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Nascidos no Purus, irmãos fazem do Arasuper um dos 50 maiores grupos do país

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Nascidos e banhados pelas águas do Rio Purus, no interior do Acre, os irmãos Araújo não imaginavam que uma simples mercearia de madeira daria vida a uma rede de supermercados composta por 14 lojas e integrante das 50 maiores empresas do setor no ranking da Associação Brasileira de Supermercados. Foi o pai, Adelziro Romão da Silva, que inspirou os filhos ao abrir um pequeno comércio no seringal Santa Cruz, em Manoel Urbano, na função de seringalista.

Mas foi em 1981, com a vinda de Aldenor Araújo da Silva para Rio Branco, que começou a trajetória de mais de 40 anos da maior rede de supermercados do Acre e uma das oito maiores da Região Norte – a Arasuper. O nome do empreendimento [antigo Araújo] foi alterado recentemente por questões estratégicas. O pequeno negócio de Aldenor, irmão mais velho de Adem Araújo da Silva, foi uma espécie de semente plantada pelo pai.

“A gente nasceu no Rio Purus. Lá, ele [o pai] tinha um pequeno comércio seringalista, que atendia os seringueiros. Eu tinha 13 anos quando meu irmão [Aldenor] começou sozinho o negócio na capital quando a gente veio para a cidade”, explica Adem, hoje, sócio do irmão. “Quando a gente completava 12 anos, nosso pai nos mandava para a cidade para estudar”.

Os pais dos irmãos Araújo ficaram pelo seringal até 1983, quando o comércio da borracha já não estava rendendo grande coisa, e decidiram mudar também para a cidade. “Viemos para Rio Branco. Meus irmãos mais velhos já tinham ido para Sena Madureira, mas quando vim, foi direto para a capital”, conta Adem, destacando que possui 12 irmãos, após o 13º ter falecido.

Antes de ingressarem com o mercadinho, Aldenor e Adem trabalharam de várias outras formas para ganhar dinheiro e manter o sustento. Ainda garoto, Aldenor foi funcionário de uma marcenaria, onde fazia móveis. Depois, foi vendedor na antiga Lojas Pernambucanas e, de lá, saiu para montar seu comércio no bairro Estação Experimental, o primeiro de muitos que viriam nos anos seguintes.

O comércio foi montado em 1981. A loja tinha cerca de 200 m² e vendia basicamente produtos da cesta básica, como arroz, farinha e feijão. Adem relata que naquela época havia muita dificuldade de abastecimento no estado, em conseguir produtos. “O hortifrúti, por exemplo, raramente chegava, pois não tinha essa cultura de consumo. No mercado municipal tinha já o cheiro verde, alface, couve, mas tomate, cebola, batata, era muito raro ter isso naquela época, principalmente durante alguns períodos do ano”, salienta.

Na época da seca, alguns produtos chegavam com mais frequência, mas nas chuvas, quando chegavam, vinham de avião, graças a empreendedores visionários que já faziam isso. “Mas na época, esses produtos eram inacessíveis para muita gente, por isso a gente começou vendendo só o grosso”, diz o empresário.

Em 1983, Aldenor conseguiu estruturar melhor a loja do bairro Estação Experimental e em seguida comprou um terreno na região do Tangará, onde fica uma das lojas até os dias de hoje. Esta foi meio que um protótipo do que é atualmente o Aramix, uma loja de atacarejo. “Já no final dos anos 80, a loja do Tangará já trabalhava com atacado e varejo. Chamávamos de “chincado”, que era o produto que você embalava ele em muitas unidades”, diz Adem.

Adem entrou de fato no negócio do irmão no ano de 1990, quando ele tinha 22 anos e Aldenor 28 anos. “Ele [Aldenor] passou uma lojinha para mim e ficou com a outra. Para mim, ficou a lojinha da Estação e ele ficou com a do Tangará. Eu fiquei dois anos nessa mercearia e depois expandi para outro lugar maior, também no bairro Estação Experimental”, destaca.

O empresário revela que em 1992 se tornou sócio do irmão, para então construir a loja situada na região da Isaura Parente. “Ali nós montamos juntos, já com uma concorrência bastante acirrada na época, pois havia o Gonçalves, já com uma boa loja e isso exigia um pouquinho mais de conhecimento do negócio, um negócio mais estruturado, porque já tinha uma boa loja aqui em Rio Branco”, diz o empresário.

Conhecimento na prática

A maior parte do que os sócios têm de conhecimentos sobre o ramo de supermercados veio da prática, sem muitas instruções. “Sempre participamos muito de eventos de associações. A gente se envolveu com a associação de supermercados muito cedo. No começo de 1990, já fomos participar das associações e isso abriu muitas portas para que a gente pudesse interagir com outros supermercadistas do Brasil inteiro”, esclarece Araújo.

Durante o envolvimento com as associações, os irmãos puderam enxergar como empresas de grande porte já trabalhavam, como conduziam o serviço da padaria, do açougue, e conheceram muitos parceiros, o que possibilitou aos sócios uma evolução significativa no quesito conhecimento à época, trazendo novidades e inovações para o Acre.

Dificuldades

Em 1991, quando montaram a loja da Isaura Parente e passaram a ser sócios, os irmãos puderam ver de perto como é difícil o ramo de supermercado. “Passamos por muitas dificuldades antes dos anos 90 por conta dos planos econômicos que impuseram na época. Tivemos o Plano Verão, o Plano Collor, que foi extremamente devastador e quebrou muita gente, que foi quando resgataram todo o dinheiro que tinha em conta corrente. Quem tinha negócio, contas a pagar, podia usar, mas sacar não podia. Foi um problema muito sério”, relembra Adem.

Os anos mais difíceis para eles foi exatamente esses, em que a inflação muito alta fez com que os empresários fossem pressionados por uma política de governo tida como ineficiente, onde o empresário é que pagava a conta. “Congelavam o preço e você não podia alterar no varejo. A Sunab, que hoje é o Procon, tinha mais poder e prendeu muitos empresários. Muita gente foi pressionada, muitos tiveram de sair do mercado naquela época, foi o momento mais difícil com esses planos, no final de 80 e início de 90”, lamenta o sócio.

Uma empresa familiar de sucesso

Passados os piores momentos, a rede cresceu e se tornou a maior do segmento no estado. Hoje, os irmãos são proprietários de 14 lojas, sendo 12 de varejo e 2 exclusivamente para atacarejo. Em Rondônia há 3 das 14 empresas, sendo 2 de varejo e 1 de atacarejo. Ambos têm quase 3 mil funcionários espalhados pelas dezenas de supermercados. Bem diferente do início, quando os irmãos atuavam somente com mais três pessoas nos pequenos comércios, entre eles outro irmão também.

Questionado se imaginavam a grandiosidade que viria após muitos anos de trabalho, Adem afirma que ainda não dá para considerar o que construíram como um grande império. “Não percebemos isso ainda não, mas olhando para trás, com o poder de Deus, a gente conseguiu atingir isso aqui. A gente começou basicamente sem conhecimento no negócio e aprendendo com os erros. Hoje nós estamos entre as 50 empresas do setor no ranking a nível de Brasil, pela nossa forma de trabalhar, parcerias com bancos e tudo mais”.

No Norte, as lojas Arasuper competem com outras gigantes do segmento nos estados do Pará e Amazonas. “A gente sabe que hoje temos uma responsabilidade muito grande, principalmente na questão de geração de emprego, contribuição de encargos. Temos uma participação muito grande em arrecadação de ICMS. Mas sambemos que a responsabilidade é muito grande pelas famílias que a gente emprega”, ressalta Adem.

Mais expansão

Os sócios pretendem expandir ainda mais os negócios. A rede, que já é grande, possui muitas vidas que dependem de sua existência, e quer alcançar voos mais altos. “Isso é natural, em qualquer negócio, segmento, pois você tem de estar crescendo para poder sobreviver. É a lei da sobrevivência. Nós precisamos ser competitivos porque cada vez mais entram empresas multinacionais aqui no estado”, destaca o irmão. Segundo Adem, Acre e Rondônia são estados que veem sendo muito bem vistos pelas multinacionais. “Se você não estiver preparado ou não tiver escalar para competir com esses concorrentes, não consegue sobreviver”, assegura.

Com a exigência dos clientes cada vez mais inserida no serviço, por melhor atendimento, produto e qualidade, o Arasuper decidiu ainda valorizar o preço. “Para nos diferenciarmos das multinacionais, nós nos especializamos. Buscamos, além de agregar profissionais com experiência na área comercial, operacional, estreitarmos parcerias com fornecedores porque o mesmo fornecedor que me atende, atende eles [multinacionais], mas nós temos um custo menor, temos também flexibilização para fazer negócio”.

