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Com 54 anos de legado, Miragina é indústria mais antiga em atividade no Acre e mira em novas gerações

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Indústria vive a terceira evolução de máquinas desde que foi criada e pretende eternizar história com os filhos

Se você é acreano e nunca tomou uma “sopa” de café com leite e bolacha Miragina, lamento informar, mas está sendo acreano de um jeito errado. A tradição que já dura mais de meio século nas Terras de Galvez está fazendo aniversário neste mês de maio e deixa como legado para as próximas gerações uma disputa pacífica e praticamente infinita sobre o formato dessas bolachas: prefere a quadrada ou a redonda? Não precisa escolher, a receita dos produtos é a mesma há mais de 50 anos, criada pela matriarca da família, e, desde 1967, nunca falta à mesa de um bom e velho acreano do pé rachado.

A história dessa empresa pode ser facilmente atrelada à história do Acre, sem nenhum exagero. O Estado está prestes a completar 59 anos de emancipação polícia, a fábrica Miragina acabara de fazer 54 anos de existência. Nesta reestreia da coluna Gente, Economia e Negócios, o ac24horas apresenta o caminho de sucesso percorrido por uma fábrica consolidada, relevante e atualmente ainda mais promissora na indústria local.

O Grupo Miragina é a indústria genuinamente acreana mais antiga que continua em funcionamento no Estado. Os atuais proprietários, os irmãos José Luiz Felício, 61 anos [presidente da empresa] e Abrahão Felício, de 69 anos [vice-presidente], creditam aos pais, Mirian Assis Felício e Abrahão Felício o início, a força e perseverança pela continuidade da empresa.

COMO TUDO COMEÇOU

Quem reside ou transita pela região do bairro Aviário, na capital acreana, sabe muito bem o que é sentir o cheirinho das bolachas e biscoitos Miragina sendo assados no finalzinho da tarde ou início da manhã. Há 54 anos, a indústria funciona no mesmo local, carregando apenas a mudança de um lado para o outro da rua ao longo dos anos.

Foto: Arquivo Pessoal da família

A construção do prédio onde é a fábrica começou em 1967 e as atividades se firmaram em 1968, de forma inteiramente manual. A Miragina nasceu pelo dom da matriarca, Mirian Felício, sempre muito prendada. “Ela era contratada para fazer os banquetes, aniversários, e ela tinha muita facilidade na arte da gastronomia”, diz o filho Luiz.

Mirian é a responsável pelas receitas mais antigas da empresa, produtos de sua criação. “Ela pegou o básico e aperfeiçoou. E até hoje os biscoitos salgados têm muito do que ela começou aqui. Com o tempo fomos aprimorando a receita, pois vai mudando os ingredientes e vai mudando alguma coisa para melhorar a coloração com a modernidade”, salienta.

“Tudo começou com panificação, biscoitos e macarrão. Uma coisa bem ousada para a época, um projeto que ninguém acreditava que teria no Acre algo desse tipo naquele tempo”, diz José Luiz.

Foto: Arquivo Pessoal da família

Luiz garante que sempre produziram biscoitos tentando inovar, renovando as receitas e buscando atingir todas as camadas da população. “Nossos produtos sempre tiveram um preço bom com um produto de qualidade. Isso é o que nos fez permanecer no mercado e também ser prestigiado e valorizado pela população”, afirmam os irmãos.

Não há como negar que os produtos Miragina são hoje uma referência extremamente positiva ao estado do Acre. Há até uma expressão dita pela ex-primeira-dama, Marlúcia Cândida, que diz: “a Miragina está para o Acre assim como as Havaianas estão para o Brasil”.

“O que nos fez chegar a esse ponto de prestígio foi a busca e o respeito pela qualidade dos produtos que a gente oferece à população. Sempre fui a feiras do setor procurando novidades. Enquanto alguns economizam na matéria-prima, nós não economizamos, justamente para não cair a qualidade. Sempre mantivemos a qualidade e sempre mantendo o mesmo padrão do início, e isso é importante”, garante Luiz.

A empresa se orgulha por nunca ter optado por deixar a qualidade dos produtos ruim em nenhuma época do ano. “Os produtos são produzidos sempre do mesmo jeito, com os mesmos ingredientes, é o que tentamos buscar”, destacam os irmãos.

QUADRADA X REDONDA

Uma disputa que ronda a empresa desde os primórdios é sobre a preferência do público para com os biscoitos salgados de formato quadrado e redondo. Elas sempre existiram e o que é motivo de discussão para muita gente, é explicado pelos próprios donos da marca. Se existe, de fato, um formato de bolacha mais sequinho que o outro, é esclarecido de maneira bem simples. Luiz diz que fica muito feliz com isso acontecendo porque, “quando há uma enquete dessa na internet, a gente só tem comentários positivos”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

Os irmãos Felício se divertem com a discussão sobre as bolachas redonda e quadrada. “Fica uma brincadeira saudável entre o time da quadrada e o time da redonda. Na verdade, é a forma do cozimento que faz a diferença. A massa é a mesma. Mas a gente deixa ficar na imaginação das pessoas porque o importante é que eles fiquem utilizando o produto”, brincam.

A bolacha quadrada é arrumada no forno de forma paralela, e a redonda fica de uma forma que circula menos calor do que num formato que possui cantos. “O calor circula mais entre uma e outra. Enquanto uma é mais simétrica, a outra tem uma irregularidade nos cantos, que não se encontram”, diz José Luiz.

VARIEDADE DE PRODUTOS

As bolachas salgadas são o carro-chefe da indústria, mas atualmente, a Miragina oferece mais de 20 variedades de produtos, incluindo os derivados da castanha do Brasil. A produção foi evoluindo com o decorrer dos anos e hoje o Grupo se encontra num patamar de produzir em torno de 15 toneladas por dia de bolachas.

São bolachas salgadas, biscoitos doces, pão de mel, biscoitos de castanha, óleo e farinha de castanha, entre muitos outros que já estão disponíveis nas prateleiras de supermercados. Ao menos quatro novos produtos estão para serem lançados ao público futuramente.

“Não lançamos ainda por conta da pandemia, pelo fato de não poder haver degustação. Mas enquanto isso estamos aperfeiçoando mais os produtos e vamos analisar qual será lançado primeiro, para que chegue com vontade mesmo no mercado”, garantem.

DIFICULDADES

Como toda empresa, a Miragina também tem alguns momentos difíceis para contar ao longo da história. Acompanharmos as dificuldades da economia no país fez com que a indústria sentisse algumas dificuldades, mas sempre com muita perseverança.

