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A Rainha do Tijolo do Juruá

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Foto: Felício Muniz

A empresária Janaína Verbena Gonçalves Terças, 43 anos, representa a terceira geração do ramo de cerâmica em Cruzeiro do Sul. O avô, o português Manoel Terças, começou o negócio na década de 30 do século passado. O pai, Joaquim, montou a própria olaria em 1985, empreendimento que foi assumido, reformulado, ampliado e modernizado por Janaína, que em 2013, inaugurou uma nova empresa, em outro local, com produção automatizada.

Edificações relevantes para Cruzeiro do Sul, como a Catedral Nossa Senhora da Glória, o 61° Batalhão de Infantaria e Selva, Maternidades, Hospitais do Juruá e de Campanha, Aeroporto e Quartel da Polícia Militar, têm a marca das três gerações de produtos da família Terças.

No Centro, a olaria já estava rodeada de casas e não tinha espaço para expansão, produzia muita fumaça e o barro do local não era adequado para a fabricação de tijolos. Ela e os pais, que, são separados, mas trabalharam juntos, seguiram para o novo endereço na Estrada da Boca da Alemanha em uma área de 32 hectares. No centro só ficou um escritório de vendas.

Ela cita que a decisão de ficar à frente da gestão da empresa foi tomada em conjunto com os pais e irmãos e que segue combinando tudo com o pai, que é um profundo conhecedor do setor cerâmico. Os funcionários também a apoiam na gestão, sendo que 70 por cento dos 30 funcionários estão com a família desde o início da cerâmica na década de 80.

A fabricação arcaica e manual de tijolos foi substituída por uma nova forma, com o uso da tecnologia. O salto qualitativo fez toda a diferença para a empresa, que se mantém entre as três grandes indústrias do ramo na região.

Janaína e os irmãos trabalham com o pai desde a adolescência e a experiência adquirida, além da criação liberal, que sempre teve, foram fundamentais para que ela liderasse o negócio com sucesso. Ela é a rainha do tijolo do Vale do Juruá.

“CRESCI NO BARRO COM MUITO ORGULHO”

O fato do pai, Joaquim Terças, tê-la levado desde pequena para o barreiro da olaria, ter ensinado sobre a liga do barro, dirigir máquinas pesadas e dizer que ela pode fazer qualquer coisa, fez toda a diferença na vida da empresária que agora comanda os negócios da família. Ela conhece cada etapa da confecção dos tijolos da Cerâmica Terças, em Cruzeiro do Sul. Conhece o produto que vende quando ainda é só barro no chão, a passagem pelo forno, a queima, até virar paredes de casas, prédios e ruas da cidade e nas outras 4 cidades do Vale do Juruá.

“Eu cresci no barro, gosto do barro, da cor do barro, da forma como ele se transforma. Não me imagino em outro negócio. Esse é meu ramo. O suor de todos da Cerâmica Terças, há 3 gerações está em muitas casas, ruas e muitos prédios públicos de Cruzeiro do Sul”, afirma a empresária, que deixou de lado o modo arcaico de fazer tijolos, modernizou todo o processo de confecção que era lento, pesado, com muito custo e automatizou a indústria. Com o uso da tecnologia, impulsionou os negócios e o que produzia de tijolos em um mês agora consegue em uma semana.

Foto: Felício Muniz

A dedicação aos negócios é total. Janaína, o pai e a mãe, Dona Graça, passam o dia na olaria. Chegam ao local às 7 horas da manhã, almoçam e só saem às 17 horas. Ela tem um quarto no local, onde descansa com a mãe cerca de uma hora depois do almoço. Só depois que o neto Joaquim nasceu, parou de trabalhar aos sábados para ficar com o bebê, que mora na casa dela.

“Sou a terceira geração da empresa, então tinha que melhorar tudo. Meu avô assumiu a olaria do tio Manoel Pedreira no começo do século passado. Em 1985, meu pai abriu a própria olaria. Em 2010 voltei para o Acre e vi que a empresa estava atrasada, estava instalada no lugar errado e então resolvemos mudar de local, onde o solo é adequado. Saímos do centro de Cruzeiro do Sul para a estrada da Boca da Alemanha, em uma área de 32 hectares. Como eu e meu irmão tinha viajado e conhecido outras empresas, resolvemos modernizar tudo. Nosso processo era arcaico. Era a maromba funcionando, os trabalhadores pegando com a mão e correndo com carrinho de mão, subindo e descendo pequenas vielas feitas de tábua e arrumando os tijolos nas prateleiras. A produção era pequena com custo elevado. De 2010 a 2013, trabalhamos o projeto dessa nova cerâmica, os licenciamentos, maquinários novos. Hoje nosso processo é todo automatizado, a máquina faz tudo: produz os tijolos, coloca nas vagonetas seguindo pra a secagem e, em seguida, os tijolos são cozidos. A tecnologia diminuiu a mão de obra e aumentou a produção e o que a gente produzia em um mês, agora produzo em uma semana”, relata.

Uma das grandes preocupações de Verbena é a manutenção do padrão de qualidade do produto fornecido pela família há 3 gerações. Cumpre rigorosamente a legislação vigente e atende às exigências das esferas municipal, estadual e federal. “A legislação é pesada e demanda tempo, dinheiro e mão de obra especializada. Temos que ter engenheiro de minas, ambiental e geólogo. Tentamos trabalhar de acordo com a legislação vigente”.

FAMÍLIA TERÇAS FAZ PARTE DA HISTÓRIA DE CRUZEIRO DO SUL

A história da família Terças se mistura com a de Cruzeiro do Sul e demais municípios do Vale do Juruá. São mais de sete décadas, produzindo os tijolos que construíram as casas, os prédios públicos antigos e os modernos, além das ruas do município.

Na década de 30, o português Manoel Terças, comprou do tio, Manoel Pedreira, a primeira olaria da região e deu continuidade ao negócio, que Joaquim Terças fez crescer e Janaína automatizou.

O desenvolvimento da empresa acompanhou o crescimento da região e as telhas, tijolos e outros itens da família Terças estão presentes nos primeiros prédios de alvenaria de cruzeiro do Sul, como o antigo fórum, a associação comercial e a edificação símbolo do município, que é a catedral Nossa Senhora da Glória, a padroeira da cidade, que começou a ser feita em 1957, pelos padres alemães e foi inaugurada em 1965. A primeira catedral foi construída em madeira, porém, por não oferecer segurança aos fiéis acabou em desuso.

Além da catedral, Manoel Terças forneceu itens de material de construção também para outros prédios da cidade como a associação comercial, fórum, correios, mercado central (atual Mercado Joãozinho Melo), 7° BEC (atual 61 BIS).

Foto: Felício Muniz

Edificações mais recentes, mas não menos importantes, também levam a marca Terças, já na gestão do pai Joaquim e de Janaína, como o antigo e o novo aeroporto de Cruzeiro do Sul, o antigo Hospital Geral, onde funciona agora a maternidade e Hospital da Criança, Hospital do Juruá, Hospital de Campanha, Abrigo do Menor, Quartel da Polícia Militar, antigo quartel da Polícia Militar, onde funciona atualmente o Hemonúcleo.

“Dá orgulho ver os tijolos feitos pelo meu avô, meu pai e, agora, por mim. Tenho um enorme prazer em ver o início de uma obra e depois passar e ver pronto um lugar que vai abrigar uma família ou um local público. Nossa marca está em muitos locais daqui”.

Ela gosta do tradicional. Mora na casa feita pelo avó Manoel Terças na década de 40, com os tijolos produzidos por ele e, onde o pai Joaquim nasceu. Vive desde os 6 anos de idade no mesmo local. As paredes originais têm quase meio metro de espessura. “Meu filho e meu neto também moram aqui e espero que outras gerações da família Terças ocupem essa residência tão cheia de histórias”.

