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Há 23 anos surgia Os Cobras Dance, grupo que carimbou o Acre na cena musical por gerações

Grupo fez com que o Acre se tornasse a capital do dance nacional e referência na cultura de rua

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Se você não é um dos millennials, geração de pessoas nascidas entre 1980 e 1995, provavelmente não vivenciou um dos maiores fenômenos artísticos que o Acre já teve. Ainda assim, deve ter ouvido falar (e muito) sobre Os Cobras Dance. As chamadas “Gerações Z e Y” recordam com saudosismo a época em que a música autoral acreana ganhou palcos e espaços midiáticos Brasil afora com o hip hop, o rap e a dance music lançada pelo trio Silvio Alves da Silva Neto, Samyron Andrade e Delcimar Mesquita (que converteu-se ao Evangelho e deixou o grupo há um ano).

O sucesso foi estrondoso e ultrapassou barreiras que nem mesmo os músicos imaginavam um dia alcançar. O trabalho que Neto, agora com 50 anos, e Samy, de 48, sustentam até hoje foi idealizado em junho de 1998 na capital acreana. Antes disso, eles já integravam há mais de 10 anos um coletivo que atuava em prol da evolução do Hip Hop na cidade. Tanto que anos depois o grupo consolidou o estado como um dos berços do movimento organizado no país, inclusive com aprovação de leis. Foram cerca de 9 mil cópias de CDs vendidas. Se somar a venda de pirataria, o resultado triplica. Na época, o disco original de Os Cobras Dance era vendido nas lojas por R$ 35 reais e nenhum acreano havia agradado tanto.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O fato é que Os Cobras Dance conseguiram viver da própria música e ditaram moda por muito tempo. Até hoje o grupo tem shows marcados dentro e fora do estado, fazendo parte da vida de pelo menos três gerações de acreanos. Quando começaram, cada um tinha cerca de 23 anos e a ideia era fazer um estilo de música que era febre na época: o dance nacional. “A gente queria agregar o nosso estilo de dança, de se vestir, de se apresentar na sociedade, e com isso ganhar uma grana. Nós já vínhamos do Hip Hop, mas ele em si não tem quase lucro. Aí sentei com o Neto e com o Delcimar para conversar, já que fazíamos parte de um coletivo de dança break e éramos vizinhos”, conta Samyron.

Foi aí que deu início à trajetória dos “Cobras”, que escolheram esse nome em referência a uma gíria que representava algo bom, bem feito, profissional. Antes da carreira musical, o trio também já se chamou “Os Cobras de Rua”. Segundo eles, o dance veio pela música eletrônica a fim de difundir o trabalho nas casas noturnas e valorizar o Hip Hip, movimento universal que une cinco elementos culturais da rua: a dança break, o grafite, o Rap, o DJ e o conhecimento.

“Morávamos nos bairros Esperança e Mascarenhas de Morais. O Neto fez a primeira música (Não dá Pra Namorar), em seguida a “Me Chama de Galinha”, eu já estava encaminhando outra (Cara de Bundão) e Delcimar também fez uma. Aí fomos ver os custos [para produzir]. Aqui ainda não tinha o serviço de produção de música, então tínhamos que ir para Manaus ou Porto Velho”, relata Samy. Como os custos no Amazonas seriam maiores, o grupo decidiu ir para Rondônia.

O drama para o primeiro CD e início do sucesso

Concretizar o sonho da primeira produção musical não foi fácil para Os Cobras Dance. Assim que chegaram à capital vizinha, fizeram pesquisa de preço e o trabalho não sairia por menos de R$ 6 mil. Mas só em chegar a Porto Velho já foi uma verdadeira operação de guerra para eles. “Fomos de carona. O custo total para produção era muito dinheiro naquela época, fora alimentação e estadia. Aí voltamos para Rio Branco e fizemos uma lista com todos os nossos amigos”, contam.

A lista era para ver quem poderia ajudar o grupo a se manter em Rondônia até que o CD ficasse pronto, período que durou aproximadamente seis meses. Amigos, familiares e até fãs que eles já tinham conquistado se prontificaram a doar R$ 3, R$ 5, R$ 10, até quilo de farinha, arroz, feijão, rede, colchão etc. “Fomos para lá em junho e terminamos em janeiro de 1999, quando voltamos ao Acre. A primeira música a ser tocada na rádio foi a que estourou e puxou as outras, a Não dá para Namorar. Fizemos um LP com nove músicas”.

Neto percebeu que Os Cobras Dance estavam fazendo sucesso de verdade quando os moradores de Rio Branco começaram a gostar e pedir as músicas nas rádios. “As rádios começaram a pedir para a gente mandar as músicas pra elas. Taxistas, camelôs tocavam demais também”. Rapidamente as canções dos Cobras estouraram por boa parte da Região Norte, fazendo com que o estúdio musical que produziu o CD virasse uma referência no ramo. Boa parte desse sucesso se deve à ousadia dos integrantes. Eles resolveram comprar 300 fitas e gravar as músicas para entregar aos vendedores ambulantes do calçadão e taxistas. “O trabalho de mídia social que as pessoas fazem hoje na internet, a gente fez na mão. A divulgação por táxi deu muito certo”, brinca. Uma semana depois, só se falava em Cobras Dance.

Dessa forma, o Acre passou por muito tempo sendo a capital do dance nacional. “Todos os grupos queriam vir aqui para, além de conhecer a gente, saber mais do nosso estado. E a gente começou a fazer shows em outras capitais, até internacionais, como Bolívia, Peru e quase fomos a Portugal, só não deu certo porque faltava passaporte e iria demorar para tirar”.

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Muitos dos empecilhos que surgiram para o grupo podem ter acontecido por falta de um empresário. Eram eles que cuidavam de tudo sozinhos, na maioria das vezes, com pouco tempo. “Mesmo assim a gente nunca deixou de fazer show. Uma coisa que era pra ser um hobby, um momento de lazer, se transformou na nossa principal fonte de renda. Até hoje temos isso como renda, temos shows marcados”, declara Neto.

Rotina exaustiva e mais de 50 hits

Passado o sufoco de se estabelecer na cena musical, veio um novo desafio. Acostumar-se à nova rotina era um exercício quase que diário para o grupo, que já não conseguia passar datas comemorativas com a família, nem mesmo triplicando o valor do cachê aos contratantes.

“Era uma euforia. A gente tinha agenda lotada por quatro meses seguidos, com shows de quarta a domingo, às vezes com até três apresentações no mesmo dia. Rodamos o Acre inteiro, Rondônia, parte do Amazonas e Mato Grosso”, detalha a dupla. Desde que subiram ao palco pela primeira vez, num Dia das Mães em maio de 99, nunca faltou proposta para show (exceto no momento de pandemia da Covid-19). Mesmo com dificuldade para chegar ao interior do estado, eles enfrentaram sol, chuva, lama e até viagem em canoa pelos rios.

“A gente chegava a perder até 4 quilos por semana por causa da correria. Era aproximadamente um quilo que a gente gastava por show. A gente dançava muito, era uma hora e meia cantando e dançando”, diz Neto. Entre as músicas mais marcantes dos Cobras Dance estão: Não dá Pra Namorar, Cara de Bundão, Me Chama de Galinha, Baby e Te Cuida Valentão. Ao todo, o grupo tem 56 músicas autorais. “É um dos únicos aqui do Acre que sai para fazer show com músicas autorais que fazem sucesso até hoje. É nossa marca registrada. Os contratantes sabem que a gente leva o que é nosso, divulgando nosso estado. Fora do Acre fazíamos questão de dizer de onde viemos, sempre elevando nossa origem”.

Neto e Samyron são reconhecidos até hoje nas ruas. Segundo eles, Os Cobras já estão na terceira geração de público. “Já fizemos shows em que estavam pai, filhos e neto. Aniversário de 15 anos incontáveis, festas de casamento, noivados. É um reconhecimento e carinho muito bom. Continuamos com esse trabalho de resistência e resgate positivo do hip hop para juventude”. Fora a música, são mais de 35 anos de vida dedicados ao coletivo, ao trabalho na rua, no mecanismo da música.

Apresentação no Ratinho e a pandemia

Recentemente eles atingiram o ápice ao se apresentarem no Programa do Ratinho, em exibição nacional. Ainda com a formação original, Os Cobras Dance participaram do quadro “É Dez ou Mil” no SBT, sendo tão bem avaliados pelos jurados do quadro que levaram o prêmio máximo de R$ 10 mil.

