. Miriam nos recebeu com às panelas no fogo, estava nos esperando para almoçar, para não fazer a desfeita tomamos um delicioso caldo.

Vitoria acordou e se tonou o centro das atenções, tão lindinha e carinhosa se dá bem com todo mundo. Raylane tratou de colocar toda a conversa em dia, enquanto conversávamos, Danilo, Ismael e Suziane vieram para o terreiro com uma bola que a Raylane trouxe de presente. Com pouco tempo eu já estava lá, brincando de peru. Mas, não me empolguei muito para não suar e não deixar demonstrar a pouca habilidade que ainda tenho.

Suzete veio chamar os meninos e cobrar a lenha para o fogão que o Ismael ficou de levar. Aproveitamos para ir juntos sem esquecer de convidar a Miriam para ir jantar conosco. Chegando na casa dos tios da Raylane, Caroncha já tinha voltado da broca. Enquanto todos estavam conversando na cozinha chamei o Caroncha para visitar o Orismar, um amigo meu que mora no Tupá, Oris não estava em casa, encontrei só o filho dele que nos disse que ele tinha voltado na cidade por que a esposa não estava bem.

No caminho de volta, Caroncha pediu para parar na casa da Francisca, ela estava na área enrolando um piúba e conversando, nos achegamos. Na roda havia um senhor falador chamado Manoel, dentre as várias histórias que me contou, falou da sua experiência em afastar onças e cobras de perto das moradias com suas mandingas, perplexo eu perguntei varia vezes como faria a proeza, rindo ele me disse que bastava enterrar as fezes das onças, perplexo permaneci ante a mangofa do Manel que guarda segredo a sete chaves.

A noite estrelada tomava o céu quando retornamos, no fogão a lenha fervia o leite de castanha que dava gosto à comida. Dona Luzia e Tique discutiam o feitio de um bolo de arroz para o café e já lamentavam nossa curta permanência por lá. Fomos no terreiro acender um carvão para assar uma carne. Após nos fartarmos combinamos de tomar café juntos na casa da Miriam no dia seguinte, o cardápio já estava combinado, bolo de arroz e pão caseiro.

Acordamos com as galinhas e a tranquilidade de cada momento fazia tudo mais feliz. O cheiro do pão já perfumava a casa da miriam quando saímos do quarto. Vitoria era a pura felicidade. Todos chegaram e eu estava ansioso para provar o famoso bolo de arroz assado na palha da bananeira. Tudo era simples e bonito. Na saída vitória chorosa não queria nos deixar sair, Raylane também não queria ir, estar entre as pessoas que amamos é sempre especial e a despedida nunca é fácil.

O dia era de festa na casa do Raimundão na comunidade Rio Branco, dentro da RESEX Chico Mendes, quando chegamos a maior parte dos convidados ainda não estavam por lá, em uma roda companheiros de muitos anos relembravam com Raimundão as histórias do tempo dos empates, Júlio Barbosa fez questão de contar uma vez que estavam disputando o sindicato de trabalhadores rurais e que ele, Pedro Teles e alguns companheiros, passaram mais de um mês andando nas comunidades de Xapuri, conversando e organizando os trabalhadores. Os tempos eram difíceis e onde chegavam já iam tratando de arrumar um trabalho para fazer umas diárias e comprar o rancho da viagem.

Dali a pouco Carrilho apareceu com um violão, surgiu uma sanfona, triangulo e zabumba e um grupo improvisado de forro começou a dar o tom na festa. Já era meio dia quando o Raimundão pegou o microfone e convidou um coral da igreja para cantar, foi cantoria, Pai Nosso e Ave Maria para abençoar todos os presentes. Ele ainda abriu o microfone para alguns trazerem felicitações e o aniversario quase vira um comício.
Já ia dar duas horas quando liberaram a comida, eu estava com fome e preocupado com o retorno, os que vieram da cidade passaram mais de duas horas esperando para atravessar na balsa. Comemos e fomos nos despedindo, a festa ainda ia longe para quem morava na comunidade, mas, nós tínhamos que ganhar terreno, ainda tínhamos muitos lugares para conhecer, muitas pessoas para visitar. Raylane com saudade dos seus tios e primos já me perguntava que dia vamos voltar.