“Insistir na ideia de que tem que continuar, não deixar a peteca cair, são nossas atitudes nesses momentos. Às vezes até nos cobravam que a gente devia fazer outra fábrica em Manaus, outra em Porto Velho, mas é difícil você montar uma outra equipe que funcione como um reloginho como a nossa. E você não estar presente nas filiais também é difícil. Então, considero que fomos até um tanto conservadores por isso, mas foi exatamente isso que nos manteve firmes e dentro de uma tranquilidade financeira. Hoje, na pandemia do novo coronavírus, é um momento difícil, não de vender o produto, mas difícil fazer um produto chegar ao consumidor com um preço baixo”, explica Luiz.

CONCORRÊNCIA DESLEAL

Em meio a tantos percalços, o que mais tem se sobressaído neste momento de pandemia tem sido a alta constante e exorbitante no preço de matérias-primas. “Tá subindo demais e isso tem dificultado a gente a segurar o preço e não repassar para o consumidor final. Porque a gente sofre uma concorrência enorme de produtos de fora, que têm grandes fábricas e uma escala de produção 10 vezes maior”, salientam.

O preço para aquisição de matéria-prima subiu muito, em alguns casos mais do que dobrou, como no caso de embalagens. “Farinha de trigo, que é nossa matéria-prima básica, também dobrou de preço. Isso hoje é o grande gargalo para nós de mantermos a qualidade com o preço baixo. Como não queremos abrir mão da qualidade, aí fica mais difícil ainda”, lamenta o presidente da empresa.

SEM DEMISSÕES NA PANDEMIA

Apesar de o momento de pandemia ter provocado inúmeros problemas a diversos setores da economia acreana, o Grupo Miragina se orgulha por não ter demitido nenhum funcionário nesse mais de 1 ano de crise sanitária. “Não houve demissão na pandemia. Houve somente alguns desligamentos de pessoas que estavam no grupo de risco e que preferiram se acomodar ou aposentar”, asseguram.

O clima de empresa familiar acaba passando para os trabalhadores da indústria. A empresa conta ainda com dezenas de funcionários já aposentados que preferem trabalhar no local ao invés de deixar o serviço de vez. “Tem uma pessoa que tem quase 48 anos de Miragina e está aposentada já há 18 anos. Entrou aqui com 16 anos e hoje é meu braço direito”, explica José Luiz.

Além de não demitir, a empresa diz até estar admitindo pessoas, mas não no mesmo ritmo que tinha antes da pandemia, uma vez que a receita já não representa tanto quanto representava anteriormente. Hoje, a Miragina emprega cerca de 150 funcionários diretos.

A pandemia impactou muito fortemente a indústria, primeiro com a probabilidade de contaminação dos funcionários, depois, com o preço dos insumos. “A gente tinha muito receio do desabastecimento que poderia haver, o aumento no preço da matéria-prima, que está ainda mais forte. O combustível subiu 3 vezes em uma semana, isso impacta no valor final, tudo fica mais caro”, relatam os irmãos.

Para eles, houve uma coisa muito determinante quanto ao desabastecimento, que foi o fato de as pessoas temerem ficar sem os insumos e comprarem demais, como é o caso das resinas plásticas. “As petroquímicas pararam com a pandemia, e quando esfria os fornos das petroquímicas, pra ligar de novo, demora. Esse tempo parado colocou o preço da resina lá pra cima, pensaram que ia acabar e todo mundo comprou e o preço subiu. Hoje está caríssimo”, afirma José Luiz.

O segundo impacto, segundo os irmãos, foi a implementação do lockdown na pandemia. “Mercadinhos fecharam. A pandemia nos afetou, sim, mas a gente encarou a realidade da pandemia e nos adaptamos a ela. Prejudicou a cabeça de todos, mas a gente sempre deu muita importância, nunca deixamos de vir [trabalhar]. Tem que estar dentro de nosso negócio”, destaca Abrahão.

AÇÕES SOCIAIS

Uma função que os produtos Miragina também possuem desde o princípio é o de ajudar os mais necessitados. As ações sociais desenvolvidas pela empresa se tornaram uma marca registrada da fábrica. “Talvez seja isso que nos faça esse prestígio com a população. A gente não esqueceu nenhum instante o lado social, a gente participa em todos os setores de ações esportivas, culturais, patrocinando campeonatos, gincanas escolares, estamos sempre presentes nisso e junto a entidades que necessitam de doação mensal, como as que atendem deficientes visuais, que acolhem dependentes químicos e muitas outras”, explicam os irmãos.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

Todos os meses a empresa recebe a visita de pessoas e entidades que vão buscar alguma contribuição em mantimentos. “Dia dos Pais, do Professor, Dia das Mães, a Miragina sempre está participando de alguma forma. Por meio do esporte, levamos nosso nome até a países asiáticos com patrocínios”.

CURIOSIDADE

Uma indústria com mais de 50 anos de existência carrega consigo inúmeras boas histórias. A visita de clientes para conhecer a indústria já é corriqueira. “A gente também convida porque temos o maior orgulho de receber alguém que venha visitar nossa empresa”, diz Abrahão. O local recebe crianças, jovens e adultos. “Fazíamos muitas visitas escolares até antes da pandemia, crianças de 2 a 12 anos. Elas viam todo o processo. Para nós, isso é muito importante. A gente formou gerações aqui. Crianças que hoje são adultas e dizem que vieram aqui aos 6 anos de idade”, comemora Luiz.

A mascote da empresa, a menininha das embalagens Miragina, já existe há bastante tempo. “A gente brincava aqui dizendo que era nossa irmã, chamada Sara, a Sarinha, que faleceu. Éramos três irmãos e hoje é só eu e ele [Abrahão]”, diz o presidente.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

Abrahão conta que quando os pais começaram a construir a empresa, o próprio pai escolheu a área onde funciona a fábrica até hoje. “Ainda era tempo de intervenção militar, era tudo mato aqui, só tinha uma casinha, não tinha mais nada”. Antes disso, os pais trabalhavam com uma embarcação que fazia o transporte de mercadoria pelos seringais, nos tempos áureos da comercialização da borracha.

Os produtos Miragina não possuem conservantes, e os proprietários buscam fazê-los da maneira mais saudável possível. “Não usamos conservantes, nossos biscoitos têm validade de 6 meses. Isso porque sempre prezamos pela qualidade”, afirma. O forno que hoje assa os produtos está prestes a ser trocado por um mais moderno, mas mesmo com bastante tempo em atividade, o equipamento faz 13 tipos de produtos.