Segundo o empresário, as grandes redes dependem de uma política interna muito sedimentada, pois até que as mudanças cheguem ao estado, perde-se a oportunidade para a concorrência. “E a gente não perde essa oportunidade por estarmos dentro do negócio, sermos uma empresa regional, a gente consegue ser bem competitivo com preço e serviço “, garante.

Diferencial com os funcionários

A rede decidiu inovar no trato com os funcionários e consumidores. Os irmãos sócios criaram ainda em 1999 uma nova filosofia relacionamento com os clientes, para tratá-los como gostariam de serem tratados. “Um ou outro funcionário destoa, mas a gente tenta fazer com que ele entenda essa filosofia e a maioria a incorpora”.

O diferencial com os funcionários fica por conta das inúmeras capacitações, relações humanas, ajuda de custo de alimentação, alimentação no trabalho, entre outros. “Fizemos parcerias com empresas de assistência médica. As pessoas que trabalham conosco, independente da função, têm alguns benefícios, principalmente na questão da ajuda de custo, que é um crédito, um cartão onde ela pode comprar determinado valor por mês”, explica Adem.

Pandemia

A instalação da pandemia do novo coronavírus também gerou impactos na rede Arasuper. “Praticamente tivemos que nos adequar a algumas situações que não eram comuns. O impacto inicial foi conseguir essa adequação de poder deixar o cliente tranquilo de que ele não estaria correndo risco na loja, de que teria segurança em comprar um produto que é manipulado internamente”.

O empresário salienta que foi preciso um trabalho diferente nesse período, com maior cuidado na segurança do alimento, distanciamento entre os funcionários, utilização de máscaras e álcool em gel. “Diminuímos o fluxo interno nas nossas rotisserias,  e a compra dos EPIs elevaram um pouco o custo. Agora a gente já consegue ter isso como natural, já parte da rotina, mas no início foi bem difícil. Até os carrinhos mudamos para plástico porque os produtos de limpeza estavam fazendo corrosão”.

Adem conta que houve um momento em que algumas pessoas temeram o desabastecimento e corriam para os supermercados de uma só vez. Segundo ele, a pandemia trouxe um aumento de preço extremamente violento. “O poder de compra do consumidor reduziu muito. No início, aumentou o consumo de alguns produtos básicos como arroz, leite, açúcar. Depois muitos países tiveram problemas na produção de grãos. O dólar aumentou a cotação, e muitos produtos dependem dessa cotação, o que acabou implicando no preço. Hoje o consumidor e nós estamos pagando a conta. Esse problema certamente aumentou o número de miseráveis no país”, destaca Adem.

Ele acredita que a rede só conseguirá retomar o mesmo ritmo de contratação e vendas de antes da pandemia daqui mais uns três anos. “Nós não demitimos na pandemia, mas não contratamos nesse mês de março, por exemplo. Nos quatro finais de semana que fecharam as lojas, não teve hora extra, não teve folga no domingo e tivemos funcionários ociosos. As demissões que ocorreram nesse período não foram repostas. Só viemos repor a partir de abril. E isso não aconteceu só conosco”, afirma.

Ações sociais

A rede é uma das mais procuradas e participativas quando o assunto é ação social. O Arasuper possui um trabalho bastante interessante. “Temos parcerias com muitas igrejas, entidades e instituições que mensalmente temos uma destinação direta de alimentos. Temos ainda apoio a escolinhas de futebol em diversos bairros de Rio Branco e ajudamos essas crianças mais carentes, fora as doações de sacolões que a gente ajuda bastante”.

Apesar de não ser muito ativo em redes sociais, Adem diz que sua equipe sempre acompanha as novidades na internet e sempre está verificando o que é falado em nome dos supermercados nas redes. “Eu pessoalmente não, mas nossa equipe sempre. Eu vejo algumas coisas, como críticas e elogios, e é natural, a gente que é vitrine vai sempre levar pedra, acompanhamos algumas situações assim”.

ELE É O CARA – Se você leu até aqui, deu para perceber que o principal interlocutor do Arasuper é Adem Araújo. E isso tem muito a ver com a personalidade dos irmãos sócios. Aldenor, mais discreto e cuidador dos negócios, deixou ao Adem o papel de comercializar pessoalmente o negócio da família. “Em 1987 a gente começou a fazer propaganda por iniciativa minha. Começou no rádio, depois veio a TV, com meu lado comercial, de divulgar. Depois misturei um pouco o marketing. Quando tinha que dar uma entrevista, lá ia eu. Foi uma coisa mais natural, sem imposições”.

A paixão pelo futebol

Adem não esconde sua paixão pelos gramados. Antes de pensar em gerir um supermercado, sonhava na adolescência com o futebol. “Eu só queria saber de jogar bola, vim mesmo ter de trabalhar quando saí do Exército, em 1988. Sempre trabalhei, mas foi nessa época que vi que o futebol não seria meu negócio, muito pela nossa origem. Como trabalhamos desde criança, nunca pensei em concurso, não sabia nem o que era isso. Saí do exército e tinha que me virar”, explica.

Após o ensino médio, quase ingressou no curso de tecnólogo e história, mas o plano não foi para frente. “Quando chegaram as faculdades particulares, fiz Administração, entrei na segunda turma, em 1999”. Porém, como sempre foi um verdadeiro amante do futebol, com o tempo foi se atrelando ao esporte.

“Fiz algumas amizades e um amigo que entrou para o futebol pediu ajuda. Demos a ajuda e depois vieram outros clubes. Começamos a ajudar o Rio Branco também. Em 2005 arrendei e montei o time do Adesg, montei o estadual. Contratei, demiti, montei um time, mas depois fique meio frustrado e larguei”, conta.

No ano de 2012, se tornou diretor e vice-presidente do Rio Branco. “Montamos um super time para chegar a série B, mas por um problema na justiça, tiraram a vaga do Rio Branco, após uma infração cometida em 2011 contra o estatuto da CBF”.

Hoje, o principal parceiro do Arasuper no futebol é o Galvez. “Nosso estado é pequeno, poucas empresas hoje têm condições de ajudar. Sonho com um time que dispute a série B um dia, mas não podemos bancar sozinhos”, relata, afirmando que ao longo dos anos fez relacionamento com empresários de futebol, presidentes de clube pelo Brasil inteiro.

“Faço compras para o almoço de domingo”

Como todo morador de Rio Branco, Adem também tem a sua loja do coração entre as 14 do grupo. “É onde eu gosto de fazer compras, onde eu gosto de ir, até porque eu moro lá perto, que é a da Isaura Parente. Na verdade, lá é a matriz, pois quando entramos no varejo mesmo, aquela foi a primeira. Eu gosto de lá pela localização”, garante.

Apesar de sua esposa ser a pessoa que mais faz as compras no supermercado, ele diz que utiliza muito o site da Arasuper. “Mas eu faço as compras do almoço do domingo”, brinca.

Relação com clientes e conselhos

Basta Adem Araújo passear pelos corredores que várias pessoas vão se aproximando. Seja um conhecido, um cliente, sempre recebe demonstrando humilde. “Sempre vejo como está a loja, como está o serviço. Vejo muitas falhas quando estou na loja. Conheço muita gente, tenho muitos amigos. Às vezes a pessoa vem tirar uma dúvida, reclamar de alguma coisa e a gente tem que ouvir”.

Ao observar qualquer falha, procura o gerente. “A gente mudou bastante nos últimos anos. Para ser gerente hoje exigimos uma formação ou aqueles que já estão na empresa incentivamos a estudar”. Ele credita o sucesso da rede a Deus. “Certas situações que a gente passou, enfrentou, não tem outra explicação que se não fosse pela vontade dele, não estaríamos aqui”, salienta Adem.

Ele afirma ter ouvido a frase de Jorge Viana enquanto governador de que ele e o irmão eram “exemplo de que 1 em 1 milhão dava certo”, pela origem humilde, e concorda. “Nós não nos envolvemos em política. Quem estiver no governo a gente vai apoiar, torcendo para que dê certo”.

Hoje, pai de quatro filhos, Adem deixa o seguinte conselho àqueles que pretendem percorrer o mesmo caminho dele e do irmão. “Dedicação. Se você não se dedicar, não tem como a coisa funcionar. Às vezes a pessoa quer montar um negócio e deixar os outros tocarem. Por mais que seja pequeno, tem que se dedicar. Buscar conhecimento sempre, estar dentro do negócio, envolvido”, conclui.