Continuar lendo

Diário de um Acreano

Diário do Acre: KM 59, em Brasiléia

Publicado

em

Pertinho da cidade, entramos em um pequeno ramal ladeado de floresta onde nossa companheira Francisca, presidente do STTR de Brasiléia, reside. Eu, Raylane, Danilo e Marcelo fomos convidados para conhecer uma parte da família da Francisca que mora nos ramais do KM59, sem sombra de dúvidas o local com maior contingente populacional da zona rural de Brasiléia.

Rasgamos a BR e entramos no ramal do 59. Alguns quilômetros adiante pegamos uma manga para chegar na casa do seu Raimundo Fogo. Ele estava ajeitando uma arquibancada quando chegamos. Estava organizando um campeonato e a tarde os times iam se achegar por ali. Largou o boca de lobo e nos chamou para entrar. Fogo é pai da Francisca e morador antigo da comunidade, tão antigo que por vezes o ramal do café onde mora é chamado de ramal do fogo.

Perguntei logo de onde veio o fogo. Me contou que seu vô, um cearense que trouxe a família para o Acre, era ruivo e o apelido foi sendo passado de pai pra filho, por isso fogo. Enquanto conversávamos uma gata manhosa se abancava no colo do fogo, ele saiu um instantinho e ela veio pra cima de mim, folgada que só ela.

Perguntei se Raimundo ainda batia uma pelada, ele me disse que agora mais assistia do que jogava, mas continuava amando o esporte, tanto é que cuida com muito zelo do campo. Aliás, aproveitou pra contar que pelo menos uns quatro políticos diferentes de Brasiléia já tinha prometido arrumar o campo, caso eleito fossem.

Um deles prometeu até a iluminação, e disse que como tinha certeza que ia ganhar, seu fogo já podia até cortar as madeiras. Lógico que perguntei se ele cortou. Me disse que na hora que saiu o resultado e o dito cujo se elegeu já foi serrando animado uma aguana bonita para os postes das luminárias. Olhei pro campo antes de rir e perguntei pela aguana. Só se ele vier amanhã, por que até hoje não voltou.

Seu foguinho tinha muitas histórias, mas o tempo era curto, fomos nos despedindo, mas antes de sair ele deixou uma história e uma lição, quando alguém pede uma ajuda e você tem como é melhor ajudar. Falou de um comerciante que tinha uma das lojas mais surtida de Brasiléia e de um dia que uma mulher levou uma folha com um pedido, assinada pelo delegado comprovando que a mulher precisava. Ele arrogante mandou a mulher parar de pedir e ir trabalhar, ela olhou pra ele e jogou uma praga. As últimas vezes que ele soube do comerciante foi por peões que lhe disseram que ele estava bêbado dormindo nas cadeiras, depois de tudo perder.

Passamos rapidinho na casa do galego, filho da Francisca, e deixamos avisados que voltaríamos para almoçar. Ainda topei a Raquel Dourado por lá, uma amiga minha dos tempos do CTA e do Comitê Chico Mendes que está morando no México. Ela andava pela comunidade com outras pesquisadoras fazendo um estudo em parceria com uma universidade alemã.

Na casa da Sulamita, conhecida como princesa a distância foi necessária, ela não estava se sentindo bem não sabia se era uma gripe ou se o corona tinha lhe encontrado em casa. Mas nos disse já está bem melhor, a parte mais difícil já passei, achei que dessa vez eu ia, nos disse enquanto proseávamos na sala. Ofereceu um café numa garrafinha azul, que fez questão de dizer para Francisca que era do seu falecido marido. Essa é aquela garrafinha que ele levava pra cima e pra baixo.

Reparei na blusa da Santa Raimunda que ela vestia. E perguntei se era devota, respondeu que sim, Francisca lembrou que a procissão estava chegando, ano passado lhe encontrei por lá falei pra Francisca, a história da viagem já contei até aqui na coluna, não sei se esse ano vou conseguir ir.

Moisés estava para o roçado juntando um feijão pra bater, mas sua esposa Maria nos recebeu de portas abertas. Já íamos saindo quando ele chegou. Danilo questionou o que tinha acontecido com cachorro que carregava uma ferida aberta nas costas, foi uma pico de jaca, tô tratando, mas quando ela pega é difícil, ele tá é bom, vocês tinham que ver a um mês atrás.