Os acreanos cantaram a música “Não dá Pra Namorar”.

Para eles, foi um verdadeiro divisor de águas. “O problema foi a chegada da pandemia do coronavírus, porque aquela apresentação deu uma visualização grande pra gente. A gente saiu de lá já com muitos shows marcados”, disseram, tendo que cancelar por causa da doença.

Antes deles, nenhum outro artista acreano havia se apresentado num programa de renome nacional e ainda levar um título. ” E o mais interessante é que só participa por indicação de outro artista. E fomos os únicos a cantar música autoral”.

Como vivem e o que esperam do futuro

Mais da metade da vida de Neto e Samy foi dedicada ao Cobras Dance. Eles conseguiram o feito que poucos alcançaram e hoje ainda usufruem do que sobrou de legado do grupo. “Seguimos fazendo renda com a música, claro que não é mais a nossa principal renda agora, mas continuamos na luta para dar continuidade a esse legado de romper gerações e também pelo nosso prazer”. Os admiradores estão por todos os lugares, seja reconhecendo-os na rua ou nas redes sociais mostrando CDs que ainda guardam. “Muita gente dessa geração conhece nossas músicas, mas às vezes não sabe quem canta, então fazemos o trabalho continuar. As pessoas nos ligam de vários estados dizendo que estão nos ouvindo. Isso é muito gratificante”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

Os integrantes fazem outros tipos de trabalhos atualmente, como especialidades em informática, que também o ajudam na música. Neto revela que o primeiro site a levar o nome dos artistas a nível mundial foi o Palco MP3. “Fomos pioneiros a entrar nessa plataforma em 2007/08 e passamos mais de seis meses em primeiro lugar na Região Norte, Centro-Oeste, e em 10° lugar do nosso estilo a nível nacional. As pessoas ligavam de vários estados querendo assistir nossos shows”.

Para eles, o som propagado pelo Cobras Dance é raiz do Norte do Brasil, mas que toca em outras regiões até hoje. “Ainda temos muito o que fazer. Não temos nenhum clipe ainda, nunca fizemos uma live. Sempre recebemos mensagem perguntando e cobrando e vamos fazer. A gente rompeu barreiras. Às vezes a gente encarava muito trabalho só pelo fato de se apresentar, mesmo sem ganhar o valor cobrado. Quando você faz uma coisa pensando só no trabalho, se der alguma coisa errada você desiste. A gente não, a gente estava se divertindo. Se desse errado a gente encarava do mesmo jeito”, destacam.

Samyron relembra que mesmo estando com um público de 10 pessoas ou de 10 mil, o show sempre era e sempre será o mesmo. “Já chegamos a fazer um show numa casa noturna que estavam só os seguranças lá. A gente entendia, reduzia o cachê ao contratante. Falhamos nosso sucesso sozinhos. Temos que agradecer sempre a Deus e a nossa família. Pai, mãe, irmãos, sempre nos deram apoio. Mas empresários, o poder público em geral nunca chegaram. Sempre fomos profissionais, mas nunca misturamos trabalho com política. Fazíamos muitos comícios, mas era contrato, era trabalho”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O Hip Hop como salvação de vidas e legado aos filhos e netos

Fazer hip hop nunca foi difícil, complicado mesmo era organizar o movimento. E essa organização no Acre tem muito trabalho de Neto, Samy e Delcimar. Eles começaram com o hip hop organizado no final dos anos 80. No Brasil todo, só três estados têm esse movimento organizado com leis e graças aos Cobras e demais membros de coletivos, o Acre é um deles. “Nosso grupo é referência, é a velha escola desse movimento. O break hoje é o mais novo esporte olímpico. Por isso, já estamos organizando a Federação Acreana de Break Dance. O que em 2024 vai ser um esporte olímpico, nós já fazíamos 30 anos atrás na rua”.

A possibilidade de um menino da periferia conseguir ser campeão mundial é o que move e sempre moveu o hip hop. Sem dúvidas, Neto e Samyron querem passar o movimento para os filhos e netos. “Na verdade já está sendo passado de geração em geração. Os Cobras Dance é padrinho de mais de 15 grupos e bandas do mesmo estilo e de outros, tanto daqui do Acre quanto de Manaus, Porto Velho. Muita gente começou através de nós. Fazer música autoral hoje em dia e fazê-la expandir é difícil. Foi um trabalho nosso de muito tempo”, afirmam.

A falta incentivo do poder público é o que mais tem prejudicado essa classe artística, lamentam os músicos. Por isso, a linguagem em forma de música e outras artes aproxima a comunidade. “A gente sabe como funciona o sistema. A periferia é 70% da população. A gente fala diretamente com os desfavorecidos. Não somos só artistas, temos que passar algo que eles possam absorver também, não é só diversão. No intervalo das músicas, num show de 1h30 e 30 músicas, cantamos músicas conscientes, para informação. Mostrando sempre a importância de jovens do subúrbio, que é de onde nós viemos”.

Neto garante que a música do grupo livrou muitos jovens das drogas. Ele também rebate o boato de que os Cobras seriam usuários: “nunca usamos nada. As pessoas ofereciam pra gente. Até empresários mesmo, mas isso nunca foi nosso estilo. Muitos grupos que surgiram depois da gente eram de jovens que não tinham o que fazer, mas que se uniram pelo exemplo dos Cobras. Hoje são pais de família de bem. Foram correr atrás do sonho e não de fazer besteira. Eles cantavam, dançavam, se divertiam. Os pais desses rapazes hoje dão graças a Deus pelos filhos que tem. Se o poder público olhar para a periferia e cuidar um pouquinho deles, a gente consegue mudar a vida de muita gente”, conclui.

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Gente - Economia e Negócios

Carpinteiros, marceneiros e cozinheiros: acreanos apostam em “dons” para migrar de ramo e sustentar a família

Trabalhadores que resolveram investir no dom da carpintaria, marcenaria e culinário para ganhar dinheiro

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Enquanto centenas de brasileiros perderam seus postos de trabalho durante a pandemia de Covid-19 nos últimos meses, outros tiveram de se reinventar ou adaptar seus dons manuais para conseguir manter o sustento da família. É o caso dos acreanos Francisco Ferreira da Cunha, de 65 anos, Nozemar Leite de Souza, de 58 e Marcelo Eudorico, de 48 anos. A capacidade de criar, construir ou consertar objetos fez com que esses profissionais fossem reconhecidos em seus bairros e cidades como um dos poucos que persistem neste ramo atualmente.

Francisco Ferreira, conhecido como ‘Macucau’, é figura unânime por toda Senador Guiomard, cidade distante cerca de 24 quilômetros da capital acreana, Rio Branco. Por lá, é conhecido como o “rei das panelas” por consertar, cortar e renovar esses e outros utensílios de cozinha. Nozemar ganhou fama com sua fabricação de tábuas para carne e Marcelo tem uma gama de clientes que o procuram todos os dias para comprar churrasquinhos. Todos tiveram de investir na arte manual e experiência de vida para sobreviver em meio a períodos difíceis da economia local.

Ganhar a vida como autônomos e donos do próprio destino não é fácil. Que o diga Macucau, que atua com um serviço por vezes considerado ultrapassado por uma parte da sociedade. Ele sobrevive da carpintaria há mais de 10 anos no mesmo endereço: rua Francisco Leitão, bairro Naire Leite. “Tenho esse apelido desde quando eu trabalhava na Bonal. Matava bastante Nambu (também conhecido como Macucau) para comer porque não tinha mercado perto, nem criávamos galinha, e sobrevivia dos pássaros na floresta. Isso foi em 1986 e até hoje me chamam assim”, conta.

Macucau montou sua oficina de panelas em 2011, após sofrer um acidente de trabalho. “Já trabalhava como carpinteiro, marceneiro, mas me acidentei numa queda de 4 metros onde quebrei meu pé em dois lugares. De tanto fazer esforço, também fui operado três vezes de hérnia e o médico falou que eu não poderia mais mexer nesse trabalho pesado”.

Hoje, ele agradece o dom recebido por Deus. “Consigo mexer com essas coisas agora e me sinto feliz, me sinto bem, fico feliz de ver os clientes serem ajudados por mim”. Ele tinha 55 anos quando começou a trabalhar com sua própria oficina, construída nos fundos de sua casa, localizada em Senador Guiomard, onde nasceu. “Sempre trabalhei muito fora de casa, em fazendas, mas quando terminava o serviço vinha para cá. Consegui conquistar muitos clientes em todos esses anos”.