Essa é a indústria em atividade mais antiga do estado do Acre. “Miragina sempre foi uma empresa familiar. Nosso pai não queria sociedade com ninguém. Meu pai era uma pessoa que não teve muito estudo, mas tinha uma visão muito grande, uma pessoa dinâmica. E depois, quando viram que o negócio estava dando certo, quiseram fazer sociedade, mas meu pai não quis. Ele dizia: “aqui é só da minha família”, lembra Abrahão.

A irmã Sarah Assis Felício, já falecida, e o primo José Miguel Assaf também tiveram importante participação junto ao Grupo Miragina.

REDES SOCIAIS E NOVO PÚBLICO

A ampliação do mundo virtual também atingiu a marca, que hoje trabalha de maneira assídua na internet. A intenção agora é conquistar a nova geração de consumidores. “Tudo chega a nós. A gente ouve muito: “Miragina, me patrocina”. Pessoas que estão fora do Acre tiram foto com a bolacha e nos enviam, tem mãe que compra caixa de bolacha e manda para os filhos que estão fora, é muito interessante”, comenta Luiz.

Os produtos Miragina são vendidos atualmente em todos os 22 municípios acreanos, em Porto Velho (Rondônia) e Manaus (Amazonas). “Temos uma agência que organiza nosso marketing, hoje uma preocupação nossa é ver que nossos clientes antigos estão com 70, 80 anos, e estamos preocupados em fazer chegar o produto nessa geração nova. Então, tem que chegar na linguagem deles, no linguajar da moçada, temos que acompanhar”, afirma Luiz.

EXPECTATIVAS

A pandemia de Covid-19 também fez com que a empresa desse uma pausa nos planos, uma recuada nos projetos. Mas o objetivo de expandir o negócio ainda está muito vivo em apresentar novos produtos. Abrahão garante: “demos uma maneirada, mas nunca deixamos de ver o que íamos fazer. Até agora, estamos segurando a barra bem legal. Sempre seguimos na linha de manter o padrão”.

O presidente da empresa, José Luiz, deixa um incentivo àqueles que também tentam um lugar ao sol: “faça bem feito, que vai dar certo. Esse é o nosso lema. Procuramos fazer o melhor produto, no melhor preço, para que ele esteja sempre acessível a todas as camadas da população e com a qualidade que todo mundo merece. Nossa política é sempre trabalhar com insumos da melhor qualidade. Um produto bom, demanda boa matéria-prima”, conclui.

Destaque Meio

Transporte coletivo luta contra declínio e mantém empregos após perder passageiros e dinheiro na pandemia

Empresas de ônibus perderam quase R$ 4 milhões por mês circulando sem demitir funcionários e sem demanda

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O sistema de transporte público coletivo em qualquer capital do Brasil é sempre pauta de intensos debates. Séculos se passaram desde que o modelo foi implementado e até os dias atuais há discussão de como se pode melhorar e agregar maior número de passageiros satisfeitos. Na capital do Acre, o sistema vem passando por uma remodelagem a fim de aprimorar os serviços oferecidos à população. No entanto, ainda lida com os prejuízos acarretados pela devastadora pandemia do novo coronavírus. As empresas que atuam em Rio Branco, São Judas Tadeu e Via Verde, tentam contornar a perda de 83% dos passageiros e cerca de R$ 40 milhões.

Assim como demais setores da economia a nível mundial, o transporte coletivo também sofreu impactos negativos com a suspensão da maior parte das atividades comerciais devido ao alastre da Covid-19. Porém, com uma diferença: enquanto outras empresas puderam se adaptar a novas ferramentas de vendas (delivery;e-commerce), o transporte público era praticamente obrigado a manter veículos na rua, mesmo sem passageiros suficientes, no auge da pandemia.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

A expectativa para os próximos meses em Rio Branco é de progresso entre os trabalhadores e o Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo do Estado do Acre (Sindcol-AC), mesmo após a crise sanitária ter provocado uma verdadeira avalanche de problemas ao sistema, que já se encontrava numa situação instável em meio à troca de gestão no município e falta de entendimento entre prefeitura, empresas e Câmara de Vereadores.

Os meses de abril e maio de 2020 foram os piores dos últimos anos para o transporte público local. O sistema perdeu quase dois milhões de passageiros num único mês no pico da pandemia. As empresas da capital acreana chegaram a perder em média quase R$ 4 milhões por mês por causa da pandemia. “Só de 2020 a 2021 houve queda de 66% de passageiros nos ônibus. Mas acreditamos que os coletivos podem recuperar esse passageiro, bem como a receita nesse período pós-pandemia. Com as aulas retornando e a cidade se movimentando novamente, a tendência é o passageiro voltar”, explica o presidente do Sindcol no Acre, Aluízio Abade.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

As empresas de transporte coletivo alegam que passaram a lidar com um cenário complicado desde o final de 2019, quando passou a ser permitido o funcionamento do táxi compartilhado, também conhecido como táxi-lotação em Rio Branco. “Com isso, houve queda de passageiros usuários do sistema. Não houve a fiscalização determinada pela justiça, não tivemos tempo de nos adequar ao táxi compartilhado e à demanda que foi subtraída do sistema. Em seguida veio a pandemia, que desorganizou toda a nossa estrutura financeira”, lamenta Abade.

Os transportes coletivos saíram de um faturamento de quase R$ 6 milhões mensais e caíram para um rendimento de R$ 1,5 milhão até este mês de setembro. Aluízio destaca que na pandemia o comércio em geral fechou, deixando de gerar custo de energia elétrica, de pagamento de funcionários e muitos outros aos comerciantes. “Já nós, não. Nós não paramos na pandemia, rodamos todos os meses com custo de óleo diesel, de mão-de-obra, de garagem etc, tudo isso sem transportar passageiro”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

E foi justamente esse fator que ocasionou quase que uma decadência total do transporte coletivo, pois acabou tirando a capacidade de investimento que essas empresas de ônibus poderiam possuir. “Aí veio atraso de folha de pagamento, de manutenção de veículo. E o poder público constantemente fiscalizando e vendo que realmente não estamos ainda com demanda. Isso desencadeou nessa desorganização financeira do sistema”, salienta o presidente do Sindcol.

Abade ressalta que todo o sistema de transporte público, quando este não consegue cobrir sua própria despesa por determinado motivo, o município tem por obrigação (constante em contrato) entrar com subsídio, um apoio monetário concedido por uma entidade a outra entidade, no sentido de fomentar o desenvolvimento de uma atividade ou o desenvolvimento da própria. “E infelizmente nós não tivemos nenhum tipo de ajuda, conforme confirma relatório oficial recebido pela prefeitura”.

