Um empreendimento que além de levar o nome do Acre ainda proporciona uma verdadeira viagem pela cultura acreana. Na loja, o cliente pode deitar numa rede, comprar e comer castanhas e até beber água direto do filtro de barro com um nostálgico copo de alumínio. Assim é a Made In Acre, que em menos de dois anos consolidou seu espaço no mercado atingindo artistas de renome internacional.

A loja iniciou sua atividade em dezembro de 2019, vendendo apenas camisetas com a frase que deu nome à empresa. Hoje já disponibiliza 16 tipos de produtos. A visão empreendedora veio da publicitária Rayssa Alves e da empresária Juliana Pejon. Rayssa é uma acreana de 30 anos e Juliana veio de São Paulo há mais de 20 anos, se diz acreana de coração junto de sua família, que tem tradição no ramo empresarial do estado.

A Made In Acre conseguiu unir a modernidade com o rústico num ambiente milimetricamente pensado para ser o que é hoje, muito mais que uma simples loja de vestuário. Além de vender camisetas, chinelos, bonés, ela busca resgatar a história do único estado que, literalmente, lutou para ser brasileiro.

Tudo começou numa viagem de carnaval ocorrida há dois anos, quando um grupo de oito amigas, entre elas Rayssa e Juliana, decidiu curtir a festa em Recife (PE). A dupla teve a ideia de fazer uma camiseta para identificar o grupo no aeroporto e durante todo o carnaval. “Na camisa estava escrito ‘Made in Acre’, só que não do jeito que é hoje, e sim com outro layout. Era o bloquinho das amigas do Acre”, contam.

Elas nem imaginavam que essa simples atitude faria tanto sucesso, a ponto de se tornar uma fonte de renda. “Todo mundo gostou, tanto as pessoas de lá [Recife] quanto os moradores daqui [Acre]. Isso porque nosso estado ainda é um evento lá fora, um assunto. As pessoas, quando nos viam, falavam: vocês são do Acre? O Acre existe? A gente postou foto com a camiseta e começaram a perguntar onde tínhamos feito”.

Transformando o acaso em negócio

Era madrugada quando Rayssa e Juliana estavam saindo de uma das festas de carnaval, sentadas numa calçada a espera do Uber, no momento em que perceberam estar diante da possibilidade de transformar o acaso em um negócio. “A gente estava conversando sobre isso, sobre as camisetas, quando eu disse: amiga, não acha que ao invés de a gente falar como que a gente fez [a camiseta], a gente fazer e vender isso?”, questionou Rayssa.

Juliana prontamente respondeu: “caramba amiga, que legal. É isso”. Ela já tinha todo o conhecimento sobre loja, sobre como lidar com empresa, uma vez que já atuava com roupas e sua família também já possuiu indústria têxtil fora do Acre. “Pensamos o seguinte: Juliana entrava com essa parte da administração e eu, que sou formada em publicidade, conheço de marketing, entrava com a criatividade, a parte de criação, design e tudo mais”.

A ideia ornou perfeitamente, mas até então mirava somente a comercialização de camisetas. No entanto, as amigas começaram a perceber que a Made In Acre não seria algo pequeno. “A marca se transformou. Hoje a gente fala que a Made In Acre é um sentimento dos acreanos, onde a gente consegue materializar nos produtos algo mais profundo. Começamos a ver como os acreanos estavam carentes de algo que representasse a gente do Acre, o valor, que resgatasse a nossa história, que tivesse essa vida”.

Do surgimento da ideia (fevereiro de 2019) até a concretização do projeto (dezembro de 2019), passaram-se 10 meses. Entretanto, veio a pandemia do novo coronavírus, que impactou o percurso natural da empresa. “Isso foi uma preocupação para nós, assim como para todos os empresários, mas especialmente porque estávamos começando”. Contudo, as empreendedoras observaram que, como as pessoas estavam ficando mais em casa, ou não podiam vir ao estado por causa da Covid-19, a loja poderia se tornar uma referência para presentear.

“Tinha gente que morava fora, mas que estava aqui, assim como tinham pessoas daqui que estavam fora e com isso começamos a receber muitos pedidos para enviar nossas camisetas para fora do estado. A gente cresceu muito nesse período, aliado aos nossos conteúdos que passamos a publicar nas redes sociais da marca. Isso fez as pessoas se aproximarem mais, que elas interagissem, principalmente com a série ‘Minutos da Nossa História’, que era postada no Instagram”.

Na pandemia, as proprietárias colocaram para funcionar as entregas por meio do delivery. O sistema agradou tanto a clientela que permanece até hoje. “Pegou muito bem e continuamos com ele porque deu certo. As pessoas ainda falam para a gente que a loja vem resgatando o amor pelo estado, pela curiosidade sobre a história do Acre e muito mais e as entregas facilitam isso”.

Junção do moderno com o tradicional

Rayssa e Juliana fazem questão de mostrar que a Made In Acre não é só para venda de produtos de cunho regional, mas que se diferencia daquilo que é comercializado em outros estabelecimentos, como os do Mercado Velho, por exemplo. “A gente une a modernidade com a nossa história e o nosso intuito era mostrar para as pessoas que isso era possível”.

Para elas, o público só pensava no Acre lembrando elementos regionais, com características da Amazônia, mas que o estado não é só isso. “Outro pensamento era de que nossos produtos não teriam tanta qualidade quanto os de fora. E começamos a bater nesse ponto, de que podemos ter, sim, coisas de valor. Infelizmente não conseguimos com que nossa produção seja 100% acreana ainda por falta de estrutura local, falta de fábricas, mas o que a gente consegue fazer aqui, a gente faz”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

Entre os 16 produtos vendidos com a marca Made In Acre, estão: camisetas, bonés, chinelo, garrafas, pochetes, mochilas, máscaras, lenço para pet, body infantil e o diferencial, os acessórios indígenas, que podem compor o look ou a decoração de casa. “Dessa forma as pessoas veem que esses objetos podem ser modernos, que podem ser usados no dia a dia. Eu e Juliana usamos diariamente para as pessoas verem também como são peças versáteis”.