Apesar de não ser mais um serviço bastante procurado como antigamente, há pessoas que não hesitam em procurar o trabalho de Macucau. “Elas vêm aqui pelo trabalho que eu faço, que é bem feito. Não cobro muito caro. Cobro R$ 15 para cortar uma panela, o que é uma economia se comparado a outras pessoas que abriram o mesmo tipo de oficina aqui, que cobravam mais de R$ 25. As pessoas acabavam correndo para cá e aí foi crescendo minha área de trabalho”.

“Tenho dinheiro para o pão de cada dia”

Seu Francisco afirma que mesmo com dificuldades em conseguir matéria-prima, não tem faltado serviço. “Sempre tenho um dinheirinho para comprar o pão de cada dia”. Macucau corta panela, conserta louças, faz lâmina de roçadeira, cabo de terçado, de faca, de martelo, e até garrafa térmica. A oficina é sua única fonte de renda. “Com ela sustento minha esposa, neta e filhos. Assim vamos indo, aqui, acolá, se alguém precisa de ajuda, também ajudamos”.

Macucau diz emocionado que Deus não tem deixado faltar o alimento através desse trabalho que desempenha com tanto zelo. “Não consigo dizer quantos serviços pego por semana, porque vai chegando um atrás do outro. Às vezes chega panela pela manhã, à tarde chega serrote para amolar, colocar cabo, vários serviços, e assim vou fazendo um e outro”.

O carpinteiro lamenta o fato de nos dias de hoje não se ver mais esse tipo de oficina tão facilmente. Para ele, é mais que um trabalho braçal, mas um verdadeiro artesanato. “Eu gosto de utilizar muitos tipos de coisas que as pessoas acham que não tem mais utilidade e jogam fora. Vou inventando, criando. Aproveito muito algumas coisas, pedaços de cano que encontro por aí”.

O profissional comenta ainda que gostaria que o Departamento Estadual de Água e Saneamento (Deas), situado na capital, e os moradores em geral de sua cidade o ajudassem doando objetos que, para muitos, não servem mais. Isso porque o que alguns jogam fora ou tacam fogo, para Macucau é de grande utilidade. “Acho que as pessoas continuam buscando meus serviços por elas não saberem realmente fazer esses consertos, não terem tempo. Um cliente me falou uma vez que tentou fazer uma garrafa térmica e tinha passado quatro dias tentando fazer, mas foi obrigado a quebrar tudo, jogar fora e me procurar”.

Transformando lixo em utilidade

O carpinteiro já tem seus trabalhos vendidos para fora do Acre. “Vendi duas garrafas térmicas para moradores do Pará e uma foi para o Rio de Janeiro, por pessoas que me conheceram através da minha família”. Ele não quer parar e pretende investir em novas criações. Mas um problema acaba atrapalhando: a falta material. “Às vezes falta material suficiente, máquinas. Me imagino fazendo muitas coisas, mas não tenho materiais suficientes para fazer aquilo que me vem nas ideias”.

Como exemplo do problema, ele citou a fabricação de cabos de faca e terçado, que já está quase parando nessa semana por falta de material. “Me viro por aí, juntando objetos, às vezes as pessoas veem um pedaço de cano e trazem pra mim. Daí vou utilizando ao invés de jogar fora”.

Ele ressalta que o poder público poderia ajudá-lo assegurando objetos jogados junto ao Deas. “Se guardassem e eu pudesse ir buscar, seria muito bom, porque comprar um cano é inviável, custa muito caro e não tem como. Nossa renda é pouca e queria muito que eles pudessem me ajudar dessa forma”. Outra iniciativa que está nos sonhos de Macucau é ensinar aos jovens estudantes a carpintaria e a marcenaria. “Eu aprendi isso na escola com o grêmio estudantil. Aperfeiçoei o dom que Deus me deu porque na minha época, quando aqui ainda era Quinari, nos ensinavam esse tipo de trabalho fora do horário de aula”. Não só ele, mas outros amigos da escola optaram por seguir atuando no ramo da carpintaria.

“Fazia isso e gostava muito, tanto que gosto até hoje e estou trabalhando com isso. Igual essa minha oficina aqui só tem a minha na cidade. Atendo pessoas de Capixaba, Brasileia, Rio Branco, Plácido de Castro e assim vou ajudando as pessoas. Essa semana mesmo chegaram dois sacos de panela aqui”, afirma.

De tão querido na cidade, Macucau já foi chamado para se candidatar a vereador pelo menos 12 vezes, mas nunca quis. “Já trabalhei reformava delegacias, mexendo com portas e janelas, trabalhei no presídio do município. Fui muito bem avaliado aqui por três engenheiros importantes do estado, que quiseram até me levar para fora. Trabalhei em grandes construtoras. Então, essa é uma área que eu gosto muito e tenho grande conhecimento na carpintaria”.

O trabalhador se orgulha em reutilizar objetos que seriam jogados fora para dar uma utilidade nova. “Se eu tivesse material suficiente, faria mais coisas ainda. Hoje em dia a madeira está muito difícil de conseguir, mas as pessoas admiram muito meu trabalho. Tudo que eu vejo eu gosto de reformar. Ao invés de comprar uma cadeira nova, que é praticamente descartável nos dias de hoje, prefiro reformar uma e ficar com ela por mais tempo. De tudo eu faço um pouco e gosto de fazer”, conclui.

Hobby que virou renda extra

Nozemar Souza começou a fabricar tábuas de cortar carne com madeira há cerca de dois anos, logo no início da pandemia de Covid-19. Além disso, se dedicou a trabalhar com suporte de facas e plantas. “A pandemia que me despertou isso. Estava na minha casa um certo dia e pensei: vou já fazer um brinquedo de madeira para minha neta. E aí comecei a fazer umas mesinhas, umas camas e fiz uma pirâmide para minha esposa colocar as plantas”.

A partir de então, ele tomou gosto pelo serviço e como ele mesmo diz, se descobriu na marcenaria. “Era um hobby que persistiu e faço até hoje. Construo tábua para cortar, tábua para colocar frios e divulgo tudo que faço na internet”. O trabalho que começou por questão de necessidade financeira rapidamente tomou espaço na vida de Nozemar. Seus artesanatos são peças fundamentais para o sustento da família. “Hoje, continua sendo uma renda extra, mas também uma maneira de esfriar a cabeça, de relaxar. Sustento pelo menos quatro pessoas com isso, eu, meus filhos, minha sogra, esposa, e as netas”.

A dificuldade que ele encara também é a de materiais. “Às vezes não tenho material adequado, faço quase tudo na mão mesmo e também o barulho, o pó pode incomodar os vizinhos. Por isso, tenho horário certo para eu trabalhar, tentando incomodar o menos possível para não ter confusão com ninguém”.

O carro-chefe desse negócio é a venda das tábuas para cortar carne e os suportes de facas. O negócio vem dando tão certo que já pensa em voos mais altos. “Estou pensando em procurar um local, um terreno para começar a fazer uma oficina maior e expandir. Não pretendo ficar só trabalhando em casa, não. Já que descobri esse dom que Deus me deu, quero expandir, sim”, diz Nozemar, que recebe pedidos pelo (68) 9977-8666.

Espetinho da Morada

Marcelo Eudorico, de 28 anos, retomou a venda de churrasquinhos em sua casa, localizada no bairro Morada do Sol, em Rio Branco, também na pandemia. Em seu caso, uma questão de saúde devido a problemas cardíacos o fez migrar de ramo. “Encontrei na venda de churrasquinho a oportunidade de não ter tanto esforço físico, por recomendação médica, e tentar ganhar dinheiro”. Há 12 anos, ele também já teve uma experiência de sucesso com churrasquinhos, por isso, decidiu voltar à área.

“Era no mesmo bairro que eu vendia, mas em outro local. Com isso, fidelizei muitos clientes, que mesmo depois de muitos anos sempre perguntavam pelo nosso churrasquinho”. Seu antigo trabalho acarretava estresse extremo e como sempre se identificou com a culinária, resolveu investir no ramo. “É um toque a mais que a gente tem e que agradou as pessoas”.