Impasse na prefeitura

Segundo os empresários, após a troca de gestão municipal, o prefeito Tião Bocalom (Progressistas) demorou a entender como de fato funciona o transporte coletivo, acumulando uma série de imprevistos ao sistema. “Juntou tudo isso. Percebemos essa dificuldade porque até o novo governo se adaptar, demorou. Normalmente, acham que nós somos bicho papão. E não existe isso no transporte. Passamos quase um ano tentando fazer a prefeitura entender o que é o transporte público”, diz Aluízio, afirmando que em dezembro de 2020 haveria o aporte de mais de R$ 2 milhões, que foi barrado pelos vereadores na Câmara.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O município ainda tenta fazer o mesmo aporte, que de acordo com as empresas, trata-se de uma antecipação de receita. “O que o prefeito está propondo é a desoneração de tarifa para a gente tentar buscar o passageiro. Ele incentiva o passageiro a andar de ônibus, incentiva o comércio e empresários a contratar funcionários que não só moram próximos de seus locais de trabalho, mas de outros bairros, fazendo com que haja circulação na cidade”, garante o Sindcol.

Abade assegura que o repasse dos R$ 2,5 milhões pode fazer com que o transporte público melhore, a prefeitura receba receita e que o cidadão pague mais barato na tarifa de ônibus. “Vai gerar emprego e receita. E ainda podemos agregar passageiro no coletivo, conservar uma mesma quilometragem, aumentando o número de usuários”.

O trabalho vem sendo realizado para que não haja uma queda do sistema como a que ocorreu em Rondônia, que passou por um sistema bastante deficitário com o advento do táxi compartilhado, que tomou o mercado de passageiros. “Nesse caso, a frota foi muito reduzida. Ultimamente a prefeitura de Porto Velho fez uma nova licitação para tentar recuperar o sistema. Então a cidade está rodando com 40 ônibus. Aqui em Rio Branco vai rodar a partir do mês que vem com 100 ônibus”.

Cabo de guerra na Câmara Municipal

O Sindcol acredita que a atitude de alguns vereadores da capital em não querer permitir o aporte às empresas não compromete a São Judas Tadeu ou Via Verde, mas unicamente um benefício da sociedade. “Só dificulta para os usuários do transporte coletivo, porque a tarifa está sendo reduzida e eles [vereadores] querem votar contra. É meio complicado. Não sabemos a forma com que o prefeito vai conduzir isso, mas o certo é que a Câmara aprovasse esse projeto em prol do usuário”.

Na comparação de arrecadação entre 2019 e 2020 é possível observar uma queda brusca nos números, tanto de receita quanto de usuários. “Nós conseguimos usar os planos do governo federal, o Benefício Emergencial, onde as empresas pagavam 30% do salário dos funcionários e o governo 70%. Como reduziu carro na rua, a gente reduziu a quantidade de pessoas. Uma equipe trabalhava 10 dias, depois outra mais 10 e outra também 10 dias, mas não mandamos ninguém embora. A frota só ficou reduzida”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O “X” da questão atualmente se resume às despesas que as empresas estão tendo que manter sem obter receita para tal. “Se você pega a despesa de diesel e a receita, não cobre. Você sai de uma receita de R$ 5 milhões em novembro de 2019 e entra numa receita de R$ 1,8 milhão, fica insustentável perder R$ 3 milhões do dia para noite e a despesa continuar a mesma. Dessa forma, o sistema fica em decadência”.

Transporte clandestino

O sistema espera que a prefeitura de Rio Branco passe a atuar com uma fiscalização mais séria em cima do transporte clandestino e tente ajustar, colocar regras no modelo de táxi compartilhado, para que não interfiram no sistema coletivo dos ônibus. Abade acredita que deve-se criar uma modalidade para o táxi compartilhado ou lotação. “Que não seja como transporte público, mas transporte de táxi. Que haja espaço para todo mundo”.

Para o Sindcol, não há justificativa para o táxi sair do ponto final junto com o ônibus, uma vez que o coletivo carrega uma demanda maior, teoricamente mais baixa da classe, e o táxi passe nos pontos atraindo passageiros pagantes e deixando o passageiro do vale transporte no ônibus. “Isso quebra completamente o sistema. Acho que a prefeitura tem que achar um caminho sim para o táxi compartilhado, que já foi bastante agredido pelo sistema do Uber, mas que tenha regras diferentes do ônibus e não seja um concorrente do transporte coletivo”, declara Aluízio.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O transporte coletivo torce para que a volta às aulas, no próximo mês de outubro, e o provável aumento da demanda, consiga voltar com a frota total e atender a população e continuar com os funcionários que não foram dispensados. “O nosso compromisso com o sindicato era não demitir na pandemia, garantir o trabalho de todos, porém nós carregamos um custo alto de folha de pagamento que tem que ser resolvido com urgência. Acho que o poder público deveria estar caminhando nessa forma que está, com desoneração de tarifa, e que a Câmara aprove esse projeto do repasse para que isso possa ocorrer”, diz o presidente do Sindcol.

O aporte financeiro será usado pelas empresas para pagar os salários dos trabalhadores do transporte coletivo e reduzir a tarifa de ônibus em 50 centavos. O superintendente de Transportes e Trânsito de Rio Branco, Anízio Alcântara, afirmou recentemente que a prefeitura busca puxar para si o pagamento das gratuidades (pessoas que usam o transporte público sem pagar) para que se possa reduzir a passagem de ônibus.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O Conselho Tarifário de Rio Branco já aprovou por unanimidade a redução no preço da passagem de ônibus de R$ 4 para R$ 3,50, após entender que a desoneração favorece os usuários do transporte coletivo da capital acreana. A ideia agora, segundo o Sindcol, é focar em tentar baixar ainda mais a tarifa que já ganhou uma redução. “Vamos trabalhar com a desoneração dos estudantes também. Talvez o estado e o município, assumindo o subsídios dos estudantes, essa tarifa pode chegar a 3 reais”, garante Abade.

A RBTrans afirma que a redução pode representar um grande avanço. “Reduzindo a gratuidade, reduz a tarifa do usuário. Isso é só o primeiro passo de uma grande luta e sequência de trabalho que vai ter continuidade até ter valores menores para população e com a qualidade de serviço diferente do que está hoje. Não se pretende baixar a tarifa e continuar como está nos coletivos. As duas coisas estão caminhando”, assegura.

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Gente - Economia e Negócios

Made In Acre: camiseta para viagem deu vida à marca que chegou a artistas internacionais

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Um empreendimento que além de levar o nome do Acre ainda proporciona uma verdadeira viagem pela cultura acreana. Na loja, o cliente pode deitar numa rede, comprar e comer castanhas e até beber água direto do filtro de barro com um nostálgico copo de alumínio. Assim é a Made In Acre, que em menos de dois anos consolidou seu espaço no mercado atingindo artistas de renome internacional.