O avô de Janaina, o português Manoel Terças, chegou ao Brasil de navio no início do século passado, aportando em Manaus, no Amazonas. Em seguida chegou à Cruzeiro do Sul onde se dedicou a outros ramos de negócios, como a comercialização do látex e de alimentos. Mas, logo descobriu a cerâmica e passou a fazer telhas e tijolos, sendo o pioneiro do setor cerâmico na região. O filho Joaquim Terças, nasceu em Cruzeiro do Sul e ainda jovem seguiu para São Luís do Maranhão, onde casou e Janaína nasceu.

Quando os negócios cresceram, o português Manoel mandou buscar Joaquim e a família no Nordeste. Janaína chegou ao Acre aos 6 anos e o senhor Joaquim Terças fundou a própria olaria e ampliou os itens ofertados. Ele levava os filhos Janaina e Júnior para a olaria e lá mostrava o barro adequado para os tijolos e demais etapas da feitura do produto além de ensiná-los a dirigir máquinas e tratores.

O avô fazia telha de barro, tijolo e telhas. O pai fazia telha de barro, tijolos, lajotas e cobogós. Ela optou em focar apenas nos tijolos de 6 e 8 furos, por serem os produtos com maior demanda do mercado local. Atualmente a Cerâmica Terças tem lista de espera para entregar tijolos, tamanha é a procura pelo produto. A espera que já chegou a 2 meses agora é de, no máximo, 2 semanas. “Meu objetivo é dobrar a produção e não ter mais lista de espera por tijolos”.

A AVÓ QUE GOSTA DE ATIRAR

Verbena é exuberante e vaidosa, mas não se importa com o salto do sapato sujo do barro da olaria. A empresária é assistente social, formada pela UNOPAR, e cursa Direito na Universidade Federal do Acre. “Quero entender sobre as leis para usar esse conhecimento para várias áreas da minha vida, como nos negócios. Meu setor de negócios tem fiscalização do Inmetro e de órgãos municipais, estaduais, federais e conhecimento é poder”, diz.

Foto: Felício Muniz

Ela tem dois filhos (Yuri e Elisa), é casada com advogado Frederico Filipe e agora também é avó. O neto Joaquim Terças (nome em homenagem ao pai), de 9 meses, que mora com ela é o grande xodó da família. Por causa dele não trabalha mais aos sábados. “Ser avó é a maior experiência da vida. É como filho sem as obrigações (risos), sem ter que amamentar. Nem trabalho mais aos sábados para poder me dedicar a ele e são horas preciosas”.

E a mulher corajosa para os negócios e na vida pessoal, tem como passatempos, o tiro esportivo. Para desestressar, nas horas de folga, prática tiro e é filiada ao Clube Estadual de Tiro e à Federação Nacional de Tiro. Com mira perfeita, acerta uma laranja com uma arma calibre 12 de uma distância de 25 metros. Diz que cresceu em uma casa com armas, já que antes não havia proibição neste sentido. “Eu fui criada em casa com armas e nunca houve problema com isso. Eu gosto de atirar porque tira meu estresse. Além disso, apuro minha mira não só na hora do tiro, mas também em vários aspectos da minha vida e, principalmente, nos negócios. Recomendo para todos e, principalmente, para as mulheres”.

CRESCIMENTO

Janaina quer dobrar a quantidade de tijolos produzidos pela Cerâmica Terças. Não esquece a crise econômica de 2014, quando o setor se retraiu e, para dar o salto qualitativo na indústria da família, com o uso da tecnologia, tiveram que vender imóveis.

Agora está animada porque nos últimos 2 anos, o ramo da olaria tem se mantido em crescimento das obras públicas e particulares, aumentando assim a demanda. Ressalta que essa alta alavanca os negócios nas madeireiras, lojas de material de construção e amplia as vagas de emprego na área da construção civil.

Foto: Felício Muniz

Cita a venda de tijolo como resultado do aquecimento da construção como reflexo do crescimento da economia do Brasil. “A economia está com crescimento de 3 a 5 por cento ao ano e, otimista, acredito nesse crescimento. Estamos aguardando com cautela a continuidade desse ritmo para investir, crescer e expandir. Nos próximos 10 anos quero dobrar minha produção e acredito que todos do setor cerâmico vamos crescer. Não creio no surgimento de novas cerâmicas, mas acredito que as que já existem vão se expandir”.

O filho mais velho da industriaria, Iury estuda medicina, mas desde que ele era pequeno também o levava para a cerâmica e pretende fazer o mesmo com o neto Joaquim. Quer que o negócio que está na família há 3 gerações, tenha continuidade. “Do jeito que meu avô ensinou pro meu pai, ele ensinou para mim, já dei dicas pro meu filho, minha filha Elisa e meu neto Joaquim vão conhecer o barro da olaria”.

FIEAC

Desde maio de 2019, a convite do presidente José Adriano, Janaína Terças é a representante na Federação das Indústrias do Acre — FIEAC, no Vale do Juruá, função que lhe oportunizou a busca pelo desenvolvimento do setor industrial como um todo. Empenha-se na busca de qualificação para os industriais e industriários, mediação e interlocução do setor com o poder público. Ressalta como avanço, a recente legalização ambiental e documental de mais de 40 empreendimentos do Polo Moveleiro de Cruzeiro do Sul.

Conta orgulhosa sobre a organização, representatividade das indústrias, como malharia, areal, moveleiro, madeireiro, e mediação juntos aos órgãos públicos para as soluções de demandas. Destaca que o projeto da FIEAC, em parceria com o governo, de pequenas obras para os municípios resulta no aquecimento da economia. “O grande objetivo é a manutenção de empregos e a geração de renda. Essa terra ter marcas do meu avô e do meu pai. Meu pai, filho e meu neto nasceram aqui e quero que essa região cresça e siga em desenvolvimento. Espero ter contribuído com o desenvolvimento da cidade. Neste momento se faz necessário deixar de lado minhas necessidades pessoais, em prol do coletivo, para assim dar a minha contribuição na melhoria da realidade econômica da minha terra”, conclui Janaína Verbena.

Extra Total

Transporte coletivo luta contra declínio e mantém empregos após perder passageiros e dinheiro na pandemia

Empresas de ônibus perderam quase R$ 4 milhões por mês circulando sem demitir funcionários e sem demanda

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O sistema de transporte público coletivo em qualquer capital do Brasil é sempre pauta de intensos debates. Séculos se passaram desde que o modelo foi implementado e até os dias atuais há discussão de como se pode melhorar e agregar maior número de passageiros satisfeitos. Na capital do Acre, o sistema vem passando por uma remodelagem a fim de aprimorar os serviços oferecidos à população. No entanto, ainda lida com os prejuízos acarretados pela devastadora pandemia do novo coronavírus. As empresas que atuam em Rio Branco, São Judas Tadeu e Via Verde, tentam contornar a perda de 83% dos passageiros e cerca de R$ 40 milhões.

Assim como demais setores da economia a nível mundial, o transporte coletivo também sofreu impactos negativos com a suspensão da maior parte das atividades comerciais devido ao alastre da Covid-19. Porém, com uma diferença: enquanto outras empresas puderam se adaptar a novas ferramentas de vendas (delivery;e-commerce), o transporte público era praticamente obrigado a manter veículos na rua, mesmo sem passageiros suficientes, no auge da pandemia.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

A expectativa para os próximos meses em Rio Branco é de progresso entre os trabalhadores e o Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo do Estado do Acre (Sindcol-AC), mesmo após a crise sanitária ter provocado uma verdadeira avalanche de problemas ao sistema, que já se encontrava numa situação instável em meio à troca de gestão no município e falta de entendimento entre prefeitura, empresas e Câmara de Vereadores.