O espaço físico da loja valoriza aquilo que representa o estado, os costumes e as peculiaridades do acreano. “As pessoas percebem isso e falam que é a nossa cara. Conseguimos colocar o conceito na loja. A gente também disponibiliza livros para os clientes lerem aqui, livros que são doados, falando sobre a história do Acre. Eles podem simplesmente sentar na rede e ler. Apesar de termos herdado a rede do povo nordestino, faz parte da nossa história”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

Rota do turismo e referência

Antes de se voltar especificamente para as vendas, Rayssa e Juliana se preocupam com a experiência vivida pelos turistas e clientes acreanos dentro da Made In Acre. “Quando chegam aqui a gente conversa, pergunta de onde é, se conhece tal coisa, a gente sempre leva informação, conteúdo para a pessoa saber que nossa intenção não é só ela vir aqui e comprar. A gente não faz isso, a gente não quer que a pessoa tenha essa sensação de entrar, comprar e ir embora. A quer troca, conversa”.

Se o cliente não morar no Acre, ele recebe instruções, dicas, orientações de onde ir e o que fazer pelo estado no período de sua estadia. “Em meio tudo isso, a gente vai fazendo nosso trabalho. Estamos começando a receber muitos turistas. A gente percebe o quanto o Acre está aberto e como está aumentando a vinda de pessoas de fora, que chegam só para conhecer o estado, para ir ao Crôa, na Serra do Divisor, nas aldeias, o ecoturismo está muito valorizado”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

As donas da marca ainda pretendem expandir o negócio e tornar a loja algo muito maior do que se encontra atualmente. Sem entrar em detalhes, as proprietárias têm planos de construir filiais em outras cidades, já que a necessidade de aumentar o espaço já é sentida. “Temos sonhos grandes para daqui dois anos, aproximadamente”.

O encontro com o astro Alok

O envolvimento, mesmo que indireto, entre o Dj Alok, internacionalmente conhecido, e as camisetas da Made In Acre deu ainda mais força ao processo de divulgação que a marca já vinha trabalhando. O produtor musical brasileiro está fazendo um projeto com os indígenas do Brasil e vem tendo contato com alguns indígenas, um deles Mapu Huni Kuin, do Acre. “Ele também é um amigo nosso [Rayssa e Juliana]. Mapu falou que foi convidado para fazer essa gravação e a gente falou para ele levar um presente. Mandamos camisetas para a família toda em junho desse ano”.

A dupla credita que teve sorte porque Mapu criou uma amizade sincera com Alok. “Eles tiveram uma conexão muito grande durante a gravação, então quando o Mapu entregou o presente para ele, que eram as camisas, tinha muito mais sentido. Não era uma marca, não foi a Made In Acre que mandou para o Alok, foi o Mapu, um amigo que entregou o presente, ou seja, mais significado, mais sentimento”.

Elas agradecem por terem tido a oportunidade de fazer parte desse momento. “Tudo fez muito sentido, as camisas, com tudo que ele estava fazendo em prol dos indígenas. Ele se familiarizou com isso e sentiu no coração de fazer aquelas postagens”, relatam sobre a publicação que o ícone da música eletrônica fez mencionando a loja em seu Instagram. “A gente não pediu e nem imaginávamos que isso iria acontecer. Quando a gente viu a postagem, a gente não acreditava, porque ele marcou. Tem noção do quanto deve valer um @, uma menção do Alok?”, brincam.

A loja também conseguiu atrair mais seguidores de várias partes do país e do mundo depois desse episódio. “As pessoas sempre chegam aqui e comentam esse fato. O discurso dele em Brasília, usando outra camisa nossa, também foi muito especial. Essa a gente mandou antes de lançar e tocou muito ele”. O Dj é conhecido por usar as peças em seu dia a dia dele. “Quando vimos que ele usou naquela situação, a gente falou: ele entendeu, fez todo o sentido. E é isso mesmo que a Made In Acre quer, mesmo que não tenhamos o contato direto com ele, ele abraçou a marca e isso nos faz ficar muito gratas”.

Antes da loja, Rayssa trabalhava no marketing de empresas e vídeos autônomos. A produção da marca é dela, assim como os vídeos que fazem e as fotografias. Hoje Juliana também participa das criações. “A gente também pega referência de outras criações e a gente traz para Acre de alguma forma. Temos alguns parceiros que estão começando a entrar com a gente, como ilustrador, designer, pois não estamos conseguindo mais parar só para criar devido a demanda”.

Até agora, a Made In Acre lançou três coleções, apesar de sempre lançar um produto ou outro entre elas. “Somos muito intuitivas, quando vemos que alfo, uma frase, dá para pegar, a gente lança. Não esperamos acontecer. A gente viu a brincadeira do governador [Gladson Cameli] na frase ‘Mim Dê Que Eu Tomo’ tentamos adaptar para a loja. Num final de semana fizemos isso e foi um sucesso essa tiragem. Tanto que até hoje as pessoas ainda perguntam sobre ela”.

Agora, a marca quer lançar uma nova coleção voltada mais para a Amazônia e aos povos da floresta, que é com o que elas estão se conectando bastante no momento. “A gente quer trazer camisetas com os nomes das medicinas para mostrar para as pessoas que temos isso aqui no Acre, que é nosso, e também para quem vem em busca disso. A gente acha que as pessoas vão ter essa referência”.

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