Moisés é um companheiro do sindicato e tem compreensão das dificuldades da comunidade e a importância da produção. Me falou da sua plantação de café e da venda no ano passado, vendi cedo e me ferrei, ele mais que triplicou no final do ano passado. Esse ano o bicho vai ficar no paiol até dar preço, os atravessadores sempre se aproveitam dos produtores, lamentei dizendo que é assim em todo o lugar.

A hora já avançava e a barriga começava a roncar, quando encostamos na casa do João do Siríaco. Ele nos ofereceu um chazinho e já foi perguntando do ramal. Nas chuvas é a lama e no verão a poeira e buracos, até nos desanima produzir, me disse meio triste. Me contou dos tempos bons e da produção do café, que segundo me disse, lhe deu tudo que tem, até as vaquinhas no campo foram frutos do café. Ele quer voltar a produzir, mas do jeito que vai tá difícil, lhe falei de esperança e ele sorrindo me disse enquanto estamos vivos seguimos com ela.

A galinha caipira ainda estava na pressão quando chegamos na casa do Galego e da Nilda. Chiquinho, um amigo da RESEX Chico Mendes de Assis Brasil, estava por lá. Ele também estava ajudando na pesquisa desses alemães. Chamamos para almoçar, mas ele já tinha filado a boia na casa do João Siríaco, pouco antes de chegarmos lá.

Galego era só gaiatice, ficava provocando todos em qualquer assunto que se discutia. Também contou suas histórias, mas nem tudo é pra publicar. Nilda avisou que a galinha estava pronta, Marcelo foi o primeiro a chegar na cozinha. Já pedi a farinha e servi um pirão, caipira mesmo só é boa com um pirão escaldado. Nem esperamos a comida sentar no bucho e já continuamos nossas visitas.

Lá na frente encostamos na casa da caboca, irmã da Francisca, ela nos ofereceu uns dindins, nesse calor não tem nada melhor. Enquanto conversávamos a filhinha dela passeava com cachorro na bicicleta, não tinha como não observar a cachorrinha a passear. Manezinho chegou ele tinha ido buscar uns alevinos, mas terminou dando viagem perdida. Nós chamou pra ficar por lá e dormir. Francisca avisou que ia pra sua mãe, hoje é o aniversário da Richely vai ter forró por lá.

Fechamos o dia na casa da dona Marilza mãe da Francisca, chegando lá ela tava pegada fazendo um marral (ou Majal como se escreve na Bolívia), para o aniversário de uma nora. Enquanto conversarmos ela ofereceu uma paquinha, Raylane que ama paca já se animou toda e serviu-se da iguaria. Tatiane, neta da dona Marilza, que mora com ela, brincava com periquito Rico enquanto conversarmos.

Estava curioso com Marral e perguntei a receita, que divido aqui com vocês. Pra esse tanto que ela fez foram 4 quilos de arroz, um pacote de macarrão tipo espaguete, 2 quilos de carne moída e 6 bananas cumpridas fritas, alho e cebola a gosto e óleo para fritar. Numa panela grande coloca o óleo a cebola e o alho, junta com macarrão quebrado mais ou menos em três pedaços. Quando ele ficar vermelho joga o arroz, frita mais um pouquinho e coloca água, quando o arroz tiver no ponto, mistura a carne já cozida e a banana frita. Eu provei e estava uma delícia. Francisca me disse que ela gosta do de carne seca, eu já tinha comido o de frango, mas esse estava uma maravilha.

Passamos rapidinho na casa do Delmo ,irmão da Francisca, cuja esposa estava aniversariando. Levamos o Marral e fui deixar as felicitações. Fomos convidados para ficar no forró, mas pedimos licença para pegar trecho e deixamos a Francisca como nossa representante na festa. O sol já se punha quando trocamos o chão de terra batida pelo asfalto. A noite tomava espaço, enquanto percorríamos serenamente a BR, gratos pelo dia e pelas novas amizades.

Continuar lendo

Newsletter

INSCREVER-SE

Quero receber por e-mail as últimas notícias mais importantes do ac24horas.com.

* indicates required

Leia Também

Mais lidas

error: Este conteúdo é protegido.