A loja iniciou sua atividade em dezembro de 2019, vendendo apenas camisetas com a frase que deu nome à empresa. Hoje já disponibiliza 16 tipos de produtos. A visão empreendedora veio da publicitária Rayssa Alves e da empresária Juliana Pejon. Rayssa é uma acreana de 30 anos e Juliana veio de São Paulo há mais de 20 anos, se diz acreana de coração junto de sua família, que tem tradição no ramo empresarial do estado.

A Made In Acre conseguiu unir a modernidade com o rústico num ambiente milimetricamente pensado para ser o que é hoje, muito mais que uma simples loja de vestuário. Além de vender camisetas, chinelos, bonés, ela busca resgatar a história do único estado que, literalmente, lutou para ser brasileiro.

Tudo começou numa viagem de carnaval ocorrida há dois anos, quando um grupo de oito amigas, entre elas Rayssa e Juliana, decidiu curtir a festa em Recife (PE). A dupla teve a ideia de fazer uma camiseta para identificar o grupo no aeroporto e durante todo o carnaval. “Na camisa estava escrito ‘Made in Acre’, só que não do jeito que é hoje, e sim com outro layout. Era o bloquinho das amigas do Acre”, contam.

Elas nem imaginavam que essa simples atitude faria tanto sucesso, a ponto de se tornar uma fonte de renda. “Todo mundo gostou, tanto as pessoas de lá [Recife] quanto os moradores daqui [Acre]. Isso porque nosso estado ainda é um evento lá fora, um assunto. As pessoas, quando nos viam, falavam: vocês são do Acre? O Acre existe? A gente postou foto com a camiseta e começaram a perguntar onde tínhamos feito”.

Transformando o acaso em negócio

Era madrugada quando Rayssa e Juliana estavam saindo de uma das festas de carnaval, sentadas numa calçada a espera do Uber, no momento em que perceberam estar diante da possibilidade de transformar o acaso em um negócio. “A gente estava conversando sobre isso, sobre as camisetas, quando eu disse: amiga, não acha que ao invés de a gente falar como que a gente fez [a camiseta], a gente fazer e vender isso?”, questionou Rayssa.

Juliana prontamente respondeu: “caramba amiga, que legal. É isso”. Ela já tinha todo o conhecimento sobre loja, sobre como lidar com empresa, uma vez que já atuava com roupas e sua família também já possuiu indústria têxtil fora do Acre. “Pensamos o seguinte: Juliana entrava com essa parte da administração e eu, que sou formada em publicidade, conheço de marketing, entrava com a criatividade, a parte de criação, design e tudo mais”.

A ideia ornou perfeitamente, mas até então mirava somente a comercialização de camisetas. No entanto, as amigas começaram a perceber que a Made In Acre não seria algo pequeno. “A marca se transformou. Hoje a gente fala que a Made In Acre é um sentimento dos acreanos, onde a gente consegue materializar nos produtos algo mais profundo. Começamos a ver como os acreanos estavam carentes de algo que representasse a gente do Acre, o valor, que resgatasse a nossa história, que tivesse essa vida”.

Do surgimento da ideia (fevereiro de 2019) até a concretização do projeto (dezembro de 2019), passaram-se 10 meses. Entretanto, veio a pandemia do novo coronavírus, que impactou o percurso natural da empresa. “Isso foi uma preocupação para nós, assim como para todos os empresários, mas especialmente porque estávamos começando”. Contudo, as empreendedoras observaram que, como as pessoas estavam ficando mais em casa, ou não podiam vir ao estado por causa da Covid-19, a loja poderia se tornar uma referência para presentear.

“Tinha gente que morava fora, mas que estava aqui, assim como tinham pessoas daqui que estavam fora e com isso começamos a receber muitos pedidos para enviar nossas camisetas para fora do estado. A gente cresceu muito nesse período, aliado aos nossos conteúdos que passamos a publicar nas redes sociais da marca. Isso fez as pessoas se aproximarem mais, que elas interagissem, principalmente com a série ‘Minutos da Nossa História’, que era postada no Instagram”.

Na pandemia, as proprietárias colocaram para funcionar as entregas por meio do delivery. O sistema agradou tanto a clientela que permanece até hoje. “Pegou muito bem e continuamos com ele porque deu certo. As pessoas ainda falam para a gente que a loja vem resgatando o amor pelo estado, pela curiosidade sobre a história do Acre e muito mais e as entregas facilitam isso”.

Junção do moderno com o tradicional

Rayssa e Juliana fazem questão de mostrar que a Made In Acre não é só para venda de produtos de cunho regional, mas que se diferencia daquilo que é comercializado em outros estabelecimentos, como os do Mercado Velho, por exemplo. “A gente une a modernidade com a nossa história e o nosso intuito era mostrar para as pessoas que isso era possível”.

Para elas, o público só pensava no Acre lembrando elementos regionais, com características da Amazônia, mas que o estado não é só isso. “Outro pensamento era de que nossos produtos não teriam tanta qualidade quanto os de fora. E começamos a bater nesse ponto, de que podemos ter, sim, coisas de valor. Infelizmente não conseguimos com que nossa produção seja 100% acreana ainda por falta de estrutura local, falta de fábricas, mas o que a gente consegue fazer aqui, a gente faz”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

Entre os 16 produtos vendidos com a marca Made In Acre, estão: camisetas, bonés, chinelo, garrafas, pochetes, mochilas, máscaras, lenço para pet, body infantil e o diferencial, os acessórios indígenas, que podem compor o look ou a decoração de casa. “Dessa forma as pessoas veem que esses objetos podem ser modernos, que podem ser usados no dia a dia. Eu e Juliana usamos diariamente para as pessoas verem também como são peças versáteis”.

O espaço físico da loja valoriza aquilo que representa o estado, os costumes e as peculiaridades do acreano. “As pessoas percebem isso e falam que é a nossa cara. Conseguimos colocar o conceito na loja. A gente também disponibiliza livros para os clientes lerem aqui, livros que são doados, falando sobre a história do Acre. Eles podem simplesmente sentar na rede e ler. Apesar de termos herdado a rede do povo nordestino, faz parte da nossa história”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

Rota do turismo e referência

Antes de se voltar especificamente para as vendas, Rayssa e Juliana se preocupam com a experiência vivida pelos turistas e clientes acreanos dentro da Made In Acre. “Quando chegam aqui a gente conversa, pergunta de onde é, se conhece tal coisa, a gente sempre leva informação, conteúdo para a pessoa saber que nossa intenção não é só ela vir aqui e comprar. A gente não faz isso, a gente não quer que a pessoa tenha essa sensação de entrar, comprar e ir embora. A quer troca, conversa”.