Os meses de abril e maio de 2020 foram os piores dos últimos anos para o transporte público local. O sistema perdeu quase dois milhões de passageiros num único mês no pico da pandemia. As empresas da capital acreana chegaram a perder em média quase R$ 4 milhões por mês por causa da pandemia. “Só de 2020 a 2021 houve queda de 66% de passageiros nos ônibus. Mas acreditamos que os coletivos podem recuperar esse passageiro, bem como a receita nesse período pós-pandemia. Com as aulas retornando e a cidade se movimentando novamente, a tendência é o passageiro voltar”, explica o presidente do Sindcol no Acre, Aluízio Abade.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

As empresas de transporte coletivo alegam que passaram a lidar com um cenário complicado desde o final de 2019, quando passou a ser permitido o funcionamento do táxi compartilhado, também conhecido como táxi-lotação em Rio Branco. “Com isso, houve queda de passageiros usuários do sistema. Não houve a fiscalização determinada pela justiça, não tivemos tempo de nos adequar ao táxi compartilhado e à demanda que foi subtraída do sistema. Em seguida veio a pandemia, que desorganizou toda a nossa estrutura financeira”, lamenta Abade.

Os transportes coletivos saíram de um faturamento de quase R$ 6 milhões mensais e caíram para um rendimento de R$ 1,5 milhão até este mês de setembro. Aluízio destaca que na pandemia o comércio em geral fechou, deixando de gerar custo de energia elétrica, de pagamento de funcionários e muitos outros aos comerciantes. “Já nós, não. Nós não paramos na pandemia, rodamos todos os meses com custo de óleo diesel, de mão-de-obra, de garagem etc, tudo isso sem transportar passageiro”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

E foi justamente esse fator que ocasionou quase que uma decadência total do transporte coletivo, pois acabou tirando a capacidade de investimento que essas empresas de ônibus poderiam possuir. “Aí veio atraso de folha de pagamento, de manutenção de veículo. E o poder público constantemente fiscalizando e vendo que realmente não estamos ainda com demanda. Isso desencadeou nessa desorganização financeira do sistema”, salienta o presidente do Sindcol.

Abade ressalta que todo o sistema de transporte público, quando este não consegue cobrir sua própria despesa por determinado motivo, o município tem por obrigação (constante em contrato) entrar com subsídio, um apoio monetário concedido por uma entidade a outra entidade, no sentido de fomentar o desenvolvimento de uma atividade ou o desenvolvimento da própria. “E infelizmente nós não tivemos nenhum tipo de ajuda, conforme confirma relatório oficial recebido pela prefeitura”.

Impasse na prefeitura

Segundo os empresários, após a troca de gestão municipal, o prefeito Tião Bocalom (Progressistas) demorou a entender como de fato funciona o transporte coletivo, acumulando uma série de imprevistos ao sistema. “Juntou tudo isso. Percebemos essa dificuldade porque até o novo governo se adaptar, demorou. Normalmente, acham que nós somos bicho papão. E não existe isso no transporte. Passamos quase um ano tentando fazer a prefeitura entender o que é o transporte público”, diz Aluízio, afirmando que em dezembro de 2020 haveria o aporte de mais de R$ 2 milhões, que foi barrado pelos vereadores na Câmara.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O município ainda tenta fazer o mesmo aporte, que de acordo com as empresas, trata-se de uma antecipação de receita. “O que o prefeito está propondo é a desoneração de tarifa para a gente tentar buscar o passageiro. Ele incentiva o passageiro a andar de ônibus, incentiva o comércio e empresários a contratar funcionários que não só moram próximos de seus locais de trabalho, mas de outros bairros, fazendo com que haja circulação na cidade”, garante o Sindcol.

Abade assegura que o repasse dos R$ 2,5 milhões pode fazer com que o transporte público melhore, a prefeitura receba receita e que o cidadão pague mais barato na tarifa de ônibus. “Vai gerar emprego e receita. E ainda podemos agregar passageiro no coletivo, conservar uma mesma quilometragem, aumentando o número de usuários”.

O trabalho vem sendo realizado para que não haja uma queda do sistema como a que ocorreu em Rondônia, que passou por um sistema bastante deficitário com o advento do táxi compartilhado, que tomou o mercado de passageiros. “Nesse caso, a frota foi muito reduzida. Ultimamente a prefeitura de Porto Velho fez uma nova licitação para tentar recuperar o sistema. Então a cidade está rodando com 40 ônibus. Aqui em Rio Branco vai rodar a partir do mês que vem com 100 ônibus”.

Cabo de guerra na Câmara Municipal

O Sindcol acredita que a atitude de alguns vereadores da capital em não querer permitir o aporte às empresas não compromete a São Judas Tadeu ou Via Verde, mas unicamente um benefício da sociedade. “Só dificulta para os usuários do transporte coletivo, porque a tarifa está sendo reduzida e eles [vereadores] querem votar contra. É meio complicado. Não sabemos a forma com que o prefeito vai conduzir isso, mas o certo é que a Câmara aprovasse esse projeto em prol do usuário”.

Na comparação de arrecadação entre 2019 e 2020 é possível observar uma queda brusca nos números, tanto de receita quanto de usuários. “Nós conseguimos usar os planos do governo federal, o Benefício Emergencial, onde as empresas pagavam 30% do salário dos funcionários e o governo 70%. Como reduziu carro na rua, a gente reduziu a quantidade de pessoas. Uma equipe trabalhava 10 dias, depois outra mais 10 e outra também 10 dias, mas não mandamos ninguém embora. A frota só ficou reduzida”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O “X” da questão atualmente se resume às despesas que as empresas estão tendo que manter sem obter receita para tal. “Se você pega a despesa de diesel e a receita, não cobre. Você sai de uma receita de R$ 5 milhões em novembro de 2019 e entra numa receita de R$ 1,8 milhão, fica insustentável perder R$ 3 milhões do dia para noite e a despesa continuar a mesma. Dessa forma, o sistema fica em decadência”.

Transporte clandestino

O sistema espera que a prefeitura de Rio Branco passe a atuar com uma fiscalização mais séria em cima do transporte clandestino e tente ajustar, colocar regras no modelo de táxi compartilhado, para que não interfiram no sistema coletivo dos ônibus. Abade acredita que deve-se criar uma modalidade para o táxi compartilhado ou lotação. “Que não seja como transporte público, mas transporte de táxi. Que haja espaço para todo mundo”.

Para o Sindcol, não há justificativa para o táxi sair do ponto final junto com o ônibus, uma vez que o coletivo carrega uma demanda maior, teoricamente mais baixa da classe, e o táxi passe nos pontos atraindo passageiros pagantes e deixando o passageiro do vale transporte no ônibus. “Isso quebra completamente o sistema. Acho que a prefeitura tem que achar um caminho sim para o táxi compartilhado, que já foi bastante agredido pelo sistema do Uber, mas que tenha regras diferentes do ônibus e não seja um concorrente do transporte coletivo”, declara Aluízio.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O transporte coletivo torce para que a volta às aulas, no próximo mês de outubro, e o provável aumento da demanda, consiga voltar com a frota total e atender a população e continuar com os funcionários que não foram dispensados. “O nosso compromisso com o sindicato era não demitir na pandemia, garantir o trabalho de todos, porém nós carregamos um custo alto de folha de pagamento que tem que ser resolvido com urgência. Acho que o poder público deveria estar caminhando nessa forma que está, com desoneração de tarifa, e que a Câmara aprove esse projeto do repasse para que isso possa ocorrer”, diz o presidente do Sindcol.