Ocorre que cerca de oito meses depois de reabrir a venda de churrasquinhos, a pandemia se agravou e ele teve de se reinventar com a implantação do delivery. No começo, as vendas se davam em sua maioria por drive-thru. “Mas já tive momentos, quando estava em lockdown, de a gente ter que parar tudo mesmo. Parecia que estávamos fazendo algo errado. Foi bem difícil”.

Hoje, toda sua renda financeira vem da venda dos churrascos. O segredo da casa são os molhos e pastas e chega a comercializar até 250 espetinhos por noite. Com o sucesso nas vendas, Marcelo já conseguiu empregar sete pessoas diretamente. “Indiretamente tem toda uma cadeia, como fornecedores de carvão, etc. Aqui a gente trabalha com uma variedade de espetinhos, como frango, carne, coração de frango, queijo coalho, mas o carro-chefe é a kafta no pão”, destaca.

Ele acredita que a grande quantidade de clientes vem, primeiramente, pela sua fé em Deus. “A gente acredita todo dia que tudo Deus pode, mas creio também que acrescentamos no paladar das pessoas”. Nesse ano, ele já teve oportunidade de expandir o empreendimento, mas com receio de um novo pico de contaminação do coronavírus, preferiu aguardar. “Estamos num momento pós-pandemia, tudo valorizou muito, triplicaram os valores. Pagava R$ 14 num quilo de carne, hoje pago R$ 30, então estou aguardando o momento certo”.

Para ele, a inflação é a grande vilã do seu negócio. “Hoje o que dificulta é o fato de sermos diariamente surpreendidos com algo diferente, como aumento do preço da gasolina, dos ingredientes, e não podemos estar atualizando a tabela dos nossos preços todo dia, repassar ao cliente, temos que respeitar e ficamos nessa situação”. Apesar de o churrasquinho funcionar no Morada do Sol, ele atende clientes em todos os bairros acessíveis pelos aplicativos de entrega em Rio Branco.

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Cotidiano

Saltenha do Pastor, a mais famosa do Acre, tem raízes na Turquia, trazida pela família Mugraby

Lanchonete vende mais de 400 saltenhas por dia e aposta em receita secreta, com ingredientes de “primeira”, para manter o sucesso

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É num espaço estreito e acolhedor, medindo apenas 2 metros de largura, que se encontra uma das iguarias mais conhecidas do Acre: a saltenha do Pastor. Apesar do nome sugestivo, nada tem a ver com religião. Pastor Bravo Mugraby é o nome do descendente turco que trouxe a receita (guardada a sete chaves) que deu origem ao salgado mais procurado no Cantinho Lanche do Pastor, a lanchonete mais antiga em funcionamento no coração da cidade de Rio Branco, ao lado da agência dos Correios e de frente ao Novo Mercado Velho.

Após 42 anos de existência, o estabelecimento tornou-se um valioso patrimônio cultural em plena capital acreana, vendendo mais de 400 saltenhas por dia, fora outros produtos. ‘Seu Pastor’, como era conhecido, tinha origem familiar na Turquia e faleceu há cinco anos, mas deixou um legado de respeito que vem sendo perpetuado pela família, seguindo a majestosa trajetória construída por ele no âmbito culinário.

Seu filho, Clayton Ribeiro Mugraby, a nora Marilza Carrilho de Souza Mugraby, e os netos Nathan Carrilho Mugraby e Marcus Vinicius Carrilho Mugraby, são os responsáveis por comandar a tradicional lanchonete desde 2016, após a morte do patriarca. São eles quem seguem eternizando o tempero ensinado pela mãe de Pastor. Felizmente, o filho, Clayton, e os netos Nathan e Marcos, conseguiram aprender o segredo das saltenhas para suceder o criador.

Como tudo começou

A história do Cantinho Lanche do Pastor começa em Guajará-Mirim, cidade do estado vizinho Rondônia. Foi lá que onde ele nasceu e foi criado pela mãe, que tinha parte da família com descendência turca e outra boliviana. Daí a explicação para a paixão dos Mugraby’s pelas saltenhas (salgado foi difundido pela Bolívia). Pastor aprendeu a fazer saltenha muito cedo com a mãe.

Adulto, começou a trabalhar como carteiro numa agência de Correios da cidade, e pouco depois recebeu chamado para ser transferido a Rio Branco. “E ele veio pra cá. Foi crescendo dentro da empresa e virou gerente daqui. Por ele estar sempre aqui no Correios, viu surgir esse ponto, onde hoje é a lanchonete”, conta a nora, Marilza. O ponto chegou a fazer parte do Correios antes de ser adquirido. “Uma pessoa invadiu aqui e depois vendeu pra ele. Posteriormente, ele adquiriu [espaço] no usucapião”.

O objetivo do carteiro que virou gerente e se aposentou pelo Correios, sempre foi vender suas saltenhas. O Cantinho existe há mais de quatro décadas sempre no mesmo local. “Ele começou a fazer a saltenha, sempre vendendo todo tipo de salgado, como quibe de arroz, pastel de queijo, carne, mas a saltenha era o principal daqui”. Com o passar do tempo, a receita de família virou um sucesso e foi atraindo cada vez mais clientes.

A família conta que Seu Pastor trabalhou até enquanto pôde. “Ele ficou aqui até morrer. Era ele quem fazia os recheios. Pastor vinha para a lanchonete até aos domingos, quando estava fechada, só para conferir se estava tudo certo com as coisas dele. Entrava 5h da manhã e só saia 18h da tarde todos os dias”, revela a família. Atualmente, entre todos os funcionários, só Clayton e os filhos conhecem e fazem todo o preparo do recheio.

De pai para filho e do filho aos netos

Já são pelo menos quatro gerações que carregam a receita sigilosa que dá vida à saltenha mais famosa do estado. Marilza relata que aconteceu algo incrível, quase sobrenatural pouco antes de o patriarca da família Mugraby falecer. “Antes dele morrer, meu esposo acordou de madrugada e pensou: rapaz, eu vou aprender esse recheio. Isso aconteceu dois meses antes. Seu Pastor ensinou meu esposo, que já ficou fazendo os recheios das saltenhas, desde então”.

Os próprios clientes sempre brincavam com a receita secreta e viviam dizendo para que Clayton, Marilza ou os filhos aprendessem logo para não ficarem sem o lanche, pois Pastor já estava ficando mais velho. “Meu sogro até ficava chateado quando falavam isso”, brinca a nora. Hoje, quem mais fica dentro do empreendimento são os netos. Clayton se dedica mais à parte administrativa dos negócios, às compras, Marilza ajuda na cozinha e os netos atendem, cuidam do marketing, dos recheios e se encarregam de manter a qualidade dos produtos.

“Nós temos clientes que já comem aqui há mais de 30 anos. Eles mesmos falam que só comem salgado se for aqui. Acredito que nosso diferencial seja sempre dar o melhor aos clientes”, diz a matriarca. Com o criador do negócio, eles afirmam ter aprendido a perseverar. “Não é fácil, não. Agora nessa pandemia, então, quase que a gente fecha as portas. Meu sogro teve uma perseverança muito grande por esse lanche, porque já passamos por várias crises aqui”.

Mesmo com as dificuldades, a família encontra forças para seguir tocando o legado de Pastor. A empresa se tornou um negócio familiar. A maior parte dos colaboradores tem o mesmo parentesco, quando não, são amigos ou colegas muito próximos da família.

Segredo do sucesso

A nova geração da família Mugraby, que gere a lanchonete deixada pelo Pastor, não tem dúvidas de que possuem dois importantes fatores para um sucesso de tão longo prazo. São eles: tempero e clientela fiel. “A gente compra os melhores produtos, tentamos agradar o cliente assim. Nosso produto não é um produto barato, as pessoas até brincam dizendo que é o lanche mais caro que tem, só que a gente procura fazer o melhor e todos gostam”.

O tempero também é tido como um dos segredos importantes da empresa. “Nossos produtos são muito bem temperados. A gente não economiza nisso e essa atitude vem desde quando Seu Pastor era vivo. Sempre compramos os melhores ingredientes, gastamos muito dinheiro com tempero”. No atual cenário da economia brasileira, com o preço dos produtos elevando constantemente, fica difícil manter um preço mais baixo nos salgados. “É complicado para o cliente. Ele chega aqui e tem aumentado o valor das coisas. É uma luta constante para podermos manter isso aqui”, lamentam.