Gente - Economia e Negócios

Há 23 anos surgia Os Cobras Dance, grupo que carimbou o Acre na cena musical por gerações

Grupo fez com que o Acre se tornasse a capital do dance nacional e referência na cultura de rua

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Se você não é um dos millennials, geração de pessoas nascidas entre 1980 e 1995, provavelmente não vivenciou um dos maiores fenômenos artísticos que o Acre já teve. Ainda assim, deve ter ouvido falar (e muito) sobre Os Cobras Dance. As chamadas “Gerações Z e Y” recordam com saudosismo a época em que a música autoral acreana ganhou palcos e espaços midiáticos Brasil afora com o hip hop, o rap e a dance music lançada pelo trio Silvio Alves da Silva Neto, Samyron Andrade e Delcimar Mesquita (que converteu-se ao Evangelho e deixou o grupo há um ano).

O sucesso foi estrondoso e ultrapassou barreiras que nem mesmo os músicos imaginavam um dia alcançar. O trabalho que Neto, agora com 50 anos, e Samy, de 48, sustentam até hoje foi idealizado em junho de 1998 na capital acreana. Antes disso, eles já integravam há mais de 10 anos um coletivo que atuava em prol da evolução do Hip Hop na cidade. Tanto que anos depois o grupo consolidou o estado como um dos berços do movimento organizado no país, inclusive com aprovação de leis. Foram cerca de 9 mil cópias de CDs vendidas. Se somar a venda de pirataria, o resultado triplica. Na época, o disco original de Os Cobras Dance era vendido nas lojas por R$ 35 reais e nenhum acreano havia agradado tanto.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O fato é que Os Cobras Dance conseguiram viver da própria música e ditaram moda por muito tempo. Até hoje o grupo tem shows marcados dentro e fora do estado, fazendo parte da vida de pelo menos três gerações de acreanos. Quando começaram, cada um tinha cerca de 23 anos e a ideia era fazer um estilo de música que era febre na época: o dance nacional. “A gente queria agregar o nosso estilo de dança, de se vestir, de se apresentar na sociedade, e com isso ganhar uma grana. Nós já vínhamos do Hip Hop, mas ele em si não tem quase lucro. Aí sentei com o Neto e com o Delcimar para conversar, já que fazíamos parte de um coletivo de dança break e éramos vizinhos”, conta Samyron.

Foi aí que deu início à trajetória dos “Cobras”, que escolheram esse nome em referência a uma gíria que representava algo bom, bem feito, profissional. Antes da carreira musical, o trio também já se chamou “Os Cobras de Rua”. Segundo eles, o dance veio pela música eletrônica a fim de difundir o trabalho nas casas noturnas e valorizar o Hip Hip, movimento universal que une cinco elementos culturais da rua: a dança break, o grafite, o Rap, o DJ e o conhecimento.

“Morávamos nos bairros Esperança e Mascarenhas de Morais. O Neto fez a primeira música (Não dá Pra Namorar), em seguida a “Me Chama de Galinha”, eu já estava encaminhando outra (Cara de Bundão) e Delcimar também fez uma. Aí fomos ver os custos [para produzir]. Aqui ainda não tinha o serviço de produção de música, então tínhamos que ir para Manaus ou Porto Velho”, relata Samy. Como os custos no Amazonas seriam maiores, o grupo decidiu ir para Rondônia.

O drama para o primeiro CD e início do sucesso

Concretizar o sonho da primeira produção musical não foi fácil para Os Cobras Dance. Assim que chegaram à capital vizinha, fizeram pesquisa de preço e o trabalho não sairia por menos de R$ 6 mil. Mas só em chegar a Porto Velho já foi uma verdadeira operação de guerra para eles. “Fomos de carona. O custo total para produção era muito dinheiro naquela época, fora alimentação e estadia. Aí voltamos para Rio Branco e fizemos uma lista com todos os nossos amigos”, contam.

A lista era para ver quem poderia ajudar o grupo a se manter em Rondônia até que o CD ficasse pronto, período que durou aproximadamente seis meses. Amigos, familiares e até fãs que eles já tinham conquistado se prontificaram a doar R$ 3, R$ 5, R$ 10, até quilo de farinha, arroz, feijão, rede, colchão etc. “Fomos para lá em junho e terminamos em janeiro de 1999, quando voltamos ao Acre. A primeira música a ser tocada na rádio foi a que estourou e puxou as outras, a Não dá para Namorar. Fizemos um LP com nove músicas”.

Neto percebeu que Os Cobras Dance estavam fazendo sucesso de verdade quando os moradores de Rio Branco começaram a gostar e pedir as músicas nas rádios. “As rádios começaram a pedir para a gente mandar as músicas pra elas. Taxistas, camelôs tocavam demais também”. Rapidamente as canções dos Cobras estouraram por boa parte da Região Norte, fazendo com que o estúdio musical que produziu o CD virasse uma referência no ramo. Boa parte desse sucesso se deve à ousadia dos integrantes. Eles resolveram comprar 300 fitas e gravar as músicas para entregar aos vendedores ambulantes do calçadão e taxistas. “O trabalho de mídia social que as pessoas fazem hoje na internet, a gente fez na mão. A divulgação por táxi deu muito certo”, brinca. Uma semana depois, só se falava em Cobras Dance.

Dessa forma, o Acre passou por muito tempo sendo a capital do dance nacional. “Todos os grupos queriam vir aqui para, além de conhecer a gente, saber mais do nosso estado. E a gente começou a fazer shows em outras capitais, até internacionais, como Bolívia, Peru e quase fomos a Portugal, só não deu certo porque faltava passaporte e iria demorar para tirar”.

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Muitos dos empecilhos que surgiram para o grupo podem ter acontecido por falta de um empresário. Eram eles que cuidavam de tudo sozinhos, na maioria das vezes, com pouco tempo. “Mesmo assim a gente nunca deixou de fazer show. Uma coisa que era pra ser um hobby, um momento de lazer, se transformou na nossa principal fonte de renda. Até hoje temos isso como renda, temos shows marcados”, declara Neto.

Rotina exaustiva e mais de 50 hits

Passado o sufoco de se estabelecer na cena musical, veio um novo desafio. Acostumar-se à nova rotina era um exercício quase que diário para o grupo, que já não conseguia passar datas comemorativas com a família, nem mesmo triplicando o valor do cachê aos contratantes.

“Era uma euforia. A gente tinha agenda lotada por quatro meses seguidos, com shows de quarta a domingo, às vezes com até três apresentações no mesmo dia. Rodamos o Acre inteiro, Rondônia, parte do Amazonas e Mato Grosso”, detalha a dupla. Desde que subiram ao palco pela primeira vez, num Dia das Mães em maio de 99, nunca faltou proposta para show (exceto no momento de pandemia da Covid-19). Mesmo com dificuldade para chegar ao interior do estado, eles enfrentaram sol, chuva, lama e até viagem em canoa pelos rios.

“A gente chegava a perder até 4 quilos por semana por causa da correria. Era aproximadamente um quilo que a gente gastava por show. A gente dançava muito, era uma hora e meia cantando e dançando”, diz Neto. Entre as músicas mais marcantes dos Cobras Dance estão: Não dá Pra Namorar, Cara de Bundão, Me Chama de Galinha, Baby e Te Cuida Valentão. Ao todo, o grupo tem 56 músicas autorais. “É um dos únicos aqui do Acre que sai para fazer show com músicas autorais que fazem sucesso até hoje. É nossa marca registrada. Os contratantes sabem que a gente leva o que é nosso, divulgando nosso estado. Fora do Acre fazíamos questão de dizer de onde viemos, sempre elevando nossa origem”.

Neto e Samyron são reconhecidos até hoje nas ruas. Segundo eles, Os Cobras já estão na terceira geração de público. “Já fizemos shows em que estavam pai, filhos e neto. Aniversário de 15 anos incontáveis, festas de casamento, noivados. É um reconhecimento e carinho muito bom. Continuamos com esse trabalho de resistência e resgate positivo do hip hop para juventude”. Fora a música, são mais de 35 anos de vida dedicados ao coletivo, ao trabalho na rua, no mecanismo da música.

Apresentação no Ratinho e a pandemia

Recentemente eles atingiram o ápice ao se apresentarem no Programa do Ratinho, em exibição nacional. Ainda com a formação original, Os Cobras Dance participaram do quadro “É Dez ou Mil” no SBT, sendo tão bem avaliados pelos jurados do quadro que levaram o prêmio máximo de R$ 10 mil.

Os acreanos cantaram a música “Não dá Pra Namorar”.

