Um sonho de família compartilhado com três amigos fez nascer o Hospital São Pedro, inaugurado há cerca de 10 dias em Rio Branco. Um projeto inovador, ousado e arriscado, mas que deu muito certo após 7 anos de empenho para que o empreendimento pudesse sair do papel e se tornasse realidade. Quatro amigos e conceituados cirurgiões que atuam no Acre há mais de 20 anos decidiram implantar na capital o que há de mais moderno no quesito internação hospitalar e realização de cirurgias.

A ideia é fazer do local mais que um ambiente hospitalar, uma verdadeira experiência em hospedagem com tudo que um hotel de alto padrão tem para oferecer aos clientes. A unidade particular mira numa hotelaria de luxo para reforçar a qualidade do atendimento. Para isso, uma equipe de 52 colaboradores trabalha atualmente para garantir que pacientes e acompanhantes tenham a sensação de estarem hospedados num apartamento requintado, desde a recepção até a alimentação.

O cirurgião oncológico, David Ricardo Carneiro, que saiu da capital acreana para se formar em medicina na Universidade Federal do Amazonas, conta que a ideia surgiu há alguns anos, quando estava em viagem de família e começou a alimentar o sonho de possuir seu próprio hospital. Ao retornar para casa, começou a elaborar o projeto. Para compor o time de sócios, convidou os amigos de longa data, também cirurgiões, José Roberto Ricarte, Sidney Rogério e Ednaldo Silva. A partir de então começaram a dar vida ao empreendimento.

O prédio do Hospital São Pedro pertence à família de David e foi totalmente reformado para se transformar num hospital. O processo, desde a criação do projeto até captação de recursos e o resultado final da unidade de saúde, durou cerca de 7 anos. “Nós quatro somos cirurgiões, então a gente sempre via aqui [na cidade] a dificuldade do paciente cirúrgico encontrar um leito de qualidade, ter material de qualidade para operar. Então, o hospital foi todo pensado nessa nossa experiência”, explica Ricarte.

Por enquanto, o hospital oferece cirurgia geral, que inclui toda a parte de videolaparoscopia [técnica cirúrgica minimamente invasiva realizada por auxílio de uma endocâmera no abdômen], cirurgia bariátrica, cirurgia de vesícula, hérnia, entre outras. Os médicos David e Ednaldo são cirurgiões oncológicos, atuando em toda a parte de câncer que necessitar de cirurgia. “Inclusive tudo por videolaparoscopia. A gente tenta ao máximo fazer as cirurgias por vídeo, que é para o paciente se recuperar mais rápido”, garantem.

Sonho colocado em prática

Desde que começou a planejar abrir um hospital, David idealizou todos os mínimos detalhes da unidade.  “Uma recepção toda elaborada de forma que tenha conforto, ambiente lúdico, decoração diferenciada, banheiros adaptados, consultórios funcionais”, destaca.

O local oferece ainda atendimentos pediátricos, cirurgia geral, ginecológica, de mastologia e clínica médica. São cinco consultórios no térreo e que funcionam de maneira rotativa, ou seja, nunca estarão vazios, sempre haverá um profissional atendendo.

“Há pouco mais de 10 dias começamos a funcionar. Nessa primeira semana, já fizemos cirurgias bariátricas, de mama, vesícula, várias cirurgias plásticas. Iniciamos nessa semana as cirurgias de transplante capilar”, enumera José Ricarte, afirmando que o nicho a ser atendido pelo hospital será bastante diversificado. “Todas as áreas cirúrgicas vão ser acomodadas, também com otorrino, oncológica, de ortopedia. É possível realizar cirurgias em todas essas áreas aqui dentro do hospital”. Segundo o cirurgião Sidney Rogério, no momento, a única parte cirúrgica que o hospital não está atendendo no momento é a de obstetrícia.

“Vai ficar para o futuro. De resto, toda a parte eletiva e cirúrgica e cirurgia de emergência, estaremos oferecendo”, assegura. Conforme o grupo, dos cinco consultórios existentes, dois estão prontos e os outros três em processo de finalização.

“Ao final, haverá uma sala de pequenas cirurgias, para procedimentos que podem ser feitos aqui no andar de baixo, sem que o paciente precise adentrar o centro cirúrgico. Uma sala específica para realização de pequenos procedimentos, como, por exemplo, quando o paciente recebe sedação local. Nesse caso, ele termina a cirurgia e já pode ir para casa”.

Diferencial

O Hospital São Pedro nasceu para ser diferente dos demais. A principal peculiaridade do empreendimento é o foco na qualidade de hotelaria que o hospital visa oferecer, desde a entrada até a acomodação do paciente. Para os sócios, o principal diferencial. “Em certos hospitais, o banheiro não é adequado, a cama não é adequada. Então, nesse ambiente, a gente quis criar um local que fosse o menos traumático possível para o paciente, aonde ele vai se sentir em casa ou dentro de um hotel de luxo”, explica Ricarte, dando ênfase ao trabalho de humanização que é dedicado na unidade, a fim de tratar a todos com educação e deixar o paciente sempre bem informado do que está acontecendo com ele.