A conquistas de centenas de clientes também é outro ponto que favorece o estabelecimento. “Graças a Deus temos clientes tão fiéis que, mesmo com as portas fechadas na pandemia, eles vinham aqui atrás de comprar. Atendíamos eles em drive-thru e eles diziam que não iriam deixar a gente, que iriam continuar conosco para nós não fecharmos a lanchonete”. Chegava a formar fila de carros na rua do Cantinho enquanto estavam na bandeira vermelha da pandemia.

No pico da contaminação de Covid-19, eles tiveram de demitir todos os funcionários. “Ao todo, são 13 colaboradores. Quando fechou tudo, todos nós da família tivemos que colocar a mão na massa para não ter que fechar em definitivo. Recentemente estávamos vendo que não estava dando para manter aberto porque nunca atrasamos pagamento de salário e começou a atrasar. Aí foi quando decidimos aumentar o preço dos salgados”.

Esse foi mais um dos momentos difíceis, mas que por incentivo dos clientes, acabou superado. “As pessoas que compram todos os dias dizem: ‘aumente o preço do produto, mas não caia sua qualidade, porque o seu salgado é muito bom. Isso que dá estímulo pra gente. O nosso próprio cliente dizer isso”.

Renovação

Passados mais de 40 anos, hoje o empreendimentos sustenta cerca de 15 famílias. São 80 litros de recheio de saltenhas feitos diariamente. Cada uma delas leva aproximadamente 185 gramas do recheio com tempero secreto. Agora, planejam expandir os negócios. “Pretendemos deixar tudo bem mais estruturado fisicamente. Já começamos a investir nas redes sociais, no marketing e no delivery, coisa que antes não fazíamos”, conta Nathan Mugraby, um dos netos que ficam à frente da empresa atualmente.

Como o ponto da empresa é um patrimônio deixado pelo patriarca e Clayton tem cinco irmãos, a família paga um valor como se fosse o aluguel para os irmãos. A família vive exclusivamente com o lucro da lanchonete, dependendo da continuidade do sucesso nas vendas. Marcos Vinicius, também neto do Pastor, reconhece a importância da lanchonete na cidade. “Esse lanche já virou um patrimônio do Acre e vi que é uma oportunidade de crescer cada vez mais. Uma das coisas que fizemos para contornar as dificuldades foi o delivery. Quando começou a pandemia, nós mesmos que fazíamos entrega nas motocicletas, por mais de um ano eu e meu irmão fazendo as entregas”.

O sistema de entrega vem dando muito certo. “Depois fomos nos organizando, chamando motoboy. Antes disso, além de entregar, a gente cozinhava, atendia, fazia de tudo mesmo. Eu e meu irmão crescemos aqui dentro”. Para o neto, o Cantinho significa muita coisa. “Não são 10 anos, são 42. A gente cresceu nisso aqui, a gente depende disso. Além do lado financeiro, tem uma historia muito grande que começou com o meu avô. Ele sempre ajudou muito a família, mesmo antes de meus pais assumirem o lanche. Ele sempre tentou ao máximo unir a família, e tudo isso era possível porque ele tinha esse lugar. Foi um meio de unir toda a família, então, o Cantinho significa família”.

Nathan, o mais novo, conviveu pouco com o avô. “Quando comecei a trabalhar aqui, ele já havia falecido. Meu pai estava muito sobrecarregado e por isso que eu vim. Mas como a gente cresceu aqui, uma coisa que a gente percebia é que tudo que ele ia fazer, fazia não para ele, mas porque ele pensava no cliente”. Até hoje os Mugraby’s priorizam cozinhar pensando no cliente e não neles próprio. “Tem cliente que chega aqui e fala: ‘meu pai me trazia aqui e agora estou trazendo meus filhos’. Por isso que por muito tempo isso aqui não fechou, porque tentamos, ao máximo, trabalha conforme o cliente gosta. Tem coisas que eu tenho que cozinhar que eu não gosto, mas eu sei que os clientes gostam. Então a gente tenta ao máximo colocar sempre o cliente em primeiro lugar”.

Amor e qualidade

Além do produto principal de vendas, que é a saltenha, o Cantinho ainda conta com uma variedade de outros salgados, como coxinha, quibe, pastéis e sucos. O empreendimento foca ainda em recheios especiais, como camarão, bacalhau e recheios doces. Nathan diz que apesar de a situação não estar fácil pra ninguém, tentam fazer o podem. “O custo é muito alto, mas a mensagem que deixamos a quem se inspira na gente é fazer as coisas com o maior amor possível e qualidade”.

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Neto do Pastor ensina como comer a saltenha do jeito certo – Vídeo: Sérgio Vale/ac24horas.com

A paixão pelo tempero do Pastor faz com que inúmeros clientes comprem as saltenhas congeladas para levar para fora do estado e até outros países. “A gente tem persistido nesse caminho e graças a Deus, toda semana sai até cinco encomendas pra fora do estado. São acreanos que estão morando fora do Acre ou familiares que vêm aqui visitar e quando estão voltando levam consigo. Toda semana sai de 10 a 15 saltenhas pra fora. Eles congelam aqui e quando chegam lá, descongelam e fritam”.

Os netos afirmam que esse é o caminho, de fazer o trabalho sempre com amor e tentando agradar os clientes. “A gente não tenta fazer algo pra ganhar dinheiro, porque se a gente focar nisso, as coisas não vão sair legais, porque dessa forma a gente acaba tentando economizar em alguma coisa, economizar no tempero, por exemplo. Mas quando a gente faz algo que é pra agradar as pessoas, com amor, com qualidade, sem pensar no dinheiro e no retorno, o sucesso vem com consequência”, concluem.

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Destaque 7

Doceria aberta para renda extra vende quase R$ 100 mil em 7 dias

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Era para ser um serviço temporário, um escape para o desemprego que assolava o auge da pandemia de Covid-19 em Rio Branco, capital do Acre. Erika Magalhães e Elizardo Lima estavam sem trabalhar quando decidiram vender brigadeiros pela internet para conseguir comprar comida e pagar as contas. Eles só não imaginavam que em tão pouco tempo sairiam do zero para um faturamento de mais de R$ 90 mil na semana da Páscoa em 2021. Uma doceria de bairro que conquistou milhares de clientes em toda parte da cidade.

A ideia que nasceu como uma forma de renda extra rapidamente se tornou uma das principais casas de doces da capital acreana, a Mimu’s Doceria, maior fonte de renda do casal. Erika e Elizardo são procurados por pessoas e organizações de vários estados, tamanho sucesso alcançado com a empresa que tem como carro-chefe atualmente a venda de bolos, divulgados como “caseirinhos”. Eles creditam à persistência o fato de terem alcançado mais do que esperavam.

Erika trabalhava como vendedora num shopping da cidade quando começou a ter crises de fibromialgia. Com isso, teve de abandonar o emprego e ficar em casa, o que a levou a uma depressão. “Aí, em 2018, comecei a trabalhar com doces em casa. Nessa época ainda não conhecia meu esposo. Como eu morava no bairro Vila Acre, era muito inviável fazer entregas, trabalhar sozinha e acabei parando”.

O casal se conheceu em 2019. A jovem ainda estava com dificuldades em se recolocar no mercado de trabalho e decidiu vender roupas. “Viajei para São Paulo, pensei em ser sócia da minha irmã, mas o negócio não deu certo, ela quis o dinheiro de volta e eu nem tinha como devolver”. Por sorte, uma amiga da igreja que Erika tem como uma mãe, a emprestou os R$ 11 mil que ela devia para poder quitar a dívida com a irmã. Entretanto, ficou com toda a roupa “empancada”.

“A partir daí eu não quis mais trabalhar com roupas. Desencantei totalmente. Nesse período o Elizardo trabalhava com venda de ingressos. Começamos a namorar e rapidamente já estávamos morando juntos no apartamento da Vila Acre”, conta. Com o agravamento da pandemia, o parceiro ficou totalmente desempregado.

“Eu já estava desempregada e depois ele [esposo] também ficou. Começamos a nos preocupar muito. Eu sou bastante nervosa e ficava pensando no que a gente iria comer no dia seguinte. Desde criança sou assim, pequenininha eu ficava atrás da porta chorando e perguntando para minha mãe o que meus irmãos iriam tomar café no dia seguinte”, relata Erika.