Para eles, foi um verdadeiro divisor de águas. “O problema foi a chegada da pandemia do coronavírus, porque aquela apresentação deu uma visualização grande pra gente. A gente saiu de lá já com muitos shows marcados”, disseram, tendo que cancelar por causa da doença.

Antes deles, nenhum outro artista acreano havia se apresentado num programa de renome nacional e ainda levar um título. ” E o mais interessante é que só participa por indicação de outro artista. E fomos os únicos a cantar música autoral”.

Como vivem e o que esperam do futuro

Mais da metade da vida de Neto e Samy foi dedicada ao Cobras Dance. Eles conseguiram o feito que poucos alcançaram e hoje ainda usufruem do que sobrou de legado do grupo. “Seguimos fazendo renda com a música, claro que não é mais a nossa principal renda agora, mas continuamos na luta para dar continuidade a esse legado de romper gerações e também pelo nosso prazer”. Os admiradores estão por todos os lugares, seja reconhecendo-os na rua ou nas redes sociais mostrando CDs que ainda guardam. “Muita gente dessa geração conhece nossas músicas, mas às vezes não sabe quem canta, então fazemos o trabalho continuar. As pessoas nos ligam de vários estados dizendo que estão nos ouvindo. Isso é muito gratificante”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

Os integrantes fazem outros tipos de trabalhos atualmente, como especialidades em informática, que também o ajudam na música. Neto revela que o primeiro site a levar o nome dos artistas a nível mundial foi o Palco MP3. “Fomos pioneiros a entrar nessa plataforma em 2007/08 e passamos mais de seis meses em primeiro lugar na Região Norte, Centro-Oeste, e em 10° lugar do nosso estilo a nível nacional. As pessoas ligavam de vários estados querendo assistir nossos shows”.

Para eles, o som propagado pelo Cobras Dance é raiz do Norte do Brasil, mas que toca em outras regiões até hoje. “Ainda temos muito o que fazer. Não temos nenhum clipe ainda, nunca fizemos uma live. Sempre recebemos mensagem perguntando e cobrando e vamos fazer. A gente rompeu barreiras. Às vezes a gente encarava muito trabalho só pelo fato de se apresentar, mesmo sem ganhar o valor cobrado. Quando você faz uma coisa pensando só no trabalho, se der alguma coisa errada você desiste. A gente não, a gente estava se divertindo. Se desse errado a gente encarava do mesmo jeito”, destacam.

Samyron relembra que mesmo estando com um público de 10 pessoas ou de 10 mil, o show sempre era e sempre será o mesmo. “Já chegamos a fazer um show numa casa noturna que estavam só os seguranças lá. A gente entendia, reduzia o cachê ao contratante. Falhamos nosso sucesso sozinhos. Temos que agradecer sempre a Deus e a nossa família. Pai, mãe, irmãos, sempre nos deram apoio. Mas empresários, o poder público em geral nunca chegaram. Sempre fomos profissionais, mas nunca misturamos trabalho com política. Fazíamos muitos comícios, mas era contrato, era trabalho”.

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O Hip Hop como salvação de vidas e legado aos filhos e netos

Fazer hip hop nunca foi difícil, complicado mesmo era organizar o movimento. E essa organização no Acre tem muito trabalho de Neto, Samy e Delcimar. Eles começaram com o hip hop organizado no final dos anos 80. No Brasil todo, só três estados têm esse movimento organizado com leis e graças aos Cobras e demais membros de coletivos, o Acre é um deles. “Nosso grupo é referência, é a velha escola desse movimento. O break hoje é o mais novo esporte olímpico. Por isso, já estamos organizando a Federação Acreana de Break Dance. O que em 2024 vai ser um esporte olímpico, nós já fazíamos 30 anos atrás na rua”.

A possibilidade de um menino da periferia conseguir ser campeão mundial é o que move e sempre moveu o hip hop. Sem dúvidas, Neto e Samyron querem passar o movimento para os filhos e netos. “Na verdade já está sendo passado de geração em geração. Os Cobras Dance é padrinho de mais de 15 grupos e bandas do mesmo estilo e de outros, tanto daqui do Acre quanto de Manaus, Porto Velho. Muita gente começou através de nós. Fazer música autoral hoje em dia e fazê-la expandir é difícil. Foi um trabalho nosso de muito tempo”, afirmam.

A falta incentivo do poder público é o que mais tem prejudicado essa classe artística, lamentam os músicos. Por isso, a linguagem em forma de música e outras artes aproxima a comunidade. “A gente sabe como funciona o sistema. A periferia é 70% da população. A gente fala diretamente com os desfavorecidos. Não somos só artistas, temos que passar algo que eles possam absorver também, não é só diversão. No intervalo das músicas, num show de 1h30 e 30 músicas, cantamos músicas conscientes, para informação. Mostrando sempre a importância de jovens do subúrbio, que é de onde nós viemos”.

Neto garante que a música do grupo livrou muitos jovens das drogas. Ele também rebate o boato de que os Cobras seriam usuários: “nunca usamos nada. As pessoas ofereciam pra gente. Até empresários mesmo, mas isso nunca foi nosso estilo. Muitos grupos que surgiram depois da gente eram de jovens que não tinham o que fazer, mas que se uniram pelo exemplo dos Cobras. Hoje são pais de família de bem. Foram correr atrás do sonho e não de fazer besteira. Eles cantavam, dançavam, se divertiam. Os pais desses rapazes hoje dão graças a Deus pelos filhos que tem. Se o poder público olhar para a periferia e cuidar um pouquinho deles, a gente consegue mudar a vida de muita gente”, conclui.

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A Rainha do Tijolo do Juruá

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Foto: Felício Muniz

A empresária Janaína Verbena Gonçalves Terças, 43 anos, representa a terceira geração do ramo de cerâmica em Cruzeiro do Sul. O avô, o português Manoel Terças, começou o negócio na década de 30 do século passado. O pai, Joaquim, montou a própria olaria em 1985, empreendimento que foi assumido, reformulado, ampliado e modernizado por Janaína, que em 2013, inaugurou uma nova empresa, em outro local, com produção automatizada.

Edificações relevantes para Cruzeiro do Sul, como a Catedral Nossa Senhora da Glória, o 61° Batalhão de Infantaria e Selva, Maternidades, Hospitais do Juruá e de Campanha, Aeroporto e Quartel da Polícia Militar, têm a marca das três gerações de produtos da família Terças.

No Centro, a olaria já estava rodeada de casas e não tinha espaço para expansão, produzia muita fumaça e o barro do local não era adequado para a fabricação de tijolos. Ela e os pais, que, são separados, mas trabalharam juntos, seguiram para o novo endereço na Estrada da Boca da Alemanha em uma área de 32 hectares. No centro só ficou um escritório de vendas.

Ela cita que a decisão de ficar à frente da gestão da empresa foi tomada em conjunto com os pais e irmãos e que segue combinando tudo com o pai, que é um profundo conhecedor do setor cerâmico. Os funcionários também a apoiam na gestão, sendo que 70 por cento dos 30 funcionários estão com a família desde o início da cerâmica na década de 80.

A fabricação arcaica e manual de tijolos foi substituída por uma nova forma, com o uso da tecnologia. O salto qualitativo fez toda a diferença para a empresa, que se mantém entre as três grandes indústrias do ramo na região.

Janaína e os irmãos trabalham com o pai desde a adolescência e a experiência adquirida, além da criação liberal, que sempre teve, foram fundamentais para que ela liderasse o negócio com sucesso. Ela é a rainha do tijolo do Vale do Juruá.

“CRESCI NO BARRO COM MUITO ORGULHO”

O fato do pai, Joaquim Terças, tê-la levado desde pequena para o barreiro da olaria, ter ensinado sobre a liga do barro, dirigir máquinas pesadas e dizer que ela pode fazer qualquer coisa, fez toda a diferença na vida da empresária que agora comanda os negócios da família. Ela conhece cada etapa da confecção dos tijolos da Cerâmica Terças, em Cruzeiro do Sul. Conhece o produto que vende quando ainda é só barro no chão, a passagem pelo forno, a queima, até virar paredes de casas, prédios e ruas da cidade e nas outras 4 cidades do Vale do Juruá.

“Eu cresci no barro, gosto do barro, da cor do barro, da forma como ele se transforma. Não me imagino em outro negócio. Esse é meu ramo. O suor de todos da Cerâmica Terças, há 3 gerações está em muitas casas, ruas e muitos prédios públicos de Cruzeiro do Sul”, afirma a empresária, que deixou de lado o modo arcaico de fazer tijolos, modernizou todo o processo de confecção que era lento, pesado, com muito custo e automatizou a indústria. Com o uso da tecnologia, impulsionou os negócios e o que produzia de tijolos em um mês agora consegue em uma semana.