David Carneiro comenta a assistência multidisciplinar que é disponibilizada no local. “Tem todo o cuidado médico, de enfermagem, fisioterapia, tudo associado para o bem estar do paciente e para a mais rápida recuperação do pós-operatório”. Hoje, o São Pedro tem capacidade para ter até 15 pacientes internados simultaneamente. O grupo já possui plano de expansão para ampliar os atendimentos e internações. “Hoje nosso hospital é estruturalmente cirúrgico, mas a gente já está com a intenção de ampliar para a internação clínica, sem ser para pacientes que necessitam de procedimentos cirúrgicos”, diz o cirurgião.

A meta dos quatro sócios é atingir a capacidade de 60 leitos dentro de no máximo três anos. “O nosso paciente, como a maioria das cirurgias vai ser realizada por vídeo, é o paciente que, por exemplo, opera uma vesícula pela manhã e à noite ele vai para casa. É aquele paciente que acorda já sem dor, que com uma ou duas horas já levanta, já começa a caminhar, já se alimenta, e no final do dia ele vai para casa”, acrescenta José Ricarte.

Day Hospital – hotel de luxo com internação curta

O intuito é, de fato, fazer com quem entre se sinta em casa ou, no mínimo, dentro de um hotel de luxo. “Pelo menos 90% dos pacientes que a gente conseguir operar por vídeo, eles terão alta no mesmo dia. Isso aumenta a rotatividade do hospital. Quanto menos tempo o paciente passar dentro do hospital internado, menos risco de infecção e mais rápido ele retoma as atividades do dia a dia dele”, salienta o grupo de cirurgiões.

O oncologista David ressalta que essa modalidade, de tentar manter o paciente o menor tempo possível no hospital, já existe no Brasil todo, que é a internação curta. “Esse é o conceito ‘Day Hospital’, o hospital dia, onde o paciente interna de manhã e sai no final do dia. Ele é operado pela manhã e no final do dia ele vai para casa”.

Segundo Ricarte, Rio Branco não tinha uma unidade específica para isso. “Como nós operávamos em outros hospitais, nos nossos pacientes, a gente tentou implementar esse método. Dependendo da cirurgia, ele já ia embora no final do dia. Mas o Hospital São Pedro foi especificamente criado para esse tipo de paciente”.

O conceito moderno de ambiente hospitalar também abrange cirurgia plástica, como a lipoaspiração, a colocação de prótese de mama, em que o paciente opera de manhã e à noite vai embora. “Com isso, a gente prepara a equipe. Até o anestesista, no uso de suas drogas de sedação, a gente tenta trazer as melhores drogas, de forma que elas possam ser metabolizadas mais rápido”, revela David.

Dessa forma, o paciente acorda mais rápido, sem dor, sem náuseas ou vômitos. “Essas medicações são até um pouco mais caras que o habitual, mas dão esse resultado, que é a melhora rápida do paciente e a possibilidade de ele ir para casa precocemente”, detalha o médico.

Composição dos funcionários

O empreendimento atua com 52 colaboradores de todos os níveis, trabalhando efetivamente entre enfermeiros, pessoal da limpeza, segurança, administrativo e assistencial. Um processo seletivo auxiliou os sócios nas contratações. O hospital divulgou as oportunidades de emprego por meio das redes sociais e recebeu 11 mil currículos. “Foram todos avaliados pela equipe que a gente selecionou para fazer isso. Tinha uma enfermeira responsável e uma especialista em Recursos Humanos. Tinham muitos currículos bons e foram muito bem selecionados. E agora, os profissionais estão na fase de adaptação, de treinamento, que vai ser outra meta que a gente vai ter, de manter os funcionários sempre em treinamento para que a cada dia ele desempenhe ainda melhor suas funções”.

Disposição do prédio

Com uma área total de 1.600m², o hospital é dividido em 4 andares, todos agregados por um elevador maca-leito, que permite a locomoção de pacientes deitados na maca dentro do elevador. O primeiro prédio tem três andares. O objetivo dos sócios foi separar o prédio assistencial do prédio administrativo e, assim, evitar a circulação de profissionais do administrativo no prédio assistencial e vice-versa. “Isso diminui o volume de pessoas circulando dentro do hospital. Com isso, conseguimos ter mais controle com relação à infecção e entrada de germes na unidade”, diz o cirurgião David.

O prédio foi construído de maneira que seja totalmente funcional, dispondo de toda tecnologia, automação de luz, de condicionador de ar, etc. “Há troca de ar dentro do hospital todo a cada 5 ou 6 minutos. Trocamos o ar do ambiente para uma renovação do ar. Isso foi uma exigência da Vigilância Sanitária, justamente por conta da pandemia da Covid-19”, destaca o grupo.

Eles tiveram de alterar o projeto no meio da construção por conta de algumas exigências impostas pelo coronavírus. “Tínhamos uma consultoria em relação à Vigilância e, após avaliação do consultor, durante a obra, algumas medidas foram alteradas justamente para nos adequarmos à legislação atual”.