Se o cliente não morar no Acre, ele recebe instruções, dicas, orientações de onde ir e o que fazer pelo estado no período de sua estadia. “Em meio tudo isso, a gente vai fazendo nosso trabalho. Estamos começando a receber muitos turistas. A gente percebe o quanto o Acre está aberto e como está aumentando a vinda de pessoas de fora, que chegam só para conhecer o estado, para ir ao Crôa, na Serra do Divisor, nas aldeias, o ecoturismo está muito valorizado”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

As donas da marca ainda pretendem expandir o negócio e tornar a loja algo muito maior do que se encontra atualmente. Sem entrar em detalhes, as proprietárias têm planos de construir filiais em outras cidades, já que a necessidade de aumentar o espaço já é sentida. “Temos sonhos grandes para daqui dois anos, aproximadamente”.

O encontro com o astro Alok

O envolvimento, mesmo que indireto, entre o Dj Alok, internacionalmente conhecido, e as camisetas da Made In Acre deu ainda mais força ao processo de divulgação que a marca já vinha trabalhando. O produtor musical brasileiro está fazendo um projeto com os indígenas do Brasil e vem tendo contato com alguns indígenas, um deles Mapu Huni Kuin, do Acre. “Ele também é um amigo nosso [Rayssa e Juliana]. Mapu falou que foi convidado para fazer essa gravação e a gente falou para ele levar um presente. Mandamos camisetas para a família toda em junho desse ano”.

A dupla credita que teve sorte porque Mapu criou uma amizade sincera com Alok. “Eles tiveram uma conexão muito grande durante a gravação, então quando o Mapu entregou o presente para ele, que eram as camisas, tinha muito mais sentido. Não era uma marca, não foi a Made In Acre que mandou para o Alok, foi o Mapu, um amigo que entregou o presente, ou seja, mais significado, mais sentimento”.

Elas agradecem por terem tido a oportunidade de fazer parte desse momento. “Tudo fez muito sentido, as camisas, com tudo que ele estava fazendo em prol dos indígenas. Ele se familiarizou com isso e sentiu no coração de fazer aquelas postagens”, relatam sobre a publicação que o ícone da música eletrônica fez mencionando a loja em seu Instagram. “A gente não pediu e nem imaginávamos que isso iria acontecer. Quando a gente viu a postagem, a gente não acreditava, porque ele marcou. Tem noção do quanto deve valer um @, uma menção do Alok?”, brincam.

A loja também conseguiu atrair mais seguidores de várias partes do país e do mundo depois desse episódio. “As pessoas sempre chegam aqui e comentam esse fato. O discurso dele em Brasília, usando outra camisa nossa, também foi muito especial. Essa a gente mandou antes de lançar e tocou muito ele”. O Dj é conhecido por usar as peças em seu dia a dia dele. “Quando vimos que ele usou naquela situação, a gente falou: ele entendeu, fez todo o sentido. E é isso mesmo que a Made In Acre quer, mesmo que não tenhamos o contato direto com ele, ele abraçou a marca e isso nos faz ficar muito gratas”.

Antes da loja, Rayssa trabalhava no marketing de empresas e vídeos autônomos. A produção da marca é dela, assim como os vídeos que fazem e as fotografias. Hoje Juliana também participa das criações. “A gente também pega referência de outras criações e a gente traz para Acre de alguma forma. Temos alguns parceiros que estão começando a entrar com a gente, como ilustrador, designer, pois não estamos conseguindo mais parar só para criar devido a demanda”.

Até agora, a Made In Acre lançou três coleções, apesar de sempre lançar um produto ou outro entre elas. “Somos muito intuitivas, quando vemos que alfo, uma frase, dá para pegar, a gente lança. Não esperamos acontecer. A gente viu a brincadeira do governador [Gladson Cameli] na frase ‘Mim Dê Que Eu Tomo’ tentamos adaptar para a loja. Num final de semana fizemos isso e foi um sucesso essa tiragem. Tanto que até hoje as pessoas ainda perguntam sobre ela”.

Agora, a marca quer lançar uma nova coleção voltada mais para a Amazônia e aos povos da floresta, que é com o que elas estão se conectando bastante no momento. “A gente quer trazer camisetas com os nomes das medicinas para mostrar para as pessoas que temos isso aqui no Acre, que é nosso, e também para quem vem em busca disso. A gente acha que as pessoas vão ter essa referência”.

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Há 23 anos surgia Os Cobras Dance, grupo que carimbou o Acre na cena musical por gerações

Grupo fez com que o Acre se tornasse a capital do dance nacional e referência na cultura de rua

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Se você não é um dos millennials, geração de pessoas nascidas entre 1980 e 1995, provavelmente não vivenciou um dos maiores fenômenos artísticos que o Acre já teve. Ainda assim, deve ter ouvido falar (e muito) sobre Os Cobras Dance. As chamadas “Gerações Z e Y” recordam com saudosismo a época em que a música autoral acreana ganhou palcos e espaços midiáticos Brasil afora com o hip hop, o rap e a dance music lançada pelo trio Silvio Alves da Silva Neto, Samyron Andrade e Delcimar Mesquita (que converteu-se ao Evangelho e deixou o grupo há um ano).

O sucesso foi estrondoso e ultrapassou barreiras que nem mesmo os músicos imaginavam um dia alcançar. O trabalho que Neto, agora com 50 anos, e Samy, de 48, sustentam até hoje foi idealizado em junho de 1998 na capital acreana. Antes disso, eles já integravam há mais de 10 anos um coletivo que atuava em prol da evolução do Hip Hop na cidade. Tanto que anos depois o grupo consolidou o estado como um dos berços do movimento organizado no país, inclusive com aprovação de leis. Foram cerca de 9 mil cópias de CDs vendidas. Se somar a venda de pirataria, o resultado triplica. Na época, o disco original de Os Cobras Dance era vendido nas lojas por R$ 35 reais e nenhum acreano havia agradado tanto.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O fato é que Os Cobras Dance conseguiram viver da própria música e ditaram moda por muito tempo. Até hoje o grupo tem shows marcados dentro e fora do estado, fazendo parte da vida de pelo menos três gerações de acreanos. Quando começaram, cada um tinha cerca de 23 anos e a ideia era fazer um estilo de música que era febre na época: o dance nacional. “A gente queria agregar o nosso estilo de dança, de se vestir, de se apresentar na sociedade, e com isso ganhar uma grana. Nós já vínhamos do Hip Hop, mas ele em si não tem quase lucro. Aí sentei com o Neto e com o Delcimar para conversar, já que fazíamos parte de um coletivo de dança break e éramos vizinhos”, conta Samyron.