Ponto de partida – Num desses dias de aflição, em meados de janeiro de 2020, com aluguel e outras contas atrasadas, o casal estava deitado quando Elizardo viu a fotografia de uma barca que Erika havia feito com brigadeiros de chocolate. “Ele me disse: ‘por que você não faz isso para vender?’ Eu respondi que já tinha feito no passado e não havia dado certo”.

Otimista, o marido afirmou: “se você fizer, a gente vende 10 barcas em um dia”. Com mais de 10 mil contatos no WhatsApp, já que trabalha na divulgação de eventos, Elizardo começou a divulgar os doces que Erika começaria a produzir. “Ele publicou num grupo de comida do Facebook. Fiz uma barca bem bonita, com frases de chocolate escritas ‘te amo’, ‘me perdoa’, e ele fez a foto. Começamos a postar nas redes sociais e nossos anúncios viralizaram na internet”.

Em questão de semanas, as encomendas de barcas e brigadeiros aumentaram substancialmente e os jovens empreendedores começaram a traçar metas. “No início, nossa meta era vender R$ 100 por dia. Todo dia a gente fazia esse valor e foi aumentando. Passou pra R$ 500, R$ 600 e vimos que estava dando certo”, conta Elizardo. O casal foi praticamente expulso do apartamento onde moravam porque quando a média de vendas chegou a R$ 700 por dia, cresceu muito o fluxo de clientes no local e os vizinhos começaram a reclamar.

Foi no período de Páscoa em 2020 quando os proprietários do que se tornaria a Mimu’s Doceria perceberam que o negócio estava engrenando e iria render bons frutos. Foi uma explosão de vendas. “Fizemos R$ 12 mil reais no apartamento que morávamos, mas tivemos que sair de lá, sempre focando que iria dar certo. A gente não dormia. Na madrugada a gente lavava louça, durante o dia fazia os doces e à tarde saía no carro entregando”.

Reviravolta – Elizardo saiu tarde da noite para entregar um dos tradicionais “caseirinhos” quando descobriu um local com ótima localização para vendas pronto para alugar.  “Ele chegou tarde me acordando: ‘amor, tenho uma novidade pra ti. O ponto que a gente sempre falava está vazio’. De início, pensei que não conseguiríamos manter, pois tínhamos muitas dívidas, apesar de estarmos com dinheiro das vendas”, destaca Erika.

O casal ligou para a proprietária, que falou: “eu nem iria alugar, pensei em ficar com o ponto, mas Deus tocou no meu coração que é para ser de vocês”. A partir daí começa a trajetória de muito esforço até chegarem ao que são atualmente. “A gente não tinha nada. Mudamos na cara e na coragem. Os amigos nos ajudaram, um deu um freezer, as mesas, outro também doou outras coisas. Todo mundo nos ajudando. A irmã da Erika emprestou o cartão para comprarmos mercadoria”.

No entanto, eles só vendiam brigadeiro e quando mudaram para a estrada da Floresta, os clientes sempre procuravam por bolo na Mimu’s Doceria. “Antes da gente, já teve outra doceria nesse ponto e quando a gente abriu, os clientes vinham muito em busca de bolo.  A gente dizia que tinha acabado, que no dia seguinte iria ter, mas na verdade nem vendíamos esse produto”, brinca Elizardo.

Erika teve uma infância difícil, morou só desde os 13 anos, quando saiu de Plácido de Castro para Rio Branco. Desapegar de todos os bens materiais que estavam no antigo apartamento para poder alugar um ponto comercial foi um momento difícil para a doceira. “Aos 21 anos tive que vender tudo que eu tinha no apartamento. Tive que abrir mão de morar sozinha e ir para casa da sogra. Mas como era por um bem maior, fiz para tentar fazer dar certo. Vendi as coisas do quarto e da sala e as da cozinha trouxe para a loja”.

O forno que eles tinham era bem pequeno, junto a um armário e uma mesa. A mesa trincou assim que colocada dentro da loja. Em pouco tempo, o forno já não assava mais e o casal teve de recorrer novamente à irmã de Erika. “Ela me emprestou um cartão de crédito com R$ 15 mil. Estouramos. Não tínhamos experiência com nada, então gastamos com coisas desnecessárias. Hoje, se nos derem R$ 15 mil, abrimos uma doceria completa. Até hoje estamos terminando de pagar esses cartões”.

Após os perrengues iniciais, os empreendedores conseguiram comprar uma batedeira industrial, dois fornos industriais e conseguiram manter o ritmo de compra de todos os insumos.

A receita do bolo – Até alcançarem a glória, ambos enfrentaram uma verdadeira guerra para chegar na receita do bolo que é vendida hoje pela Mimu’s Doceria. Foram mais de 30 dias fazendo testes, entrando pela madrugada, gastando ingredientes, para conseguir a massa ideal. “A gente veio para vender brigadeiro, mas fomos pegos de surpresa com os clientes  exigindo bolo”, contam. Erika nunca havia feito bolo para vender, somente em casa para a família.  “Não sabia como fazer, tentei várias vezes e não dava certo, passava dia e noite aqui, gastando ingrediente”.

Eram dois fardos de trigo por dia, além de ovos, açúcar, entre outros insumos, gastos por mais de um mês até conseguirem resultado satisfatório. “A gente ligava para mãe, para as amigas, assistia vídeos. E ela [Erika] só chorava. Eu sempre dizia que iria dar certo”. Questionada sobre a sonhada receita de bolo, Erika conta que foi Deus. “A receita que a gente usa hoje, tenho certeza que foi Deus que colocou nas nossas mãos. Hoje até o Elizardo já bate massa de bolo, porque ficou muito prático”.

Depois disso, puderam ver a clientela triplicar. Inicialmente, compravam uma pequena embalagem de morangos para produzir os doces, depois passaram a adquirir caixas da fruta. “Lembro da primeira vez que fui comprar uma caixa de morangos. Fiquei preocupado, pensando que iria estragar. Hoje já chegamos a comprar 20 caixas de morango em apenas um dia e gastar R$ 2 mil com morango por semana”, revela o proprietário.

Metas e rede social como ferramenta  – Ao contrário da companheira, Elizardo sempre se demonstrou mais positivo em relação ao crescimento da empresa. “Eu falava pra ela que mesmo na pandemia a gente iria montar uma doceria. Ela não tinha certeza disso. Mas sempre avisem que é na crise onde nascem as oportunidades. Em 2021, eu disse que a gente iria vender R$ 100 mil na Páscoa e a Erika duvidou”.

A mulher não imaginava que tamanho sonho seria possível. “Não vendemos R$ 100 mil, mas conseguimos vender mais de R$ 90 mil, muito acima da expectativa. E só não vendemos mais porque não tinha produto, a gente não acreditou que chegaríamos nisso. Foram 1.200 ovos de páscoa vendidos”, comenta. Ela relembra que na quarta-feira antes da páscoa, não tinha nem 10 encomendas.

“Só que à noite fizemos uma divulgação por tráfego pago [investimento em plataformas e sites] e no dia seguinte não demos conta de tantas encomendas. Tivemos que fechar as portas e se dedicar só aos pedidos. Vendemos 800 cascas de ovos em menos de um dia. Foi aí que a gente viu o quanto iríamos expandir o negócio”, relata Erika.

De lá para cá, não é difícil observar a formação de longas filas de clientes a procura dos produtos da doceria. O próprio Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Acre (Sebrae-AC) descobriu o sucesso do estabelecimento e fez uma visita à cozinha da Mimu’s no início deste ano. A instituição chega a citar a empresa em algumas palestras. “A gente enfrenta muitas dificuldades ainda, mas vamos conseguindo seguir em frente. Logo que viemos pra cá, sofremos um linchamento virtual com algumas pessoas espalhando mentiras sobre nossa empresa. Diziam  que não trabalhávamos com produtos de qualidade”. O casal atribui a retaliação ao marketing pesado que eles utilizam na internet. “Usamos muito a mídia e isso nos ajudou bastante na propagação da marca”.

Expansão em lojas, cursos e franquias – Os donos planejam abrir mais duas filiais em breve na capital acreana. Simultaneamente às novas inaugurações, eles já projetam o lançamento de cursos sobre empreendedorismo e ainda da franquia Mimu’s Doceria. “Já abrimos outro ponto, que é uma cozinha, e vamos expandir mais duas lojas. Estamos só procurando os locais. Queremos que um seja na Vila Acre e outro perto do Horto Florestal”.