Foto: Felício Muniz

A dedicação aos negócios é total. Janaína, o pai e a mãe, Dona Graça, passam o dia na olaria. Chegam ao local às 7 horas da manhã, almoçam e só saem às 17 horas. Ela tem um quarto no local, onde descansa com a mãe cerca de uma hora depois do almoço. Só depois que o neto Joaquim nasceu, parou de trabalhar aos sábados para ficar com o bebê, que mora na casa dela.

“Sou a terceira geração da empresa, então tinha que melhorar tudo. Meu avô assumiu a olaria do tio Manoel Pedreira no começo do século passado. Em 1985, meu pai abriu a própria olaria. Em 2010 voltei para o Acre e vi que a empresa estava atrasada, estava instalada no lugar errado e então resolvemos mudar de local, onde o solo é adequado. Saímos do centro de Cruzeiro do Sul para a estrada da Boca da Alemanha, em uma área de 32 hectares. Como eu e meu irmão tinha viajado e conhecido outras empresas, resolvemos modernizar tudo. Nosso processo era arcaico. Era a maromba funcionando, os trabalhadores pegando com a mão e correndo com carrinho de mão, subindo e descendo pequenas vielas feitas de tábua e arrumando os tijolos nas prateleiras. A produção era pequena com custo elevado. De 2010 a 2013, trabalhamos o projeto dessa nova cerâmica, os licenciamentos, maquinários novos. Hoje nosso processo é todo automatizado, a máquina faz tudo: produz os tijolos, coloca nas vagonetas seguindo pra a secagem e, em seguida, os tijolos são cozidos. A tecnologia diminuiu a mão de obra e aumentou a produção e o que a gente produzia em um mês, agora produzo em uma semana”, relata.

Uma das grandes preocupações de Verbena é a manutenção do padrão de qualidade do produto fornecido pela família há 3 gerações. Cumpre rigorosamente a legislação vigente e atende às exigências das esferas municipal, estadual e federal. “A legislação é pesada e demanda tempo, dinheiro e mão de obra especializada. Temos que ter engenheiro de minas, ambiental e geólogo. Tentamos trabalhar de acordo com a legislação vigente”.

FAMÍLIA TERÇAS FAZ PARTE DA HISTÓRIA DE CRUZEIRO DO SUL

A história da família Terças se mistura com a de Cruzeiro do Sul e demais municípios do Vale do Juruá. São mais de sete décadas, produzindo os tijolos que construíram as casas, os prédios públicos antigos e os modernos, além das ruas do município.

Na década de 30, o português Manoel Terças, comprou do tio, Manoel Pedreira, a primeira olaria da região e deu continuidade ao negócio, que Joaquim Terças fez crescer e Janaína automatizou.

O desenvolvimento da empresa acompanhou o crescimento da região e as telhas, tijolos e outros itens da família Terças estão presentes nos primeiros prédios de alvenaria de cruzeiro do Sul, como o antigo fórum, a associação comercial e a edificação símbolo do município, que é a catedral Nossa Senhora da Glória, a padroeira da cidade, que começou a ser feita em 1957, pelos padres alemães e foi inaugurada em 1965. A primeira catedral foi construída em madeira, porém, por não oferecer segurança aos fiéis acabou em desuso.

Além da catedral, Manoel Terças forneceu itens de material de construção também para outros prédios da cidade como a associação comercial, fórum, correios, mercado central (atual Mercado Joãozinho Melo), 7° BEC (atual 61 BIS).

Foto: Felício Muniz

Edificações mais recentes, mas não menos importantes, também levam a marca Terças, já na gestão do pai Joaquim e de Janaína, como o antigo e o novo aeroporto de Cruzeiro do Sul, o antigo Hospital Geral, onde funciona agora a maternidade e Hospital da Criança, Hospital do Juruá, Hospital de Campanha, Abrigo do Menor, Quartel da Polícia Militar, antigo quartel da Polícia Militar, onde funciona atualmente o Hemonúcleo.

“Dá orgulho ver os tijolos feitos pelo meu avô, meu pai e, agora, por mim. Tenho um enorme prazer em ver o início de uma obra e depois passar e ver pronto um lugar que vai abrigar uma família ou um local público. Nossa marca está em muitos locais daqui”.

Ela gosta do tradicional. Mora na casa feita pelo avó Manoel Terças na década de 40, com os tijolos produzidos por ele e, onde o pai Joaquim nasceu. Vive desde os 6 anos de idade no mesmo local. As paredes originais têm quase meio metro de espessura. “Meu filho e meu neto também moram aqui e espero que outras gerações da família Terças ocupem essa residência tão cheia de histórias”.

O avô de Janaina, o português Manoel Terças, chegou ao Brasil de navio no início do século passado, aportando em Manaus, no Amazonas. Em seguida chegou à Cruzeiro do Sul onde se dedicou a outros ramos de negócios, como a comercialização do látex e de alimentos. Mas, logo descobriu a cerâmica e passou a fazer telhas e tijolos, sendo o pioneiro do setor cerâmico na região. O filho Joaquim Terças, nasceu em Cruzeiro do Sul e ainda jovem seguiu para São Luís do Maranhão, onde casou e Janaína nasceu.

Quando os negócios cresceram, o português Manoel mandou buscar Joaquim e a família no Nordeste. Janaína chegou ao Acre aos 6 anos e o senhor Joaquim Terças fundou a própria olaria e ampliou os itens ofertados. Ele levava os filhos Janaina e Júnior para a olaria e lá mostrava o barro adequado para os tijolos e demais etapas da feitura do produto além de ensiná-los a dirigir máquinas e tratores.

O avô fazia telha de barro, tijolo e telhas. O pai fazia telha de barro, tijolos, lajotas e cobogós. Ela optou em focar apenas nos tijolos de 6 e 8 furos, por serem os produtos com maior demanda do mercado local. Atualmente a Cerâmica Terças tem lista de espera para entregar tijolos, tamanha é a procura pelo produto. A espera que já chegou a 2 meses agora é de, no máximo, 2 semanas. “Meu objetivo é dobrar a produção e não ter mais lista de espera por tijolos”.

A AVÓ QUE GOSTA DE ATIRAR

Verbena é exuberante e vaidosa, mas não se importa com o salto do sapato sujo do barro da olaria. A empresária é assistente social, formada pela UNOPAR, e cursa Direito na Universidade Federal do Acre. “Quero entender sobre as leis para usar esse conhecimento para várias áreas da minha vida, como nos negócios. Meu setor de negócios tem fiscalização do Inmetro e de órgãos municipais, estaduais, federais e conhecimento é poder”, diz.

Foto: Felício Muniz

Ela tem dois filhos (Yuri e Elisa), é casada com advogado Frederico Filipe e agora também é avó. O neto Joaquim Terças (nome em homenagem ao pai), de 9 meses, que mora com ela é o grande xodó da família. Por causa dele não trabalha mais aos sábados. “Ser avó é a maior experiência da vida. É como filho sem as obrigações (risos), sem ter que amamentar. Nem trabalho mais aos sábados para poder me dedicar a ele e são horas preciosas”.

E a mulher corajosa para os negócios e na vida pessoal, tem como passatempos, o tiro esportivo. Para desestressar, nas horas de folga, prática tiro e é filiada ao Clube Estadual de Tiro e à Federação Nacional de Tiro. Com mira perfeita, acerta uma laranja com uma arma calibre 12 de uma distância de 25 metros. Diz que cresceu em uma casa com armas, já que antes não havia proibição neste sentido. “Eu fui criada em casa com armas e nunca houve problema com isso. Eu gosto de atirar porque tira meu estresse. Além disso, apuro minha mira não só na hora do tiro, mas também em vários aspectos da minha vida e, principalmente, nos negócios. Recomendo para todos e, principalmente, para as mulheres”.

CRESCIMENTO

Janaina quer dobrar a quantidade de tijolos produzidos pela Cerâmica Terças. Não esquece a crise econômica de 2014, quando o setor se retraiu e, para dar o salto qualitativo na indústria da família, com o uso da tecnologia, tiveram que vender imóveis.

Agora está animada porque nos últimos 2 anos, o ramo da olaria tem se mantido em crescimento das obras públicas e particulares, aumentando assim a demanda. Ressalta que essa alta alavanca os negócios nas madeireiras, lojas de material de construção e amplia as vagas de emprego na área da construção civil.