Foi aí que deu início à trajetória dos “Cobras”, que escolheram esse nome em referência a uma gíria que representava algo bom, bem feito, profissional. Antes da carreira musical, o trio também já se chamou “Os Cobras de Rua”. Segundo eles, o dance veio pela música eletrônica a fim de difundir o trabalho nas casas noturnas e valorizar o Hip Hip, movimento universal que une cinco elementos culturais da rua: a dança break, o grafite, o Rap, o DJ e o conhecimento.

“Morávamos nos bairros Esperança e Mascarenhas de Morais. O Neto fez a primeira música (Não dá Pra Namorar), em seguida a “Me Chama de Galinha”, eu já estava encaminhando outra (Cara de Bundão) e Delcimar também fez uma. Aí fomos ver os custos [para produzir]. Aqui ainda não tinha o serviço de produção de música, então tínhamos que ir para Manaus ou Porto Velho”, relata Samy. Como os custos no Amazonas seriam maiores, o grupo decidiu ir para Rondônia.

O drama para o primeiro CD e início do sucesso

Concretizar o sonho da primeira produção musical não foi fácil para Os Cobras Dance. Assim que chegaram à capital vizinha, fizeram pesquisa de preço e o trabalho não sairia por menos de R$ 6 mil. Mas só em chegar a Porto Velho já foi uma verdadeira operação de guerra para eles. “Fomos de carona. O custo total para produção era muito dinheiro naquela época, fora alimentação e estadia. Aí voltamos para Rio Branco e fizemos uma lista com todos os nossos amigos”, contam.

A lista era para ver quem poderia ajudar o grupo a se manter em Rondônia até que o CD ficasse pronto, período que durou aproximadamente seis meses. Amigos, familiares e até fãs que eles já tinham conquistado se prontificaram a doar R$ 3, R$ 5, R$ 10, até quilo de farinha, arroz, feijão, rede, colchão etc. “Fomos para lá em junho e terminamos em janeiro de 1999, quando voltamos ao Acre. A primeira música a ser tocada na rádio foi a que estourou e puxou as outras, a Não dá para Namorar. Fizemos um LP com nove músicas”.

Neto percebeu que Os Cobras Dance estavam fazendo sucesso de verdade quando os moradores de Rio Branco começaram a gostar e pedir as músicas nas rádios. “As rádios começaram a pedir para a gente mandar as músicas pra elas. Taxistas, camelôs tocavam demais também”. Rapidamente as canções dos Cobras estouraram por boa parte da Região Norte, fazendo com que o estúdio musical que produziu o CD virasse uma referência no ramo. Boa parte desse sucesso se deve à ousadia dos integrantes. Eles resolveram comprar 300 fitas e gravar as músicas para entregar aos vendedores ambulantes do calçadão e taxistas. “O trabalho de mídia social que as pessoas fazem hoje na internet, a gente fez na mão. A divulgação por táxi deu muito certo”, brinca. Uma semana depois, só se falava em Cobras Dance.

Dessa forma, o Acre passou por muito tempo sendo a capital do dance nacional. “Todos os grupos queriam vir aqui para, além de conhecer a gente, saber mais do nosso estado. E a gente começou a fazer shows em outras capitais, até internacionais, como Bolívia, Peru e quase fomos a Portugal, só não deu certo porque faltava passaporte e iria demorar para tirar”.

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Muitos dos empecilhos que surgiram para o grupo podem ter acontecido por falta de um empresário. Eram eles que cuidavam de tudo sozinhos, na maioria das vezes, com pouco tempo. “Mesmo assim a gente nunca deixou de fazer show. Uma coisa que era pra ser um hobby, um momento de lazer, se transformou na nossa principal fonte de renda. Até hoje temos isso como renda, temos shows marcados”, declara Neto.

Rotina exaustiva e mais de 50 hits

Passado o sufoco de se estabelecer na cena musical, veio um novo desafio. Acostumar-se à nova rotina era um exercício quase que diário para o grupo, que já não conseguia passar datas comemorativas com a família, nem mesmo triplicando o valor do cachê aos contratantes.

“Era uma euforia. A gente tinha agenda lotada por quatro meses seguidos, com shows de quarta a domingo, às vezes com até três apresentações no mesmo dia. Rodamos o Acre inteiro, Rondônia, parte do Amazonas e Mato Grosso”, detalha a dupla. Desde que subiram ao palco pela primeira vez, num Dia das Mães em maio de 99, nunca faltou proposta para show (exceto no momento de pandemia da Covid-19). Mesmo com dificuldade para chegar ao interior do estado, eles enfrentaram sol, chuva, lama e até viagem em canoa pelos rios.

“A gente chegava a perder até 4 quilos por semana por causa da correria. Era aproximadamente um quilo que a gente gastava por show. A gente dançava muito, era uma hora e meia cantando e dançando”, diz Neto. Entre as músicas mais marcantes dos Cobras Dance estão: Não dá Pra Namorar, Cara de Bundão, Me Chama de Galinha, Baby e Te Cuida Valentão. Ao todo, o grupo tem 56 músicas autorais. “É um dos únicos aqui do Acre que sai para fazer show com músicas autorais que fazem sucesso até hoje. É nossa marca registrada. Os contratantes sabem que a gente leva o que é nosso, divulgando nosso estado. Fora do Acre fazíamos questão de dizer de onde viemos, sempre elevando nossa origem”.

Neto e Samyron são reconhecidos até hoje nas ruas. Segundo eles, Os Cobras já estão na terceira geração de público. “Já fizemos shows em que estavam pai, filhos e neto. Aniversário de 15 anos incontáveis, festas de casamento, noivados. É um reconhecimento e carinho muito bom. Continuamos com esse trabalho de resistência e resgate positivo do hip hop para juventude”. Fora a música, são mais de 35 anos de vida dedicados ao coletivo, ao trabalho na rua, no mecanismo da música.

Apresentação no Ratinho e a pandemia

Recentemente eles atingiram o ápice ao se apresentarem no Programa do Ratinho, em exibição nacional. Ainda com a formação original, Os Cobras Dance participaram do quadro “É Dez ou Mil” no SBT, sendo tão bem avaliados pelos jurados do quadro que levaram o prêmio máximo de R$ 10 mil.

Os acreanos cantaram a música “Não dá Pra Namorar”.