O aporte financeiro será usado pelas empresas para pagar os salários dos trabalhadores do transporte coletivo e reduzir a tarifa de ônibus em 50 centavos. O superintendente de Transportes e Trânsito de Rio Branco, Anízio Alcântara, afirmou recentemente que a prefeitura busca puxar para si o pagamento das gratuidades (pessoas que usam o transporte público sem pagar) para que se possa reduzir a passagem de ônibus.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O Conselho Tarifário de Rio Branco já aprovou por unanimidade a redução no preço da passagem de ônibus de R$ 4 para R$ 3,50, após entender que a desoneração favorece os usuários do transporte coletivo da capital acreana. A ideia agora, segundo o Sindcol, é focar em tentar baixar ainda mais a tarifa que já ganhou uma redução. “Vamos trabalhar com a desoneração dos estudantes também. Talvez o estado e o município, assumindo o subsídios dos estudantes, essa tarifa pode chegar a 3 reais”, garante Abade.

A RBTrans afirma que a redução pode representar um grande avanço. “Reduzindo a gratuidade, reduz a tarifa do usuário. Isso é só o primeiro passo de uma grande luta e sequência de trabalho que vai ter continuidade até ter valores menores para população e com a qualidade de serviço diferente do que está hoje. Não se pretende baixar a tarifa e continuar como está nos coletivos. As duas coisas estão caminhando”, assegura.

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Gente - Economia e Negócios

Made In Acre: camiseta para viagem deu vida à marca que chegou a artistas internacionais

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Um empreendimento que além de levar o nome do Acre ainda proporciona uma verdadeira viagem pela cultura acreana. Na loja, o cliente pode deitar numa rede, comprar e comer castanhas e até beber água direto do filtro de barro com um nostálgico copo de alumínio. Assim é a Made In Acre, que em menos de dois anos consolidou seu espaço no mercado atingindo artistas de renome internacional.

A loja iniciou sua atividade em dezembro de 2019, vendendo apenas camisetas com a frase que deu nome à empresa. Hoje já disponibiliza 16 tipos de produtos. A visão empreendedora veio da publicitária Rayssa Alves e da empresária Juliana Pejon. Rayssa é uma acreana de 30 anos e Juliana veio de São Paulo há mais de 20 anos, se diz acreana de coração junto de sua família, que tem tradição no ramo empresarial do estado.

A Made In Acre conseguiu unir a modernidade com o rústico num ambiente milimetricamente pensado para ser o que é hoje, muito mais que uma simples loja de vestuário. Além de vender camisetas, chinelos, bonés, ela busca resgatar a história do único estado que, literalmente, lutou para ser brasileiro.

Tudo começou numa viagem de carnaval ocorrida há dois anos, quando um grupo de oito amigas, entre elas Rayssa e Juliana, decidiu curtir a festa em Recife (PE). A dupla teve a ideia de fazer uma camiseta para identificar o grupo no aeroporto e durante todo o carnaval. “Na camisa estava escrito ‘Made in Acre’, só que não do jeito que é hoje, e sim com outro layout. Era o bloquinho das amigas do Acre”, contam.

Elas nem imaginavam que essa simples atitude faria tanto sucesso, a ponto de se tornar uma fonte de renda. “Todo mundo gostou, tanto as pessoas de lá [Recife] quanto os moradores daqui [Acre]. Isso porque nosso estado ainda é um evento lá fora, um assunto. As pessoas, quando nos viam, falavam: vocês são do Acre? O Acre existe? A gente postou foto com a camiseta e começaram a perguntar onde tínhamos feito”.

Transformando o acaso em negócio

Era madrugada quando Rayssa e Juliana estavam saindo de uma das festas de carnaval, sentadas numa calçada a espera do Uber, no momento em que perceberam estar diante da possibilidade de transformar o acaso em um negócio. “A gente estava conversando sobre isso, sobre as camisetas, quando eu disse: amiga, não acha que ao invés de a gente falar como que a gente fez [a camiseta], a gente fazer e vender isso?”, questionou Rayssa.

Juliana prontamente respondeu: “caramba amiga, que legal. É isso”. Ela já tinha todo o conhecimento sobre loja, sobre como lidar com empresa, uma vez que já atuava com roupas e sua família também já possuiu indústria têxtil fora do Acre. “Pensamos o seguinte: Juliana entrava com essa parte da administração e eu, que sou formada em publicidade, conheço de marketing, entrava com a criatividade, a parte de criação, design e tudo mais”.

A ideia ornou perfeitamente, mas até então mirava somente a comercialização de camisetas. No entanto, as amigas começaram a perceber que a Made In Acre não seria algo pequeno. “A marca se transformou. Hoje a gente fala que a Made In Acre é um sentimento dos acreanos, onde a gente consegue materializar nos produtos algo mais profundo. Começamos a ver como os acreanos estavam carentes de algo que representasse a gente do Acre, o valor, que resgatasse a nossa história, que tivesse essa vida”.

Do surgimento da ideia (fevereiro de 2019) até a concretização do projeto (dezembro de 2019), passaram-se 10 meses. Entretanto, veio a pandemia do novo coronavírus, que impactou o percurso natural da empresa. “Isso foi uma preocupação para nós, assim como para todos os empresários, mas especialmente porque estávamos começando”. Contudo, as empreendedoras observaram que, como as pessoas estavam ficando mais em casa, ou não podiam vir ao estado por causa da Covid-19, a loja poderia se tornar uma referência para presentear.

“Tinha gente que morava fora, mas que estava aqui, assim como tinham pessoas daqui que estavam fora e com isso começamos a receber muitos pedidos para enviar nossas camisetas para fora do estado. A gente cresceu muito nesse período, aliado aos nossos conteúdos que passamos a publicar nas redes sociais da marca. Isso fez as pessoas se aproximarem mais, que elas interagissem, principalmente com a série ‘Minutos da Nossa História’, que era postada no Instagram”.

Na pandemia, as proprietárias colocaram para funcionar as entregas por meio do delivery. O sistema agradou tanto a clientela que permanece até hoje. “Pegou muito bem e continuamos com ele porque deu certo. As pessoas ainda falam para a gente que a loja vem resgatando o amor pelo estado, pela curiosidade sobre a história do Acre e muito mais e as entregas facilitam isso”.

Junção do moderno com o tradicional

Rayssa e Juliana fazem questão de mostrar que a Made In Acre não é só para venda de produtos de cunho regional, mas que se diferencia daquilo que é comercializado em outros estabelecimentos, como os do Mercado Velho, por exemplo. “A gente une a modernidade com a nossa história e o nosso intuito era mostrar para as pessoas que isso era possível”.

Para elas, o público só pensava no Acre lembrando elementos regionais, com características da Amazônia, mas que o estado não é só isso. “Outro pensamento era de que nossos produtos não teriam tanta qualidade quanto os de fora. E começamos a bater nesse ponto, de que podemos ter, sim, coisas de valor. Infelizmente não conseguimos com que nossa produção seja 100% acreana ainda por falta de estrutura local, falta de fábricas, mas o que a gente consegue fazer aqui, a gente faz”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

Entre os 16 produtos vendidos com a marca Made In Acre, estão: camisetas, bonés, chinelo, garrafas, pochetes, mochilas, máscaras, lenço para pet, body infantil e o diferencial, os acessórios indígenas, que podem compor o look ou a decoração de casa. “Dessa forma as pessoas veem que esses objetos podem ser modernos, que podem ser usados no dia a dia. Eu e Juliana usamos diariamente para as pessoas verem também como são peças versáteis”.

O espaço físico da loja valoriza aquilo que representa o estado, os costumes e as peculiaridades do acreano. “As pessoas percebem isso e falam que é a nossa cara. Conseguimos colocar o conceito na loja. A gente também disponibiliza livros para os clientes lerem aqui, livros que são doados, falando sobre a história do Acre. Eles podem simplesmente sentar na rede e ler. Apesar de termos herdado a rede do povo nordestino, faz parte da nossa história”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

Rota do turismo e referência

Antes de se voltar especificamente para as vendas, Rayssa e Juliana se preocupam com a experiência vivida pelos turistas e clientes acreanos dentro da Made In Acre. “Quando chegam aqui a gente conversa, pergunta de onde é, se conhece tal coisa, a gente sempre leva informação, conteúdo para a pessoa saber que nossa intenção não é só ela vir aqui e comprar. A gente não faz isso, a gente não quer que a pessoa tenha essa sensação de entrar, comprar e ir embora. A quer troca, conversa”.