Centro cirúrgico

O centro cirúrgico do Hospital São Pedro foi pensado para todas as especialidades cirúrgicas. Possui três salas cirúrgicas, uma sala de pré-operatório, onde o paciente é preparado para a cirurgia e uma sala de recuperação pós-anestésica, onde tem a capacidade para até seis leitos. Todos esses seis leitos são monitorizados e observados por uma central de monitoramento, onde em qualquer parte do centro cirúrgico o cirurgião consegue visualizar os pacientes. O local conta ainda com sala de conforto, medicamento, depósito, entre outros.

Os apartamentos são completamente diferentes do que o habitual. Posição de móveis, iluminação, cores. Há uma harmonização diferente em cada um deles, que visa passar tranquilidade ao paciente. “A gente queria dar uma experiência diferente. Em cada quarto uma experiência. São cinco em cima e sei embaixo. Há também dois apartamentos ligados ao balcão de enfermagem para pacientes mais delicados”.

Em todos os apartamentos, o paciente pode acionar a enfermagem direto da cama apenas apertando um botão. Os quartos possuem frigobar, rouparia, TV, sofá-cama para os acompanhantes, além de poltrona e banheiro adaptados. A parte de cozinha e alimentação também é diferenciada. O hospital dispõe de uma Chef de Cozinha, que proporciona uma dieta diferenciada. Nesse quesito, os sócios se espalharam nos grandes hospitais privados de São Paulo, como o Albert Einstein e o Sírio Libanês.

Histórico de formação dos cirurgiões

David Carneiro se formou em 2003, em Manaus, fez residência médica em cirurgia geral e oncológica. Voltou para o Acre em 2008, quando começou a exercer a medicina como cirurgião. José Ricarte nasceu em Belém, no Pará, mas veio para o Acre bem cedo, aos 2 anos. Em 2000 terminou a faculdade de medicina também em Manaus, voltou para Rio Branco, serviu durante um ano ao Exército Brasileiro e após isso fez dois anos de residência. A partir de 2004, começou a atuar como cirurgião na capital acreana. “Primeiro comecei na cirurgia convencional, depois fui fazendo curso de videolaparoscopia e fui evoluindo para cirurgia por videolaporascopica. Há 5 anos faço cirurgia bariátrica”, explica.

David e Ricarte se conhecem desde a época de cursinho. “Nossos pais eram amigos e a gente se encontrou em Manaus. Vim para Rio Branco a e fiz a residência. Como fui um dos primeiros a acabar a residência aqui no Acre, fiquei como preceptor. David terminou a faculdade e veio fez a residência. Em seguida, veio Sidney e, por último, o Ednaldo”, explica Ricarte. A amizade entre o grupo já existe há cerca de 20 anos. Eles foram acompanhando a progressão uns dos outros, enquanto três do quarteto saíram do estado para se especializarem, Ricarte ficou se aprofundando em videolaparoscopia.

Sidney Rogério, cirurgião e mastologista formado em residência na Fundação Hospitalar de Minas Gerais, hoje é responsável pelo Hospital do Amor em Rio Branco. Ele se diz carioca de nascimento e acreano de criação. “Meu pai veio para o Acre e eu fiz medicina no Rio de Janeiro. Quando me formei, voltei e fiquei no Exército. Ainda fui para Santa Rosa do Purus, onde fiquei por um ano”, diz. Saindo do Exército, ingressou na residência médica, em 2005, onde passou a ter convívio com os colegas que hoje são sócios.

“Desde essa época da residência, temos esse convívio. Trago o conhecimento de qualidade que também observei nos outros hospitais para que a gente possa acrescentar aqui. Fui aluno do diretor dos Hospitais Privados do Brasil. Vi a diferença de postura, em poder associar a boa medicina a uma boa hotelaria, hospedagem, que também implica na melhora do paciente. Todo mundo traz um pouco da sua vivência fora”, afirma.

Os pais de Ednaldo Silva são acreanos, mas ele é natural de Porto Velho (RO) e também veio bem jovem para o Acre. Silva se ausentou para estudar em Cuba, no ano de 2002. Chegando aqui, fez a revalidação de seu certificado em 2004. “Trabalhei por dois anos no interior do Amazonas. Vim para Rio Branco devido a um concurso público em 2004. Trabalhei até 2007 e fiz a residência de cirurgia-geral com o preceptor Ricarte e Sidney. Enquanto isso, David estava na residência de oncologia”.

Trabalhou realizando transplantes em São Paulo e também no Acre. Seguiu para oncologia em 2013. “Retornei para Rio Branco em 2015. Quando cheguei, encontrei Ricarte, Davi e Sidney, que já estavam com a ideia do hospital”.

David conta que, a princípio, o hospital seria uma clínica só de consultórios, até perceberem a necessidade de a cidade ter um ambiente melhor, hotelaria melhor para os pacientes. “Com isso, a gente idealizou a criação do hospital e convidei os três para participarem disso. Prontamente, aceitaram. Um sonho idealizado e compartilhado com eles três. Com esse apoio, nós chegamos onde estamos”, comemora.

Previous
Next
error: Este conteúdo é protegido.