Foto: Felício Muniz

Cita a venda de tijolo como resultado do aquecimento da construção como reflexo do crescimento da economia do Brasil. “A economia está com crescimento de 3 a 5 por cento ao ano e, otimista, acredito nesse crescimento. Estamos aguardando com cautela a continuidade desse ritmo para investir, crescer e expandir. Nos próximos 10 anos quero dobrar minha produção e acredito que todos do setor cerâmico vamos crescer. Não creio no surgimento de novas cerâmicas, mas acredito que as que já existem vão se expandir”.

O filho mais velho da industriaria, Iury estuda medicina, mas desde que ele era pequeno também o levava para a cerâmica e pretende fazer o mesmo com o neto Joaquim. Quer que o negócio que está na família há 3 gerações, tenha continuidade. “Do jeito que meu avô ensinou pro meu pai, ele ensinou para mim, já dei dicas pro meu filho, minha filha Elisa e meu neto Joaquim vão conhecer o barro da olaria”.

FIEAC

Desde maio de 2019, a convite do presidente José Adriano, Janaína Terças é a representante na Federação das Indústrias do Acre — FIEAC, no Vale do Juruá, função que lhe oportunizou a busca pelo desenvolvimento do setor industrial como um todo. Empenha-se na busca de qualificação para os industriais e industriários, mediação e interlocução do setor com o poder público. Ressalta como avanço, a recente legalização ambiental e documental de mais de 40 empreendimentos do Polo Moveleiro de Cruzeiro do Sul.

Conta orgulhosa sobre a organização, representatividade das indústrias, como malharia, areal, moveleiro, madeireiro, e mediação juntos aos órgãos públicos para as soluções de demandas. Destaca que o projeto da FIEAC, em parceria com o governo, de pequenas obras para os municípios resulta no aquecimento da economia. “O grande objetivo é a manutenção de empregos e a geração de renda. Essa terra ter marcas do meu avô e do meu pai. Meu pai, filho e meu neto nasceram aqui e quero que essa região cresça e siga em desenvolvimento. Espero ter contribuído com o desenvolvimento da cidade. Neste momento se faz necessário deixar de lado minhas necessidades pessoais, em prol do coletivo, para assim dar a minha contribuição na melhoria da realidade econômica da minha terra”, conclui Janaína Verbena.

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Casal abre primeiro hotel Guesthouse no Acre e local vira ponto turístico aos gringos

Tal sistema de hospedagem se consolidou na Europa e vem atraindo turistas à capital acreana

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Há quase um ano o Acre ganhou o primeiro hotel que funciona no sistema Guesthouse, uma casa de família que aluga quartos e espaços externos da residência enquanto os proprietários permanecem no imóvel e podem conviver com os visitantes. No início, seria algo mais intimista, porém, o Jardins Guesthouse, situado na Estrada da Floresta, em Rio Branco, ganhou proporção maior e a procura hoje é tanta que há semanas em que não dá para atender a todos os clientes e forma-se fila de espera.

Esse modelo inovador de hospedagem para o estado ganhou a aceitação de todos os grupos: famílias, amigos, casais, turistas e até as crianças. O sistema que já é bastante conhecido e tradicional na Europa agora também está fazendo sucesso na capital acreana. O ambiente permite que os hóspedes possam compartilhar vivências com atividades como tirolesa, apresentações e eventos culturais e religiosos, artes, exposições de artesanatos, quadros, oficinas, colônia de férias, piscina, tecidos acrobáticos, slackline, lago com caiaque, e etc.

A ideia do empreendimento é do casal de acreanos Victor Pontes e Rosiany Albuquerque, que estão juntos há mais de 12 anos. Victor é turismólogo e Rosiany formada em administração e marketing. Mas era Victor que sempre sonhava em ter uma pousada. Onze anos atrás ele foi para o município de Xapuri, distante cerca de 186 quilômetros de Rio Branco. Lá, abriu a pousada Ayshawa, que também foi pioneira no turismo de vivência, mas nada parecido com a estrutura e grandiosidade do Jardins Guesthouse, onde o proprietário também é responsável técnico.

A pousada de Xapuri foi a primeira a ter parque temático de aventura com arvorismo e tirolesa e serviu como protótipo de algo muito maior, que é o Guesthouse. Este último teve suas atividades iniciadas em outubro de 2020. “Trabalhamos no desenvolvimento turístico. Também temos uma agência que promove expedições em aldeias indígenas e doutrinas do Santo Daime. Vimos necessidade de abrir um modelo de hospedagem como o Guesthouse, onde o turista ou viajante possa ter uma segunda casa”, explica Victor.

O “casarão”, como também é chamado o Guesthouse, tem seus anfitriões e a visita pode usufruir da casa como se fosse dela. “Essa é a característica desse sistema de hospedagem e tem sido bastante aceita nesse momento em que o Acre vem vivendo”, o turismólogo. O casal salienta que ao passar pelo portão, a impressão é de estar entrando noutro universo, como dizem os hóspedes. “O Acre está desenvolvendo uma linha turística e tem muitos visitantes de fora em busca do novo turismo, que é o turismo vivencial”.

O espaço tem 15 mil metros quadrados e o grande desafio é tornar todo o ambiente num lugar turístico. Atualmente, vem sendo destino de curiosos, o que tem surpreendido os proprietários. “Tem pessoas vindo da Bolívia, de Porto Velho, Epitaciolândia, Brasileia, Peru. Já atendemos três grupos de uma mesma família que queriam curtir aqui dentro”.

Além disso, o empreendimento atua com o etnoturismo, que já vinha sendo trabalhado por Victor e Rosiany desde Xapuri. “Vimos essa necessidade de Rio Branco ter um meio de hospedagem desse estilo, que tenha contato com a natureza, que seja bem localizado, na direção do aeroporto, na frente do shopping, essa área oferece tudo isso”.

O Jardins Guesthouse oferece opções ao cliente. Há quartos compartilhados masculino, feminino e misto, e o quarto privativo, que cabe até quatro pessoas. O local também é bastante procurado para realização de eventos como aniversários e comemorações que reúnem menos pessoas. “Nosso diferencial é esse, ser um modelo único em Rio Branco, onde só tinha hotel, horizontal, sem esse contato com a natureza”.

O imóvel em que funciona o Guesthouse tem arquitetura icônica, começou a ser construído em 2001. Entretanto, está completamente repaginado e decorado com temáticas que fazem referência ao que vem sendo desenvolvido ao longo do tempo em torno do turismo, medicinas da floresta, busca espiritual e o misticismo. “Estamos investindo nesse pensamento. Iniciamos a atividade de uma forma mais tímida, por causa da segunda onda da pandemia. Essa é uma modalidade proposta justamente para viajantes de fora do Brasil”.

Experiência

Victor já trabalhava com expedições indígenas em sua agência de turismo e sentia essa necessidade de ter um lugar para quando os estrangeiros chegassem para acomodá-los da forma mais local possível. “Mas os acreanos também têm gostado muito, pois aqui é escasso com relação a um lugar para ir com a família, de descanso, lazer. E temos trazido muitas novidades, o projeto é muito grande”, destaca.

O conceito do Jardins Guesthouse se assemelha ao hostel por ser mais econômico, porém se diferencia pela casa de grande porte. “Somos os anfitriões e nosso público maior é voltado ao conhecimento, à parte mais cultural, regional, gastronômica. Nosso perfil é do etnoturismo, que está despontando, inclusive no mundo inteiro”. Segundo o turismólogo, as nações estão descobrindo o Acre da forma tradicional, baseados na medicina da floresta, então, o público tem mais esse perfil, de pessoas que procuram o local em busca da doutrina, das religiões, da barquinha, entre outras.

Rosiany destaca que a programação oferecida agrada todos os gostos. “É aí que entra nossa agência, com um turismo mais receptivo. A ideia surgiu dela. Voltamos de Xapuri para Rio Branco devido à pandemia, e tivemos que nos virar nos 30. Foi então que vimos a necessidade do Day Use, pois muita gente queria conhecer a casa, o espaço, e montamos isso para pessoas passarem o dia e não somente para hospedes”.

A modalidade Day Use permite que o cliente pague para usar apenas uma parte do dia. “Vimos que poderia ser uma boa opção, porque todos os dias a gente recebia pessoas querendo conhecer o casarão, saber o que era. Muita gente aparece dizendo que tinha um sonho de conhecer a casa. E vimos esse público-alvo dando muito certo”.