Se o cliente não morar no Acre, ele recebe instruções, dicas, orientações de onde ir e o que fazer pelo estado no período de sua estadia. “Em meio tudo isso, a gente vai fazendo nosso trabalho. Estamos começando a receber muitos turistas. A gente percebe o quanto o Acre está aberto e como está aumentando a vinda de pessoas de fora, que chegam só para conhecer o estado, para ir ao Crôa, na Serra do Divisor, nas aldeias, o ecoturismo está muito valorizado”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

As donas da marca ainda pretendem expandir o negócio e tornar a loja algo muito maior do que se encontra atualmente. Sem entrar em detalhes, as proprietárias têm planos de construir filiais em outras cidades, já que a necessidade de aumentar o espaço já é sentida. “Temos sonhos grandes para daqui dois anos, aproximadamente”.

O encontro com o astro Alok

O envolvimento, mesmo que indireto, entre o Dj Alok, internacionalmente conhecido, e as camisetas da Made In Acre deu ainda mais força ao processo de divulgação que a marca já vinha trabalhando. O produtor musical brasileiro está fazendo um projeto com os indígenas do Brasil e vem tendo contato com alguns indígenas, um deles Mapu Huni Kuin, do Acre. “Ele também é um amigo nosso [Rayssa e Juliana]. Mapu falou que foi convidado para fazer essa gravação e a gente falou para ele levar um presente. Mandamos camisetas para a família toda em junho desse ano”.

A dupla credita que teve sorte porque Mapu criou uma amizade sincera com Alok. “Eles tiveram uma conexão muito grande durante a gravação, então quando o Mapu entregou o presente para ele, que eram as camisas, tinha muito mais sentido. Não era uma marca, não foi a Made In Acre que mandou para o Alok, foi o Mapu, um amigo que entregou o presente, ou seja, mais significado, mais sentimento”.

Elas agradecem por terem tido a oportunidade de fazer parte desse momento. “Tudo fez muito sentido, as camisas, com tudo que ele estava fazendo em prol dos indígenas. Ele se familiarizou com isso e sentiu no coração de fazer aquelas postagens”, relatam sobre a publicação que o ícone da música eletrônica fez mencionando a loja em seu Instagram. “A gente não pediu e nem imaginávamos que isso iria acontecer. Quando a gente viu a postagem, a gente não acreditava, porque ele marcou. Tem noção do quanto deve valer um @, uma menção do Alok?”, brincam.

A loja também conseguiu atrair mais seguidores de várias partes do país e do mundo depois desse episódio. “As pessoas sempre chegam aqui e comentam esse fato. O discurso dele em Brasília, usando outra camisa nossa, também foi muito especial. Essa a gente mandou antes de lançar e tocou muito ele”. O Dj é conhecido por usar as peças em seu dia a dia dele. “Quando vimos que ele usou naquela situação, a gente falou: ele entendeu, fez todo o sentido. E é isso mesmo que a Made In Acre quer, mesmo que não tenhamos o contato direto com ele, ele abraçou a marca e isso nos faz ficar muito gratas”.

Antes da loja, Rayssa trabalhava no marketing de empresas e vídeos autônomos. A produção da marca é dela, assim como os vídeos que fazem e as fotografias. Hoje Juliana também participa das criações. “A gente também pega referência de outras criações e a gente traz para Acre de alguma forma. Temos alguns parceiros que estão começando a entrar com a gente, como ilustrador, designer, pois não estamos conseguindo mais parar só para criar devido a demanda”.

Até agora, a Made In Acre lançou três coleções, apesar de sempre lançar um produto ou outro entre elas. “Somos muito intuitivas, quando vemos que alfo, uma frase, dá para pegar, a gente lança. Não esperamos acontecer. A gente viu a brincadeira do governador [Gladson Cameli] na frase ‘Mim Dê Que Eu Tomo’ tentamos adaptar para a loja. Num final de semana fizemos isso e foi um sucesso essa tiragem. Tanto que até hoje as pessoas ainda perguntam sobre ela”.

Agora, a marca quer lançar uma nova coleção voltada mais para a Amazônia e aos povos da floresta, que é com o que elas estão se conectando bastante no momento. “A gente quer trazer camisetas com os nomes das medicinas para mostrar para as pessoas que temos isso aqui no Acre, que é nosso, e também para quem vem em busca disso. A gente acha que as pessoas vão ter essa referência”.

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Há 23 anos surgia Os Cobras Dance, grupo que carimbou o Acre na cena musical por gerações

Grupo fez com que o Acre se tornasse a capital do dance nacional e referência na cultura de rua

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Se você não é um dos millennials, geração de pessoas nascidas entre 1980 e 1995, provavelmente não vivenciou um dos maiores fenômenos artísticos que o Acre já teve. Ainda assim, deve ter ouvido falar (e muito) sobre Os Cobras Dance. As chamadas “Gerações Z e Y” recordam com saudosismo a época em que a música autoral acreana ganhou palcos e espaços midiáticos Brasil afora com o hip hop, o rap e a dance music lançada pelo trio Silvio Alves da Silva Neto, Samyron Andrade e Delcimar Mesquita (que converteu-se ao Evangelho e deixou o grupo há um ano).

O sucesso foi estrondoso e ultrapassou barreiras que nem mesmo os músicos imaginavam um dia alcançar. O trabalho que Neto, agora com 50 anos, e Samy, de 48, sustentam até hoje foi idealizado em junho de 1998 na capital acreana. Antes disso, eles já integravam há mais de 10 anos um coletivo que atuava em prol da evolução do Hip Hop na cidade. Tanto que anos depois o grupo consolidou o estado como um dos berços do movimento organizado no país, inclusive com aprovação de leis. Foram cerca de 9 mil cópias de CDs vendidas. Se somar a venda de pirataria, o resultado triplica. Na época, o disco original de Os Cobras Dance era vendido nas lojas por R$ 35 reais e nenhum acreano havia agradado tanto.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O fato é que Os Cobras Dance conseguiram viver da própria música e ditaram moda por muito tempo. Até hoje o grupo tem shows marcados dentro e fora do estado, fazendo parte da vida de pelo menos três gerações de acreanos. Quando começaram, cada um tinha cerca de 23 anos e a ideia era fazer um estilo de música que era febre na época: o dance nacional. “A gente queria agregar o nosso estilo de dança, de se vestir, de se apresentar na sociedade, e com isso ganhar uma grana. Nós já vínhamos do Hip Hop, mas ele em si não tem quase lucro. Aí sentei com o Neto e com o Delcimar para conversar, já que fazíamos parte de um coletivo de dança break e éramos vizinhos”, conta Samyron.

Foi aí que deu início à trajetória dos “Cobras”, que escolheram esse nome em referência a uma gíria que representava algo bom, bem feito, profissional. Antes da carreira musical, o trio também já se chamou “Os Cobras de Rua”. Segundo eles, o dance veio pela música eletrônica a fim de difundir o trabalho nas casas noturnas e valorizar o Hip Hip, movimento universal que une cinco elementos culturais da rua: a dança break, o grafite, o Rap, o DJ e o conhecimento.

“Morávamos nos bairros Esperança e Mascarenhas de Morais. O Neto fez a primeira música (Não dá Pra Namorar), em seguida a “Me Chama de Galinha”, eu já estava encaminhando outra (Cara de Bundão) e Delcimar também fez uma. Aí fomos ver os custos [para produzir]. Aqui ainda não tinha o serviço de produção de música, então tínhamos que ir para Manaus ou Porto Velho”, relata Samy. Como os custos no Amazonas seriam maiores, o grupo decidiu ir para Rondônia.