O objetivo é facilitar para o cliente dessas localidades, que chegam a pagar R$ 15 pela taxa de entrega. “Não temos como acabar com essa a taxa porque temos de 10 a 15 motoboys aqui na frente e que precisam ganhar o deles também. Temos menos de dois anos de empresa e 7 funcionários fixos e mais 4 esporádicos, que chamamos quando precisamos”, diz Erika.

Elizardo assegura que hoje eles se veem como uma doceria delivery. Eles já pensaram em colocar mesas, trabalhar com atendimento presencial, mas viram que esse não era o forte do casal. “Decidimos que vamos focar em trabalhar com doces rápidos. A pessoa sai do trabalho apressada e precisa de um bolo? Aqui tem. Kit parabéns vende muito, as pessoas esquecem, pegam aqui e pronto”.

Hoje o modelo que a Mimu’s trabalha e que ainda abrirá outras filiais é o modelo delivery. “A gente não tem mais vontade de abrir mesas e pelo que sabemos só a gente funciona assim. O delivery hoje é tendência no Brasil, principalmente depois da pandemia. Nos dias em que a gente mais vendia era quando estava decretado lockdown e estava tudo fechado na bandeira vermelha”, afirmam.

Um diferencial da empresa é a entrega rápida, já que a mesma atua com produtos prontos e entregadores próprios. “Chegam muitas pessoas de outras empresas, amigos querendo saber da gente como conseguimos montar tudo isso. Querendo ou não, é um mérito nosso, serve de modelo, exemplo. Hoje pra nós é mais fácil porque já sabemos o caminho, por onde começar. Na prática, foi tudo muito novo e apanhamos muito. Já tentei vender perfume, marmitas, Erika já tentou vender roupa, mas não deu certo. Agora estamos aqui”, conta Elizardo.

Expectativas pro futuro

Os proprietários relatam que quando pensaram em mudar para onde fica a doceria hoje, algumas pessoas disseram que não iria dar certo, mas eles só tinham essa opção. “A gente tinha que fazer dar certo, nem que fosse só os três meses de contrato do aluguel. Estamos no local há quase dois anos e tínhamos que dar certo, se não fosse vendendo brigadeiro, iria ser vendendo bolo, se não fosse vendendo bolo, seria refrigerante, mas aqui vai ter que dar certo”.

Hoje eles comercializam brigadeiros, copos da felicidade, combos, kits promocionais, mas o carro-chefe é mesmo o bolo. “A internet também nos salvou. A gente usa estratégias de venda também para vender ingressos, que já usamos em nosso delivery. Em dias de promoção, vendemos até R$ 10 mil em doces. A gente sempre foca em não perder venda e dobrando nossa meta”, completam.

A meta de vendas para este final de ano aumentou, com a nova cozinha, poderão trabalhar de forma melhor. “Vai ter um local só para montagem de produtos e outro será uma fábrica, para produzir bolos, recheios, que é pra quando a gente abrir as outras lojas já estarmos preparados”.

Hoje a doceria já gira capital sozinha, o que já fez realizar alguns sonhos na vida do casal, que está grávido de 7 meses. “Agora, com a Eloá, mais do que nunca isso aqui tem que triplicar. Se antes a gente não tinha a opção de dar errado, hoje é que não temos mesmo. Se isso não der certo pra mim, não sei mais o que vou fazer. Tem que continuar dando certo”, conta Erika.

Propostas – O sucesso da doceria já notado fora do Acre. Empreendedores de pelo menos três estados e dezenas de cidades do Acre já procuraram o casal na tentativa de uma franquia da Mimu’s Doceria. Erika confirma: “gente de Fortaleza, Aracajú, Porto Velho, cidades do interior do Acre querem nosso modelo. A gente já até começou com esse projeto, assim como os cursos, que já tem aulas gravadas, mas foi quando descobri a gravidez e parei”.

A meta da empresa é vender no mínimo R$ 200 mil neste fim de ano. “Além da doceria, procuramos sempre ter novas fontes de renda, porque quando uma não está bem, precisa de outra para levantar.  A gente quer expandir, já penso em ir pra outros estados, vender cursos e isso vai sair do papel em 2022. Queremos fazer modelo de franquia, não podemos desanimar”.

O casal deixa uma mensagem a quem se inspira na história da Mimu’s. “Não desistam. Se com a gente deu certo, é impossível dar errado com qualquer outra pessoa. Já auxiliamos vários amigos, um deles abriu uma doceria depois de ensinarmos tudo do zero. A persistência é 1% a cada dia bem feito e dá certo. Hoje não temos medo de entrar em qualquer lugar e poder comer sem se importar com o valor da conta. Já nos sentimos realizados por podermos comprar o que quisermos e darmos o melhor a nossa filha. A maior realização é querer algo e poder comprar”, finalizam.

 

 

 

 

 

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Acre

Shows e eventos voltam a impulsionar noite do Acre

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Quase dois anos depois de vivenciar um dos momentos mais críticos da história da humanidade, a população do Acre vem retomando aos poucos a vida como ela era antes da pandemia do novo coronavírus. Prova disso é a volta dos shows e eventos com capacidade para grande público, que foram recentemente liberados e começam a ser divulgados na capital, Rio Branco. O setor de eventos foi o primeiro a parar suas atividades no pico da pandemia e o último a reabrir as portas, o que gerou um prejuízo de mais de R$ 100 milhões aos empresários da vida noturna só no estado.

Trabalhar no período noturno é para quem gosta do que faz. O último um ano e seis meses durou uma verdadeira eternidade para aqueles que dependiam exclusivamente de shows e eventos de médio e grande porte para manter o sustento da família e dos funcionários. Cada empresário acreano desse ramo emprega pelo menos 150 pessoas a cada trabalho. Após um longo período de dificuldades, a categoria começa a ver uma luz no fim do túnel agora, com a flexibilização das regras sanitárias impostas pela Covid-19.

Leôncio Castro, de 41 anos, é um dos mais tradicionais empresários atuantes no setor de eventos do Acre. Apesar de todos os pontos negativos ocasionados pela pandemia, um sobressaltou de forma positiva. A crise econômica fez com que os empresários se reunissem e criassem a Associação de Bares, Restaurantes, Buffet e Eventos do Acre (Abrace), da qual Leôncio está como presidente, com objetivo de encontrar soluções para os problemas que se depararam nos últimos meses. Até então, o estado não possuía nenhuma entidade focada nesse segmento empresarial.

Para ele, a retomada dos grandes eventos representa esperança para centenas de pessoas que ficaram por quase dois anos sem trabalhar. “Nosso segmento foi o mais afetado. Fomos os primeiros a parar e os últimos a voltar”. Castro diz que os prejuízos deixados pela proibição dos eventos são incalculáveis. “No meu caso, que sempre trabalhei com isso, de repente não sabia o que fazer. Nos primeiros meses existia uma reserva para me manter, manter colaboradores, mas o que aconteceu foi algo que nunca passou pela minha cabeça que poderia acontecer. Em alguns momentos vejo o desespero”, lamenta.

Os jovens empresários André Borges e Bernardo Franklin compartilham o mesmo sentimento. André é sócio de um dos maiores espaços de festas no estado, o Maison Borges, e proprietário de uma das principais produtoras de eventos. Bernardo comanda as maiores festas e eventos eletrônicos na capital acreana com sua produtora Berenight Eventos e a festa Tribe Beat Music Festival. Ambos se mostram aliviados com a liberação para o retorno de suas atividades.

“A categoria simplesmente não se manteve. Os empregados foram demitidos pelos empresários e viviam de auxílio emergencial. Aconteceram algumas ações na pandemia, mas só conseguimos manter muitos dos funcionários com ajuda de doações que conseguimos em ‘lives’. Ajudamos muitos os músicos, técnicos de som. Nós [empresários] fomos pegando dinheiros do nosso bolso mesmo e pagando aluguel de um, de outro”, relata representante da Tribe Beat.

Dificuldades

O badalado setor econômico de eventos representa cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) a nível nacional, uma verdadeira cadeia de serviços que são gerados, direta e indiretamente, Brasil afora e que emprega milhares de pessoas. Uma classe extremamente consolidada, mas que foi praticamente abandonada quando o mundo estava sob a ameaça de um vírus. “Nos sentimos, de certa forma, abandonados pelas autoridades públicas na pandemia”, afirma Bernardo.