O Guesthouse atende com mais frequência o Day Use durante a semana e aos finais de semana utiliza a capacidade máxima permitida em período de pandemia. “A média de atendimento varia muito. Às vezes tem eventos indígenas no interior e recebemos muita gente. Temos recebido ainda muitas pessoas da Bolívia e Peru, famílias inteiras de bolivianos”. O local tem oito acomodações, partindo desde o econômico, que é o chamado “belichário”, com quarto compartilhado e banheiros externos, até as suítes, com banheiros privativos e a suíte-máster, a maior da casa. “Para o riobranquense, temos a tirolesa, o pesque e solte e ainda terão outras atividades para colocar atividades turísticas dentro dos jardins, que já estamos investindo”, garantem.

O casal retornou de Xapuri ano passado, em plena pandemia, e lá deixaram a pousada base. Toda semana Victor ou Rosiany vão ao município ajudar a gerir o negócio, que tem um perfil de hotel mais econômico.

Cultura no Guesthouse

Hoje Victor e Rosiany moram no Jardins Guesthouse com o filho pequeno. “Chegamos num momento em que num período de 9 meses, atendemos mais movimento cultural aqui dentro do que em qualquer outro lugar até mesmo preparado para esse tipo de evento”. A dona salienta que a proposta não é só focar só na questão dos indígenas, mas transformar o local numa base cultural.

Outras atividades estão previstas para ocorrer no local. “Teremos oficinas de artesanatos, colônia de férias, seria mais uma base cultural onde acontecem várias outras atividades desse tipo. Queremos trazer isso ao acreano”, afirmam. Os jardins já receberam encontro de grafite, presença de quatro etnias, um retiro espiritual com os Yawanawá, retiro cultural com os Shanenawa e encontro de capoeiristas. “As pessoas estão conhecendo essa parte e se interessando, e o melhor é o nosso conceito: fazer a pessoa se sentir em casa”, diz a administradora.

Para o turismólogo, o visitante chega e vê que ali é sua segunda casa. “Tem pessoas que vêm para cá ler um livro, traz a rede, fica nas árvores, faz um trabalho na sacada principal usando uma boa internet e aproveitando a vista até mais tarde”. Devido à agência do casal, eles têm contato com mais de 10 aldeias, que participam dos eventos com visitantes.

“O Acre está sendo preparado, nossos representantes indígenas já são embaixadores, andam com celebridades, o estado vem avançando. Os trabalhos que mais acontecem aqui é na hora que eles vem fazer uma visita pra nós e já fazem um trabalho espiritual aqui no local e chamam os amigos”.

Apesar dos constantes trabalhos envolvendo grupos indígenas, o Guesthouse é apenas um centro que facilita o acesso do turista ou visitante. “Se coincidir de a pessoa vir aqui e ver um indígena que tiver fazendo um trabalho aqui, pode acontecer de ela experimentar os ritos que eles fazem. Já aconteceu de pessoas que nunca tiveram contato ou participado de atividades indígenas e tiveram aceitação e respeito”.

Atrações

Para o próximo mês de novembro está prevista a continuação do projeto Aldeia Urbana, uma vez que permanece proibida a entrada de pessoas nas aldeias por conta da pandemia de Covid-19. “Nós não podemos adentrar as aldeias, porém os Txai estão todos vacinados. Para a ciência, estão imunizados e podem sair de suas aldeias”. O projeto consiste em convidar uma aldeia até o Guesthouse.

“Eles vem sempre com 18 pessoas. O próximo seria um sagrado feminino. Hoje a cultura abre para as mulheres ministrarem, fazer trabalho, já tem pajés mulheres reconhecidas por seu povo, a ideia é fazer o fortalecimento dessa cultura, do artesanato, trazer a força das mulheres guerreiras mesmo”.

Assim que liberados pelo governo estadual, lançaram o curso de tecido acrobático, que atraiu bastante público. No entanto, tiveram de parar por conta do avanço do novo coronavírus. “Após todos estarem com a segunda dose da vacina, iremos iniciar novamente o curso. O SPA também tem sido bem aceito, as pessoas vêm para relaxar com tudo que é montado aqui”.

Apesar do sucesso que já vem fazendo, eles destacam que estão caminhando agora, começando devagar. “Vamos lançando as atividades aos poucos. Vem muita gente com família, com a criançada que gosta. O próximo projeto também é fazer o skibunda. Graças a Deus as pessoas têm gostado, são coisas diferentes que você só via fora e tentamos trazer tudo isso e juntar aqui e vem mais novidades”.

Rosiany sempre gostou de trabalhar com famílias e crianças e se vê num local privilegiado por esse motivo no Guesthouse. “Os hóspedes falam que em hotel não podem soltar as crianças e aqui é diferente. Estamos atendendo muito esse público e eles têm voltado”. O local tem um morador especial, o Alvinho, cachorro que já virou mascote do hotel. “É um sucesso com as crianças. Adotamos ele na pandemia quando a gente teve de se trancar em casa depois que nosso cachorro que já tínhamos há muito tempo faleceu. Foi o que salvou nosso filho na pandemia”.

Outra ideia que está para ser colocada em prática é o restaurante. Por conta da burocracia em poder funcionar, o espaço, para não deixar os hospedes sem nada, trabalha com congelados e fast-food, como lasanha e pizza. “Quem está cansado e não quer sair daqui, temos essa alimentação. Mas teremos uma estrutura de cozinha e torná-la um restaurante de fato com comidas tradicionais, como pato no tucupi, galinha picante, culinária indígena, galinha caipira, mandi frito”.

O objetivo é que pelo menos uma vez por mês abram a cozinha para fazer parcerias e que a mesma seja representada por um cozinheiro-chef. “Terá o prato daquela pessoa. Sempre com novidades. Queremos ocupar a cozinha, os quartos, a área de lazer. Brincamos sempre dizendo que não somos os donos disso aqui. O dono é Deus, nós estamos com a chave que deram para abrimos e fechar”.

Por segurança, o local só recebe pessoas com estadia reservada e o imponente portão sempre fechado. “Pela rotatividade de pessoas que passam por aqui, já temos esse cuidado. Temos todo um sistema de segurança que contratamos. Somos monitorados”, finalizam, ressaltando que as acomodações apresentam importantes benefícios, como atenção personalizada, quietude, baixo custo e design diferenciado.

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Por falta de produtos no Acre, mãe cria loja especializada em intolerantes à lactose

Mãe passou a produzir e vender produtos de alimentação restritiva após ela e o filho serem diagnosticados com intolerância

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“O que uma mãe não faz pelo filho”. Essa frase calha muito bem a uma acreana que passou a fazer e vender produtos especiais depois que o filho foi diagnosticado com uma grave intolerância à lactose. A economista Lidiane Magalhães Ferreira também já sofria com intolerância quando soube que o filho apresentava a mesma disfunção. Entretanto, foi com o pequeno Artur, aos 9 anos, que ela teve de “se virar” e encontrar novas maneiras de colocar alimentação à mesa sem as proteínas do leite.

Surgiu então o Empório Coisas da Lid, voltado exclusivamente à inclusão alimentar. Tudo começou há quase 10 anos, quando Lidiane descobriu que tinha uma severa intolerância aos derivados do leite. A descoberta foi uma verdadeira peregrinação entre médicos e consultas, que naquela época ainda não tinham facilmente esse diagnóstico como têm atualmente. “Eu já tinha desordens desde criança, tinha os sintomas, mas não conseguia identificar a doença e por isso sofri durante muitos anos”.

Pouco depois ela criou um blog para compartilhar receitas que não apresentassem nenhum ingrediente com leite. “Também acabei me isentando do glúten por questões de saúde e depois descobri uma intolerância à soja”, explica, alertando que cerca de 70% dos intolerantes a lactose também não conseguem fazer a digestão da soja.

A intolerância é diferente da alergia. Na primeira, falta a enzima que digere a lactose, que é um açúcar. Já a alergia é uma resposta do sistema imune a uma proteína do leite de vaca, o que torna o problema mais grave. “Quando descobri que meu filho também tinha esse problema eu já tinha o blog, mas não o divulgava muito porque era uma coisa mais pessoal. Mas quando um filho seu tem um problema, você se esforça mil vezes mais”.

A opção dos alimentos industrializados zero lactose foi interrompida quando mesmo ingerindo esses produtos a criança passava mal. “Depois de um tempo, você não consegue mais consumir porque esses produtos têm a enzima lactase junto com o leite de vaca, então mesmo com a enzima, a gente continua tendo os sintomas”, disse Lidiane. Foi aí que Artur precisou retirar todos os derivados de leite da alimentação.

Nesse momento, a mãe se deparou com um novo desafio. “Como toda criança, ele quer brigadeiro, bolo, biscoito, quer comer igual qualquer outro da idade dele, e tive de aprender muito mais porque não estava mais fazendo comida só para mim, estava fazendo também para ele e o paladar de uma criança é bem mais seletivo”.