O drama para o primeiro CD e início do sucesso

Concretizar o sonho da primeira produção musical não foi fácil para Os Cobras Dance. Assim que chegaram à capital vizinha, fizeram pesquisa de preço e o trabalho não sairia por menos de R$ 6 mil. Mas só em chegar a Porto Velho já foi uma verdadeira operação de guerra para eles. “Fomos de carona. O custo total para produção era muito dinheiro naquela época, fora alimentação e estadia. Aí voltamos para Rio Branco e fizemos uma lista com todos os nossos amigos”, contam.

A lista era para ver quem poderia ajudar o grupo a se manter em Rondônia até que o CD ficasse pronto, período que durou aproximadamente seis meses. Amigos, familiares e até fãs que eles já tinham conquistado se prontificaram a doar R$ 3, R$ 5, R$ 10, até quilo de farinha, arroz, feijão, rede, colchão etc. “Fomos para lá em junho e terminamos em janeiro de 1999, quando voltamos ao Acre. A primeira música a ser tocada na rádio foi a que estourou e puxou as outras, a Não dá para Namorar. Fizemos um LP com nove músicas”.

Neto percebeu que Os Cobras Dance estavam fazendo sucesso de verdade quando os moradores de Rio Branco começaram a gostar e pedir as músicas nas rádios. “As rádios começaram a pedir para a gente mandar as músicas pra elas. Taxistas, camelôs tocavam demais também”. Rapidamente as canções dos Cobras estouraram por boa parte da Região Norte, fazendo com que o estúdio musical que produziu o CD virasse uma referência no ramo. Boa parte desse sucesso se deve à ousadia dos integrantes. Eles resolveram comprar 300 fitas e gravar as músicas para entregar aos vendedores ambulantes do calçadão e taxistas. “O trabalho de mídia social que as pessoas fazem hoje na internet, a gente fez na mão. A divulgação por táxi deu muito certo”, brinca. Uma semana depois, só se falava em Cobras Dance.

Dessa forma, o Acre passou por muito tempo sendo a capital do dance nacional. “Todos os grupos queriam vir aqui para, além de conhecer a gente, saber mais do nosso estado. E a gente começou a fazer shows em outras capitais, até internacionais, como Bolívia, Peru e quase fomos a Portugal, só não deu certo porque faltava passaporte e iria demorar para tirar”.

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Muitos dos empecilhos que surgiram para o grupo podem ter acontecido por falta de um empresário. Eram eles que cuidavam de tudo sozinhos, na maioria das vezes, com pouco tempo. “Mesmo assim a gente nunca deixou de fazer show. Uma coisa que era pra ser um hobby, um momento de lazer, se transformou na nossa principal fonte de renda. Até hoje temos isso como renda, temos shows marcados”, declara Neto.

Rotina exaustiva e mais de 50 hits

Passado o sufoco de se estabelecer na cena musical, veio um novo desafio. Acostumar-se à nova rotina era um exercício quase que diário para o grupo, que já não conseguia passar datas comemorativas com a família, nem mesmo triplicando o valor do cachê aos contratantes.

“Era uma euforia. A gente tinha agenda lotada por quatro meses seguidos, com shows de quarta a domingo, às vezes com até três apresentações no mesmo dia. Rodamos o Acre inteiro, Rondônia, parte do Amazonas e Mato Grosso”, detalha a dupla. Desde que subiram ao palco pela primeira vez, num Dia das Mães em maio de 99, nunca faltou proposta para show (exceto no momento de pandemia da Covid-19). Mesmo com dificuldade para chegar ao interior do estado, eles enfrentaram sol, chuva, lama e até viagem em canoa pelos rios.

“A gente chegava a perder até 4 quilos por semana por causa da correria. Era aproximadamente um quilo que a gente gastava por show. A gente dançava muito, era uma hora e meia cantando e dançando”, diz Neto. Entre as músicas mais marcantes dos Cobras Dance estão: Não dá Pra Namorar, Cara de Bundão, Me Chama de Galinha, Baby e Te Cuida Valentão. Ao todo, o grupo tem 56 músicas autorais. “É um dos únicos aqui do Acre que sai para fazer show com músicas autorais que fazem sucesso até hoje. É nossa marca registrada. Os contratantes sabem que a gente leva o que é nosso, divulgando nosso estado. Fora do Acre fazíamos questão de dizer de onde viemos, sempre elevando nossa origem”.

Neto e Samyron são reconhecidos até hoje nas ruas. Segundo eles, Os Cobras já estão na terceira geração de público. “Já fizemos shows em que estavam pai, filhos e neto. Aniversário de 15 anos incontáveis, festas de casamento, noivados. É um reconhecimento e carinho muito bom. Continuamos com esse trabalho de resistência e resgate positivo do hip hop para juventude”. Fora a música, são mais de 35 anos de vida dedicados ao coletivo, ao trabalho na rua, no mecanismo da música.

Apresentação no Ratinho e a pandemia

Recentemente eles atingiram o ápice ao se apresentarem no Programa do Ratinho, em exibição nacional. Ainda com a formação original, Os Cobras Dance participaram do quadro “É Dez ou Mil” no SBT, sendo tão bem avaliados pelos jurados do quadro que levaram o prêmio máximo de R$ 10 mil.

Os acreanos cantaram a música “Não dá Pra Namorar”.

Para eles, foi um verdadeiro divisor de águas. “O problema foi a chegada da pandemia do coronavírus, porque aquela apresentação deu uma visualização grande pra gente. A gente saiu de lá já com muitos shows marcados”, disseram, tendo que cancelar por causa da doença.

Antes deles, nenhum outro artista acreano havia se apresentado num programa de renome nacional e ainda levar um título. ” E o mais interessante é que só participa por indicação de outro artista. E fomos os únicos a cantar música autoral”.

Como vivem e o que esperam do futuro

Mais da metade da vida de Neto e Samy foi dedicada ao Cobras Dance. Eles conseguiram o feito que poucos alcançaram e hoje ainda usufruem do que sobrou de legado do grupo. “Seguimos fazendo renda com a música, claro que não é mais a nossa principal renda agora, mas continuamos na luta para dar continuidade a esse legado de romper gerações e também pelo nosso prazer”. Os admiradores estão por todos os lugares, seja reconhecendo-os na rua ou nas redes sociais mostrando CDs que ainda guardam. “Muita gente dessa geração conhece nossas músicas, mas às vezes não sabe quem canta, então fazemos o trabalho continuar. As pessoas nos ligam de vários estados dizendo que estão nos ouvindo. Isso é muito gratificante”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

Os integrantes fazem outros tipos de trabalhos atualmente, como especialidades em informática, que também o ajudam na música. Neto revela que o primeiro site a levar o nome dos artistas a nível mundial foi o Palco MP3. “Fomos pioneiros a entrar nessa plataforma em 2007/08 e passamos mais de seis meses em primeiro lugar na Região Norte, Centro-Oeste, e em 10° lugar do nosso estilo a nível nacional. As pessoas ligavam de vários estados querendo assistir nossos shows”.

Para eles, o som propagado pelo Cobras Dance é raiz do Norte do Brasil, mas que toca em outras regiões até hoje. “Ainda temos muito o que fazer. Não temos nenhum clipe ainda, nunca fizemos uma live. Sempre recebemos mensagem perguntando e cobrando e vamos fazer. A gente rompeu barreiras. Às vezes a gente encarava muito trabalho só pelo fato de se apresentar, mesmo sem ganhar o valor cobrado. Quando você faz uma coisa pensando só no trabalho, se der alguma coisa errada você desiste. A gente não, a gente estava se divertindo. Se desse errado a gente encarava do mesmo jeito”, destacam.

