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Uma brevíssima defesa dos nossos senadores e da democracia

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Vi por estes dias, aqui no site ac24horas – programa Boa Conversa, uma entrevista do pré-candidato socialista ao Senado pelo PSOL, o advogado Sanderson Moura, na qual, incensado como uma alternativa no contexto político acreano, ele praticamente veste a túnica de Platão para reivindicar um governo dos sábios, entre os quais, obviamente, nomeia a si próprio. De sobra, se diz socialista e progressista, portanto, abraça publicamente uma determinada visão de futuro, e adota uma ação prática na política.

Em determinado trecho de sua fala ouve-se daquele que se espelha(!!!) em ninguém menos que Péricles na Grécia e Marco Túlio Cícero na Roma Antiga e, no Brasil, faz uma concessão a Ruy Barbosa, que “no Senado era pra estar os homens mais capacitados da República (…) homens que entendam da Constituição, do Direito, da Política, de Sociedade…”. Seu entendimento é de que os nossos senadores são todos desqualificados para o cargo. Pelo visto, modéstia não é com ele.

Ainda que, para o filósofo e matemático britânico do século XIX, Alfred North Whitehead, toda a filosofia ocidental seja uma sucessão de notas de rodapé perante a obra de Platão, a este não faltaram críticos, alguns deles muito importantes. Destaco, neste caso, o filósofo Karl Raimund Popper, nascido em Viena em1902, naturalizado britânico, que em 1945 lançou o livro “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”, no qual completa a dissolução do historicismo platônico, iniciada com “A Miséria do Historicismo”, lançado em 1936. 

Comunista na adolescência (quem não?), Popper logo transformou-se em um liberal clássico, aproximando-se, a partir da influência de Imannuel Kant, do pensamento de Hayek, Mises e Milton Friedman entre outros. Conhecido por sua contribuição à filosofia da ciência, com a teoria do método hipotético dedutivo e da refutabilidade como parâmetro obrigatório do método científico, o que fez a ciência dar uma guinada metodológica, Popper tem grande elaboração na filosofia política. 

Foi Platão, opondo-se à democracia socrática que segundo ele sempre degeneraria em uma tirania dominada por um “pai do povo”, quem propôs um governo de homens sábios – sofocracia. Diz ele em “A República”: “Enquanto os filósofos não forem reis, ou os reis e príncipes deste mundo não tiverem o espírito e poder da filosofia, e a sabedoria e liderança política não se encontrarem no mesmo homem, as cidades jamais deixarão de sofrer de seus males, o mesmo acontecendo com a raça humana”. A teoria parece, pelo que vimos na entrevista, apaixonar o candidato Psolista ao Senado. Mais de 2300 anos depois, o entrevistado demonstra o mesmo desapreço à escolha pelo povo de seus representantes, embora a ela pretenda se submeter. Enquanto ele pensa, como Platão, em QUEM deve governar, Popper propõe que mais importante é assegurar que QUEM governe não nos faça mal. Xeque mate!

Para Popper, os fins políticos de Platão “dependem em considerável extensão de suas doutrinas historicistas. Em primeiro lugar está seu objetivo de fugir ao fluxo do heraclitismo, manifestado na revolução social e na decadência histórica. Em segundo lugar, acredita que isso pode ser feito pelo estabelecimento de um Estado tão perfeito que não participe da tendência geral do desenvolvimento histórico”. A sua crítica ao historicismo, além de Platão, aplica-se às bases de outros filósofos, entre eles Karl Marx. Clareando, Popper diz que, para Platão, o processo histórico seria interrompido por um Estado perfeito, dirigido por “homens sábios” como o nosso advogado criminalista, que não levaria em consideração a individualidade. 

Em “A República”, Platão reserva o exercício do poder político aos filósofos, 

em uma organização de castas na qual os sábios governam, os guerreiros (militares) protegem a cidade e os produtores produzem os recursos materiais, segundo suas inclinações e aptidões, mantendo-se, dessa  forma, o projeto  coletivista. Não parece Cuba ou Venezuela, países cujos governos são apoiados pelo PSOL?

Como disse Popper, os modelos socialistas sempre oferecem o céu na terra e entregam o inferno. Lembremos que, diferentemente do que disse o entrevistado, o PSOL não nasceu para combater o PT. Os parlamentares que o criaram saíram do sovaco petista porque não queriam ser confundidos com a ladroagem descoberta no governo Lula e, como desculpa, acusaram o PT de não ser tão socialista quanto deveria, pois havia se articulado com setores da elite e, portanto, traído a causa – o socialismo, este mesmo que hoje faz da Venezuela um inferno.

O PSOL não é o PT limpinho que dizem, é um rebotalho teórico, cheio de extremistas mais de 100 anos atrasados, que encontram agora em pautas indenitárias oportunidades para esconderem seu projeto real e se manterem na modernidade, atraindo “ressentidos”, para utilizar a expressão do filósofo conservador Roger Scruton. Não lhe pesa que todas as experiências coletivistas tenham se transformado em cruzadas contra a liberdade do indivíduo, perseguição, assassinato e miséria. Para eles o progressismo é a minimização das dores do parto de uma sociedade igualitária, como diria Marx seguido por outros intelectuais socialistas.

Em defesa dos nossos senadores (sem procuração de nenhum para tal), tidos como desqualificados pelo nosso “sábio” da hora, pode-se dizer que a democracia os pôs lá e de lá os arrancará quando quiserem os eleitores a quem cabe julgar a sua qualidade. O assombroso discurso do pré-candidato do PSOL acreano, ao invés de um avanço político é a sua negação, é um retrocesso. Sem considerar que a ação parlamentar tem ritos e limites, o menosprezo com que trata os senadores acreanos e, em consequência, seus eleitores, aliado ao desembesto sofocrático, só demonstra que, por enquanto, no Acre, mais do mesmo é muito melhor do que o novo. Quem julga necessário estar acima da sociedade para dirigi-la, confessa o próprio despreparo para o cargo.


Valterlucio Bessa Campelo escreve às sextas-feiras no ac24horas e eventualmente em seu BLOG

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