Os sintomas de intolerância à lactose são muitos e podem acabar confundindo as pessoas. Eles podem ocorrer como diarreia, prisão de ventre, dor de cabeça, náuseas, vômitos, candidíase, dor no estômago, gases, refluxo. “Tudo isso pode ser da lactose e a pessoa não sabe. Por isso que até chegar a um diagnóstico, os pacientes podem demorar anos. Com o glúten é ainda pior. Os médicos apontam que se não for tratado nem diagnosticado a tempo pode até desencadear um câncer pela doença celíaca”, destaca a economista.

Empório Coisas da Lid – se uma criança gosta, qualquer outra pessoa vai gostar

A mãe acabou se esforçando com o novo estilo de alimentação do filho e aumentou sua dedicação ao blog. Até então, ela conciliava com seu trabalho na Federação das Indústrias do Acre. Mas com a chegada da pandemia perdeu o emprego e começou a pensar em outra forma de ganhar dinheiro. “Tinha que me virar, pois estávamos com a renda bem restrita sem a minha e após muito pensar, resolvi fazer isso: montar um negócio robusto, com mais coisas”.

Foi nesse momento que começou a nascer o protótipo do Empório Coisas da Lid, totalmente voltado a uma alimentação saudável e inclusiva. A loja, que atualmente funciona de forma virtual, oferece produtos que nenhum outro lugar ou supermercado tem. “Vendemos coisas diferentes. Como ainda somos uma cidade pequena, os supermercados não oferecem tanto essas opções por não ter muita saída, uma vez que vendem só um ou outro [produto], sem ser em larga escala”.

Lidiane decidiu vender tudo que gosta de comer, tudo que faz parte de sua alimentação, como leite de amêndoas, açúcar de coco, cereal de cacau, bolo, queijo, tudo sem lactose, sem glúten e sem soja. “Hoje eu consigo comer uma pizza feita de massa sem glúten, queijo e catupiry vegano, no dia e na hora que eu quiser, porque consigo oferecer isso”.

Antes disso, para conseguir comer uma pizza sem glúten e sem leite, ela tinha de viajar ou comprar produtos em outros estados, porque por aqui não encontrava nada do tipo. “Como já tenho intolerância há algum tempo, sempre que viajava voltava com muitas coisas que aqui não tem. Já conhecia várias marcas e produtos antes de criar o empório, então sei selecionar os melhores produtos”.

A pesquisa para trazer produtos também inclui comparação de preços, já que esse tipo de alimentação especial possui naturalmente um valor mais alto. “Nem todo mundo tem orçamento para comprar, então vejo os que têm boa qualidade e com um valor acessível e trago para o empório”. A loja atua com duas vias: vende produtos que o cliente já compra pronto para consumir e as farinhas para que a pessoa faça seus produtos em casa, como bolos e pizzas.

No blog, que está inserido dentro do site do empório, Lidiane ensina como usar os produtos, como farinhas de pão, bolo, os mix, que são combinações de farinha para alimentação sem glúten e possuem bom resultado final. “A pizza, o bolo, o pão, eles têm um mix de farinha específicos para cada textura e formato tradicional. Facilita até para quem não sabe cozinhar, bastando acrescentar outros poucos ingredientes, como óleo e ovo”.

No site ela também vende bolos que ela mesmo produz. “Num primeiro momento, queria oferecer no empório uma gama maior de produtos para que todo mundo tivesse acesso. Mas posteriormente, num segundo momento, quero abrir uma confeitaria”. O plano é chegar a produzir seus próprios produtos. “Futuramente, alguém que tenha alergia ao leite de vaca vai conseguir sentar à mesa e partilhar um cupcake com achocolatado, um milk-shake. Quero avançar pra isso”. O empório Coisas da Lid, além de produtos de mercearia comuns, sem alergênicos, tem uma linha de produtos orgânicos e laticínios veganos e chocolates também.

Inclusão alimentar

A inclusão alimentar é muito mais do que alimentação. É compartilhar momentos especiais com quem gosta e poder viver uma vida normal com outras pessoas que não possuem nenhuma restrição alimentar. Apesar de hoje já ter mais produtos especializados, ainda é difícil manter uma vida social ativa por conta desse problema.

Por isso, o empório surgiu, para mostrar aos intolerantes que se ele quiser tomar um sorvete, ele pode, pois existe o produto vegano, assim como o pão de hambúrguer sem glúten que ela comercializa, pão doce e o creme de avelã. “Já tem alguém fazendo e trazendo isso para perto, e é muito bom porque entra na questão da inclusão”.

Ir a um aniversário e não poder comer o que tem ou ir a um restaurante e sair sem fazer uma refeição por falta de opções a intolerantes são situações que frustram o paciente. “Dificilmente as pessoas fazem uma preparação diferenciada para você por questão de saúde. É muito triste e frustrante ir ao restaurante e sair de lá sem comer nada. A companhia é legal, mas compartilhar uma refeição é muito importante, é o básico da convivência”, lamenta Lidiane.

A alimentação inclusiva faz com que você tenha a oportunidade de sentar ao lado de outra pessoa e conseguir partilhar uma refeição. Meu negócio tem o papel comercial, mas tem a questão de dar oportunidades a alguém comer normalmente como outra pessoa.

“Tem clientes que me dizem: poxa, não acredito que você tem isso. Tenho feito contato com vários nutricionistas para mostrar que têm em Rio Branco essas opções e fiz uma sondagem. Ouvi que são muitas pessoas intolerantes e procuram nutricionista porque não sabem o que comer”.

Adaptação ao novo

Se adaptar a uma nova alimentação não é tarefa fácil. Em todos esses anos lidando com a intolerância à lactose, Lidiane pode notar que a maior procura de clientes em relação aos seus produtos tem sido de mulheres entre 30 e 40 anos. “Se uma pessoa já tem uma alimentação basicamente saudável, ela vai sentir menos a diferença com os novos ingredientes, mas são todos muito saudáveis e deliciosos”.

Hoje nem ela nem o filho sentem falta do queijo normal, da pizza, do bolo ou pão com trigo. “Já me acostumei. Hoje Artur está com 12 anos, mas a adaptação aos alimentos foi difícil. Foi devagar. Tive que ir tirando aos pouquinhos. O paladar foi se adaptando para que ficasse 100% vegano”. Hoje ele come tudo que tem no empório e gosta.

Tudo que é comercializado no Coisas da Lid é sem glúten e sem leite. São brigadeiros, queijos, requeijão, pães, cafés, manteigas, bolos, iogurtes, entre outros. “A família aqui em casa já se adaptou. Comemos igual”, diz a economista. Segundo ela, a adaptação requer tempo, mas há uma luz no fim do túnel para os intolerantes. “Há possibilidades. Hoje o comércio online está aí para todo mundo.

Atualmente, além de Rio Branco, Lidiane já possui clientes na cidade de Cruzeiro do Sul, já que lá também não se encontra esses produtos com facilidade. “Não é só uma questão comercial, é de cuidado com o outro. Fazemos um atendimento quase que personalizado, não é algo tão simples”.

Até mesmo os supermercados estão mudando a forma de vender esses produtos. Antes, eles ficavam numa seção separada só de produtos naturais, agora já começaram a espalhar pelo ambiente. “Já vemos na seção de macarrão ele com e sem glúten. Isso mostra que já está se tornando mais comum essa doença e a venda desses alimentos. Tem cereal matinal com e sem glúten e isso é muito bom porque algumas pessoas não têm conhecimento e passam a ver ali os produtos.

Magalhães lembra que produtos sem glúten e sem leite não são naturais, são industrializados da mesma forma, mas muitos com menor quantidade de ingredientes, o que os tornam mais saudáveis. “Por exemplo, nosso cereal matinal é feito de farinha de arroz vermelho, que é integral, tem açúcar, cacau e um pouco de sal, que entra como conservante, uma redução de ingredientes, bem mais saudável”.

Com uma procura visivelmente maior por alimentos a intolerantes a lactose, o mercado vem de certa forma barateando os preços, com um valor bem mais abaixo do que era encontrado há cerca de 5 ou 10 anos. “A demanda está sendo maior. Hoje tem muito mais pessoas recebendo diagnóstico porque hoje se investiga muito mais que antes”.

Dessa forma, a indústria também vem se aprimorando e evoluindo. Já é possível o paciente intolerante encontrar pão bisnaguinha, pão francês sem trigo, bolachas, torradas, queijo que derrete. “Antes era inimaginável ver isso e na realidade são todos uma delícia. A maior parte dos laticínios hoje são a base de castanha”, comemora a mulher.

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