Samyron relembra que mesmo estando com um público de 10 pessoas ou de 10 mil, o show sempre era e sempre será o mesmo. “Já chegamos a fazer um show numa casa noturna que estavam só os seguranças lá. A gente entendia, reduzia o cachê ao contratante. Falhamos nosso sucesso sozinhos. Temos que agradecer sempre a Deus e a nossa família. Pai, mãe, irmãos, sempre nos deram apoio. Mas empresários, o poder público em geral nunca chegaram. Sempre fomos profissionais, mas nunca misturamos trabalho com política. Fazíamos muitos comícios, mas era contrato, era trabalho”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O Hip Hop como salvação de vidas e legado aos filhos e netos

Fazer hip hop nunca foi difícil, complicado mesmo era organizar o movimento. E essa organização no Acre tem muito trabalho de Neto, Samy e Delcimar. Eles começaram com o hip hop organizado no final dos anos 80. No Brasil todo, só três estados têm esse movimento organizado com leis e graças aos Cobras e demais membros de coletivos, o Acre é um deles. “Nosso grupo é referência, é a velha escola desse movimento. O break hoje é o mais novo esporte olímpico. Por isso, já estamos organizando a Federação Acreana de Break Dance. O que em 2024 vai ser um esporte olímpico, nós já fazíamos 30 anos atrás na rua”.

A possibilidade de um menino da periferia conseguir ser campeão mundial é o que move e sempre moveu o hip hop. Sem dúvidas, Neto e Samyron querem passar o movimento para os filhos e netos. “Na verdade já está sendo passado de geração em geração. Os Cobras Dance é padrinho de mais de 15 grupos e bandas do mesmo estilo e de outros, tanto daqui do Acre quanto de Manaus, Porto Velho. Muita gente começou através de nós. Fazer música autoral hoje em dia e fazê-la expandir é difícil. Foi um trabalho nosso de muito tempo”, afirmam.

A falta incentivo do poder público é o que mais tem prejudicado essa classe artística, lamentam os músicos. Por isso, a linguagem em forma de música e outras artes aproxima a comunidade. “A gente sabe como funciona o sistema. A periferia é 70% da população. A gente fala diretamente com os desfavorecidos. Não somos só artistas, temos que passar algo que eles possam absorver também, não é só diversão. No intervalo das músicas, num show de 1h30 e 30 músicas, cantamos músicas conscientes, para informação. Mostrando sempre a importância de jovens do subúrbio, que é de onde nós viemos”.

Neto garante que a música do grupo livrou muitos jovens das drogas. Ele também rebate o boato de que os Cobras seriam usuários: “nunca usamos nada. As pessoas ofereciam pra gente. Até empresários mesmo, mas isso nunca foi nosso estilo. Muitos grupos que surgiram depois da gente eram de jovens que não tinham o que fazer, mas que se uniram pelo exemplo dos Cobras. Hoje são pais de família de bem. Foram correr atrás do sonho e não de fazer besteira. Eles cantavam, dançavam, se divertiam. Os pais desses rapazes hoje dão graças a Deus pelos filhos que tem. Se o poder público olhar para a periferia e cuidar um pouquinho deles, a gente consegue mudar a vida de muita gente”, conclui.

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Casal abre primeiro hotel Guesthouse no Acre e local vira ponto turístico aos gringos

Tal sistema de hospedagem se consolidou na Europa e vem atraindo turistas à capital acreana

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Há quase um ano o Acre ganhou o primeiro hotel que funciona no sistema Guesthouse, uma casa de família que aluga quartos e espaços externos da residência enquanto os proprietários permanecem no imóvel e podem conviver com os visitantes. No início, seria algo mais intimista, porém, o Jardins Guesthouse, situado na Estrada da Floresta, em Rio Branco, ganhou proporção maior e a procura hoje é tanta que há semanas em que não dá para atender a todos os clientes e forma-se fila de espera.

Esse modelo inovador de hospedagem para o estado ganhou a aceitação de todos os grupos: famílias, amigos, casais, turistas e até as crianças. O sistema que já é bastante conhecido e tradicional na Europa agora também está fazendo sucesso na capital acreana. O ambiente permite que os hóspedes possam compartilhar vivências com atividades como tirolesa, apresentações e eventos culturais e religiosos, artes, exposições de artesanatos, quadros, oficinas, colônia de férias, piscina, tecidos acrobáticos, slackline, lago com caiaque, e etc.

A ideia do empreendimento é do casal de acreanos Victor Pontes e Rosiany Albuquerque, que estão juntos há mais de 12 anos. Victor é turismólogo e Rosiany formada em administração e marketing. Mas era Victor que sempre sonhava em ter uma pousada. Onze anos atrás ele foi para o município de Xapuri, distante cerca de 186 quilômetros de Rio Branco. Lá, abriu a pousada Ayshawa, que também foi pioneira no turismo de vivência, mas nada parecido com a estrutura e grandiosidade do Jardins Guesthouse, onde o proprietário também é responsável técnico.

A pousada de Xapuri foi a primeira a ter parque temático de aventura com arvorismo e tirolesa e serviu como protótipo de algo muito maior, que é o Guesthouse. Este último teve suas atividades iniciadas em outubro de 2020. “Trabalhamos no desenvolvimento turístico. Também temos uma agência que promove expedições em aldeias indígenas e doutrinas do Santo Daime. Vimos necessidade de abrir um modelo de hospedagem como o Guesthouse, onde o turista ou viajante possa ter uma segunda casa”, explica Victor.

O “casarão”, como também é chamado o Guesthouse, tem seus anfitriões e a visita pode usufruir da casa como se fosse dela. “Essa é a característica desse sistema de hospedagem e tem sido bastante aceita nesse momento em que o Acre vem vivendo”, o turismólogo. O casal salienta que ao passar pelo portão, a impressão é de estar entrando noutro universo, como dizem os hóspedes. “O Acre está desenvolvendo uma linha turística e tem muitos visitantes de fora em busca do novo turismo, que é o turismo vivencial”.

O espaço tem 15 mil metros quadrados e o grande desafio é tornar todo o ambiente num lugar turístico. Atualmente, vem sendo destino de curiosos, o que tem surpreendido os proprietários. “Tem pessoas vindo da Bolívia, de Porto Velho, Epitaciolândia, Brasileia, Peru. Já atendemos três grupos de uma mesma família que queriam curtir aqui dentro”.

Além disso, o empreendimento atua com o etnoturismo, que já vinha sendo trabalhado por Victor e Rosiany desde Xapuri. “Vimos essa necessidade de Rio Branco ter um meio de hospedagem desse estilo, que tenha contato com a natureza, que seja bem localizado, na direção do aeroporto, na frente do shopping, essa área oferece tudo isso”.

O Jardins Guesthouse oferece opções ao cliente. Há quartos compartilhados masculino, feminino e misto, e o quarto privativo, que cabe até quatro pessoas. O local também é bastante procurado para realização de eventos como aniversários e comemorações que reúnem menos pessoas. “Nosso diferencial é esse, ser um modelo único em Rio Branco, onde só tinha hotel, horizontal, sem esse contato com a natureza”.

O imóvel em que funciona o Guesthouse tem arquitetura icônica, começou a ser construído em 2001. Entretanto, está completamente repaginado e decorado com temáticas que fazem referência ao que vem sendo desenvolvido ao longo do tempo em torno do turismo, medicinas da floresta, busca espiritual e o misticismo. “Estamos investindo nesse pensamento. Iniciamos a atividade de uma forma mais tímida, por causa da segunda onda da pandemia. Essa é uma modalidade proposta justamente para viajantes de fora do Brasil”.

Experiência

Victor já trabalhava com expedições indígenas em sua agência de turismo e sentia essa necessidade de ter um lugar para quando os estrangeiros chegassem para acomodá-los da forma mais local possível. “Mas os acreanos também têm gostado muito, pois aqui é escasso com relação a um lugar para ir com a família, de descanso, lazer. E temos trazido muitas novidades, o projeto é muito grande”, destaca.