Os governos de Minas Gerais e São Paulo criaram programas específicos para subsidiar os trabalhadores desse ramo, diferente do que ocorreu no Acre e outros estados, que não dispuseram de suporte financeiro ao setor de eventos.  O presidente da Abrace confirma que muitos colegas fecharam as portas. Os empreendimentos históricos de nossa cidade não conseguiram sobreviver à pandemia. Não existiu políticas públicas ao setor”.

Leôncio revela que teve de vender sua caminhonete para poder voltar a atuar, após usar toda a reserva financeira que mantinha em meio à crise da Covid-19. “A família foi fundamental para poder aguentar a pressão psicológica. Você pensa muita besteira. Comecei a sofrer de ansiedade e engordei 36 quilos durante os meses que passei em casa. Tomo remédio controlado até hoje”, assegura.

Prejuízos financeiros

Além dos danos psicológicos decorrentes da pandemia e dos problemas sociais, essa categoria ainda está tendo de lidar com prejuízos milionários somados durante esses quase dois anos. A Maison Borges deixou de receber mais de R$ 1,5 milhão só em aluguel de espaço para eventos, o que representa aproximadamente quase R$ 100 mil por mês. “A minha empresa teve de parar de fazer todos os tipos de eventos. Não podia alugar o espaço. Calcular em reais é meio difícil, mas mais ou menos deixamos de faturar com aluguéis na faixa de R$ 90 mil mensais”, explica André.

O grupo empresarial encabeçado por Bernardo Franklin, que é tesoureiro da Abrace, conta com o trabalho de parceiros, um cuidando da mídia, outro do bar, e assim em diante. Eles avaliam que nesses quase dois anos perderam R$ 2 milhões de faturamento dos eventos eletrônicos. “Se a gente for contar com a ExpoAcre, que também não ocorre, esse número chega a mais de R$ 5 milhões perdidos por ano. A gente se virou como pôde, mas dizer que a gente teve renda, nós não tivemos nesses últimos anos”.

Entre os eventos produzidos pela Berenight, estima-se que a empresa perdeu a circulação de pelo menos 30 mil pessoas durante o período mais crítico da pandemia, contando com Carnaval, Expoacre, Réveillon, shows e baladas eletrônicas. Juntando o montante que foi perdido por cada empresário local da noite, a Abrace calcula mais de R$ 100 milhões que poderiam ter sido movimentados e distribuídos entre o setor não foi a crise sanitária.

“Só de Imposto Sobre Circulação de Mercadoria e Serviços (ICMS), o estado deixou de arrecadar cerca de R$ 30 milhões do setor de serviços de uma forma geral”, destaca o empresário Leôncio Castro, ressaltando que o setor de serviços e bebidas alcoólicas representa R$ 35 milhões de arrecadação de ICMS ao Acre.

Retomada delicada

Mesmo que esteja sendo um momento de alívio para boa parte dos empreendimentos locais, o retorno das atividades não ocorre com muita facilidade. “O que aconteceu para o nosso segmento foi muito difícil, está sendo difícil. Mesmo sendo o segmento que melhor responde à geração de empregos, uma vez que nosso setor tem resposta rápida, fomos muitos perseguidos, de certa forma até marginalizados”, diz Castro.

O empresário conta que chegou a chorar em alguns momentos por não poder fazer nada diante do problema. “Me sentia de mãos atadas, foi quando nos reunimos e fundamos a Abrace. Hoje, graças a Deus, as coisas estão mudando. O poder público começou a nos ouvir, pois nosso setor é gigantesco e estamos unidos, nós sentimos a necessidade dessa união porque era inadmissível a forma como um segmento do tamanho do nosso estava sendo tratado”.

Borges relembra que em sua empresa cada um passou a tentar sobreviver da sua maneira, inclusive tendo êxito. “Um amigo que trabalhava em eventos comigo ficou sem trabalho e teve a ideia de montar uma doceria na pandemia. O negócio dele se tornou muito bem sucedido e a doceria foi um sucesso”. Porém, havia outras pessoas que só tinham espaço de trabalho à noite, como seguranças, recepcionistas, baristas, garçons, cozinheiros e ajudantes de limpeza.

“A rede de empregos gira em torno de muita gente, desde as que vendem cachorro-quente [na entrada dos shows], bombons, muitas não tiveram saída e passaram necessidades. No início a gente achou que essa pandemia não duraria muito tempo. Ajudei algumas pessoas durante muito tempo, ajudei da forma que eu pude, mas foram quase dois anos muito difíceis”, argumenta.

Um evento de grande porte realizado em Rio Branco, por exemplo, mobiliza entre 120 a 150 funcionários. Por conta da pandemia, todas elas ficaram desempregadas. “Funcionários diretos mesmo, tenho poucos, mas indiretos, que trabalham nesses grandes eventos, tenho muitos, e a maioria ficou sem trabalho pelo fato de estarmos podendo atuar naquele momento”, reforça André.

Bernardo lembra que não fosse a luta dos empresários pelo retorno das atividades, não seria possível o setor de eventos estar funcionando neste momento. “Nós queremos ser vistos com carinho por parte do poder público, somos trabalhadores e empresários da noite, e empregamos muita gente, desde a pessoa que vende o bombom na festa, até os seguranças”.

Membro e ícone da vida noturna acreana

O fotógrafo e colunista social James Pequeno é um ícone da vida noturna acreana. Sempre presente nos mais variados eventos, é figurinha carimbada quando o assunto é festa. Assim como os demais profissionais da noite, ele também teve a sua impactada negativamente com o advento do coronavírus. “Perdi inúmeros trabalhos, pois fazia todos os eventos e shows, tinha todo final de semana um extra para fazer”, comenta.

Pequeno viu muita gente ter de se reinventar para conseguir manter o sustento de casa. “Foi difícil. Quem tinha suas economias, se deu bem de certa forma. Mas outras pessoas, se não fosse o auxílio emergencial, estavam passando fome. Tivemos que nos reinventar”, relata. Para ele, a retomada dos shows, por exemplo, representa emprego: “muita gente depende disso. São os vendedores de ingressos, os ambulantes, empresas de segurança e comércio em geral”.

Conhecedor profundo do trabalho nas noites de Rio Branco, James se sente mais aliviado após o pico da pandemia ter passado. “Agora posso voltar a pagar minhas contas que ficaram paradas na pandemia. Era um ganho que, de certa forma, me mantinha. Aí depois foi só com o auxílio e divulgações na internet”.

Nesse momento, o fotógrafo afirma não pensar mais no futuro. “Para mim, o futuro é sempre o presente, vivo a cada dia como se fosse o último, a cada dia podemos esperar surpresas. Mas com a população se vacinando e tendo os cuidados, creio que a vida vai melhorar e vamos viver mais”.

Celebrar com trabalho

Passado o pior momento desde a chegada do coronavírus ao Acre, os empresários só pensam em poder trabalhar ainda mais, gerar emprego e renda. “Passamos quase dois anos sem fazer o que a gente mais gosta, que é levar diversão e felicidade para as pessoas. Me sinto realizado, podendo trabalhar e fazer o que eu gosto. Espero que todos tenham saúde e que daqui para frente essa doença acabe de vez e que todos possam trabalhar”, diz Borges.

Franklin ressalta o fato de poder pagar os colaboradores. “Tem muitas famílias que dependem da gente. Até conseguirem aprovar o decreto de retomada das atividades, ficamos um ano e seis meses sem fazer nada. A flexibilização com a vacinação é o que a gente precisava para retomar os eventos”. As festas produzidas pela Tribe Beat estão cobrando a imunização dos participantes contra os efeitos da Covid-19 e o organizador se diz ciente dos critérios da flexibilização das regras sanitárias. “No meu grupo, quem não se vacina, não entra nos nossos eventos, a gente deixa isso bem claro a todos e esperamos que daqui para frente possamos ser olhados com mais carinho e que as pessoas  valorizem um pouco mais o nosso trabalho”.

A Tribe foi, inclusive, a primeira a realizar eventos após a flexibilização da saúde. “Fomos até criticados por alguns, mas a situação estava insustentável. Existem pessoas que dependem da gente, uma cadeia de emprego que gira em torno de nós e nos sentimos responsáveis, de certa forma, por isso”, cita Bernardo, que só almeja poder trabalhar em segurança a partir de agora.

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