O conceito do Jardins Guesthouse se assemelha ao hostel por ser mais econômico, porém se diferencia pela casa de grande porte. “Somos os anfitriões e nosso público maior é voltado ao conhecimento, à parte mais cultural, regional, gastronômica. Nosso perfil é do etnoturismo, que está despontando, inclusive no mundo inteiro”. Segundo o turismólogo, as nações estão descobrindo o Acre da forma tradicional, baseados na medicina da floresta, então, o público tem mais esse perfil, de pessoas que procuram o local em busca da doutrina, das religiões, da barquinha, entre outras.

Rosiany destaca que a programação oferecida agrada todos os gostos. “É aí que entra nossa agência, com um turismo mais receptivo. A ideia surgiu dela. Voltamos de Xapuri para Rio Branco devido à pandemia, e tivemos que nos virar nos 30. Foi então que vimos a necessidade do Day Use, pois muita gente queria conhecer a casa, o espaço, e montamos isso para pessoas passarem o dia e não somente para hospedes”.

A modalidade Day Use permite que o cliente pague para usar apenas uma parte do dia. “Vimos que poderia ser uma boa opção, porque todos os dias a gente recebia pessoas querendo conhecer o casarão, saber o que era. Muita gente aparece dizendo que tinha um sonho de conhecer a casa. E vimos esse público-alvo dando muito certo”.

O Guesthouse atende com mais frequência o Day Use durante a semana e aos finais de semana utiliza a capacidade máxima permitida em período de pandemia. “A média de atendimento varia muito. Às vezes tem eventos indígenas no interior e recebemos muita gente. Temos recebido ainda muitas pessoas da Bolívia e Peru, famílias inteiras de bolivianos”. O local tem oito acomodações, partindo desde o econômico, que é o chamado “belichário”, com quarto compartilhado e banheiros externos, até as suítes, com banheiros privativos e a suíte-máster, a maior da casa. “Para o riobranquense, temos a tirolesa, o pesque e solte e ainda terão outras atividades para colocar atividades turísticas dentro dos jardins, que já estamos investindo”, garantem.

O casal retornou de Xapuri ano passado, em plena pandemia, e lá deixaram a pousada base. Toda semana Victor ou Rosiany vão ao município ajudar a gerir o negócio, que tem um perfil de hotel mais econômico.

Cultura no Guesthouse

Hoje Victor e Rosiany moram no Jardins Guesthouse com o filho pequeno. “Chegamos num momento em que num período de 9 meses, atendemos mais movimento cultural aqui dentro do que em qualquer outro lugar até mesmo preparado para esse tipo de evento”. A dona salienta que a proposta não é só focar só na questão dos indígenas, mas transformar o local numa base cultural.

Outras atividades estão previstas para ocorrer no local. “Teremos oficinas de artesanatos, colônia de férias, seria mais uma base cultural onde acontecem várias outras atividades desse tipo. Queremos trazer isso ao acreano”, afirmam. Os jardins já receberam encontro de grafite, presença de quatro etnias, um retiro espiritual com os Yawanawá, retiro cultural com os Shanenawa e encontro de capoeiristas. “As pessoas estão conhecendo essa parte e se interessando, e o melhor é o nosso conceito: fazer a pessoa se sentir em casa”, diz a administradora.

Para o turismólogo, o visitante chega e vê que ali é sua segunda casa. “Tem pessoas que vêm para cá ler um livro, traz a rede, fica nas árvores, faz um trabalho na sacada principal usando uma boa internet e aproveitando a vista até mais tarde”. Devido à agência do casal, eles têm contato com mais de 10 aldeias, que participam dos eventos com visitantes.

“O Acre está sendo preparado, nossos representantes indígenas já são embaixadores, andam com celebridades, o estado vem avançando. Os trabalhos que mais acontecem aqui é na hora que eles vem fazer uma visita pra nós e já fazem um trabalho espiritual aqui no local e chamam os amigos”.

Apesar dos constantes trabalhos envolvendo grupos indígenas, o Guesthouse é apenas um centro que facilita o acesso do turista ou visitante. “Se coincidir de a pessoa vir aqui e ver um indígena que tiver fazendo um trabalho aqui, pode acontecer de ela experimentar os ritos que eles fazem. Já aconteceu de pessoas que nunca tiveram contato ou participado de atividades indígenas e tiveram aceitação e respeito”.

Atrações

Para o próximo mês de novembro está prevista a continuação do projeto Aldeia Urbana, uma vez que permanece proibida a entrada de pessoas nas aldeias por conta da pandemia de Covid-19. “Nós não podemos adentrar as aldeias, porém os Txai estão todos vacinados. Para a ciência, estão imunizados e podem sair de suas aldeias”. O projeto consiste em convidar uma aldeia até o Guesthouse.

“Eles vem sempre com 18 pessoas. O próximo seria um sagrado feminino. Hoje a cultura abre para as mulheres ministrarem, fazer trabalho, já tem pajés mulheres reconhecidas por seu povo, a ideia é fazer o fortalecimento dessa cultura, do artesanato, trazer a força das mulheres guerreiras mesmo”.

Assim que liberados pelo governo estadual, lançaram o curso de tecido acrobático, que atraiu bastante público. No entanto, tiveram de parar por conta do avanço do novo coronavírus. “Após todos estarem com a segunda dose da vacina, iremos iniciar novamente o curso. O SPA também tem sido bem aceito, as pessoas vêm para relaxar com tudo que é montado aqui”.

Apesar do sucesso que já vem fazendo, eles destacam que estão caminhando agora, começando devagar. “Vamos lançando as atividades aos poucos. Vem muita gente com família, com a criançada que gosta. O próximo projeto também é fazer o skibunda. Graças a Deus as pessoas têm gostado, são coisas diferentes que você só via fora e tentamos trazer tudo isso e juntar aqui e vem mais novidades”.

Rosiany sempre gostou de trabalhar com famílias e crianças e se vê num local privilegiado por esse motivo no Guesthouse. “Os hóspedes falam que em hotel não podem soltar as crianças e aqui é diferente. Estamos atendendo muito esse público e eles têm voltado”. O local tem um morador especial, o Alvinho, cachorro que já virou mascote do hotel. “É um sucesso com as crianças. Adotamos ele na pandemia quando a gente teve de se trancar em casa depois que nosso cachorro que já tínhamos há muito tempo faleceu. Foi o que salvou nosso filho na pandemia”.

Outra ideia que está para ser colocada em prática é o restaurante. Por conta da burocracia em poder funcionar, o espaço, para não deixar os hospedes sem nada, trabalha com congelados e fast-food, como lasanha e pizza. “Quem está cansado e não quer sair daqui, temos essa alimentação. Mas teremos uma estrutura de cozinha e torná-la um restaurante de fato com comidas tradicionais, como pato no tucupi, galinha picante, culinária indígena, galinha caipira, mandi frito”.

O objetivo é que pelo menos uma vez por mês abram a cozinha para fazer parcerias e que a mesma seja representada por um cozinheiro-chef. “Terá o prato daquela pessoa. Sempre com novidades. Queremos ocupar a cozinha, os quartos, a área de lazer. Brincamos sempre dizendo que não somos os donos disso aqui. O dono é Deus, nós estamos com a chave que deram para abrimos e fechar”.

Por segurança, o local só recebe pessoas com estadia reservada e o imponente portão sempre fechado. “Pela rotatividade de pessoas que passam por aqui, já temos esse cuidado. Temos todo um sistema de segurança que contratamos. Somos monitorados”, finalizam, ressaltando que as acomodações apresentam importantes benefícios, como atenção personalizada, quietude, baixo custo e design diferenciado.

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