Para eles, foi um verdadeiro divisor de águas. “O problema foi a chegada da pandemia do coronavírus, porque aquela apresentação deu uma visualização grande pra gente. A gente saiu de lá já com muitos shows marcados”, disseram, tendo que cancelar por causa da doença.

Antes deles, nenhum outro artista acreano havia se apresentado num programa de renome nacional e ainda levar um título. ” E o mais interessante é que só participa por indicação de outro artista. E fomos os únicos a cantar música autoral”.

Como vivem e o que esperam do futuro

Mais da metade da vida de Neto e Samy foi dedicada ao Cobras Dance. Eles conseguiram o feito que poucos alcançaram e hoje ainda usufruem do que sobrou de legado do grupo. “Seguimos fazendo renda com a música, claro que não é mais a nossa principal renda agora, mas continuamos na luta para dar continuidade a esse legado de romper gerações e também pelo nosso prazer”. Os admiradores estão por todos os lugares, seja reconhecendo-os na rua ou nas redes sociais mostrando CDs que ainda guardam. “Muita gente dessa geração conhece nossas músicas, mas às vezes não sabe quem canta, então fazemos o trabalho continuar. As pessoas nos ligam de vários estados dizendo que estão nos ouvindo. Isso é muito gratificante”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

Os integrantes fazem outros tipos de trabalhos atualmente, como especialidades em informática, que também o ajudam na música. Neto revela que o primeiro site a levar o nome dos artistas a nível mundial foi o Palco MP3. “Fomos pioneiros a entrar nessa plataforma em 2007/08 e passamos mais de seis meses em primeiro lugar na Região Norte, Centro-Oeste, e em 10° lugar do nosso estilo a nível nacional. As pessoas ligavam de vários estados querendo assistir nossos shows”.

Para eles, o som propagado pelo Cobras Dance é raiz do Norte do Brasil, mas que toca em outras regiões até hoje. “Ainda temos muito o que fazer. Não temos nenhum clipe ainda, nunca fizemos uma live. Sempre recebemos mensagem perguntando e cobrando e vamos fazer. A gente rompeu barreiras. Às vezes a gente encarava muito trabalho só pelo fato de se apresentar, mesmo sem ganhar o valor cobrado. Quando você faz uma coisa pensando só no trabalho, se der alguma coisa errada você desiste. A gente não, a gente estava se divertindo. Se desse errado a gente encarava do mesmo jeito”, destacam.

Samyron relembra que mesmo estando com um público de 10 pessoas ou de 10 mil, o show sempre era e sempre será o mesmo. “Já chegamos a fazer um show numa casa noturna que estavam só os seguranças lá. A gente entendia, reduzia o cachê ao contratante. Falhamos nosso sucesso sozinhos. Temos que agradecer sempre a Deus e a nossa família. Pai, mãe, irmãos, sempre nos deram apoio. Mas empresários, o poder público em geral nunca chegaram. Sempre fomos profissionais, mas nunca misturamos trabalho com política. Fazíamos muitos comícios, mas era contrato, era trabalho”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O Hip Hop como salvação de vidas e legado aos filhos e netos

Fazer hip hop nunca foi difícil, complicado mesmo era organizar o movimento. E essa organização no Acre tem muito trabalho de Neto, Samy e Delcimar. Eles começaram com o hip hop organizado no final dos anos 80. No Brasil todo, só três estados têm esse movimento organizado com leis e graças aos Cobras e demais membros de coletivos, o Acre é um deles. “Nosso grupo é referência, é a velha escola desse movimento. O break hoje é o mais novo esporte olímpico. Por isso, já estamos organizando a Federação Acreana de Break Dance. O que em 2024 vai ser um esporte olímpico, nós já fazíamos 30 anos atrás na rua”.

A possibilidade de um menino da periferia conseguir ser campeão mundial é o que move e sempre moveu o hip hop. Sem dúvidas, Neto e Samyron querem passar o movimento para os filhos e netos. “Na verdade já está sendo passado de geração em geração. Os Cobras Dance é padrinho de mais de 15 grupos e bandas do mesmo estilo e de outros, tanto daqui do Acre quanto de Manaus, Porto Velho. Muita gente começou através de nós. Fazer música autoral hoje em dia e fazê-la expandir é difícil. Foi um trabalho nosso de muito tempo”, afirmam.

A falta incentivo do poder público é o que mais tem prejudicado essa classe artística, lamentam os músicos. Por isso, a linguagem em forma de música e outras artes aproxima a comunidade. “A gente sabe como funciona o sistema. A periferia é 70% da população. A gente fala diretamente com os desfavorecidos. Não somos só artistas, temos que passar algo que eles possam absorver também, não é só diversão. No intervalo das músicas, num show de 1h30 e 30 músicas, cantamos músicas conscientes, para informação. Mostrando sempre a importância de jovens do subúrbio, que é de onde nós viemos”.

Neto garante que a música do grupo livrou muitos jovens das drogas. Ele também rebate o boato de que os Cobras seriam usuários: “nunca usamos nada. As pessoas ofereciam pra gente. Até empresários mesmo, mas isso nunca foi nosso estilo. Muitos grupos que surgiram depois da gente eram de jovens que não tinham o que fazer, mas que se uniram pelo exemplo dos Cobras. Hoje são pais de família de bem. Foram correr atrás do sonho e não de fazer besteira. Eles cantavam, dançavam, se divertiam. Os pais desses rapazes hoje dão graças a Deus pelos filhos que tem. Se o poder público olhar para a periferia e cuidar um pouquinho deles, a gente consegue mudar a vida de muita gente”, conclui.

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A Rainha do Tijolo do Juruá

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Foto: Felício Muniz

A empresária Janaína Verbena Gonçalves Terças, 43 anos, representa a terceira geração do ramo de cerâmica em Cruzeiro do Sul. O avô, o português Manoel Terças, começou o negócio na década de 30 do século passado. O pai, Joaquim, montou a própria olaria em 1985, empreendimento que foi assumido, reformulado, ampliado e modernizado por Janaína, que em 2013, inaugurou uma nova empresa, em outro local, com produção automatizada.

Edificações relevantes para Cruzeiro do Sul, como a Catedral Nossa Senhora da Glória, o 61° Batalhão de Infantaria e Selva, Maternidades, Hospitais do Juruá e de Campanha, Aeroporto e Quartel da Polícia Militar, têm a marca das três gerações de produtos da família Terças.

No Centro, a olaria já estava rodeada de casas e não tinha espaço para expansão, produzia muita fumaça e o barro do local não era adequado para a fabricação de tijolos. Ela e os pais, que, são separados, mas trabalharam juntos, seguiram para o novo endereço na Estrada da Boca da Alemanha em uma área de 32 hectares. No centro só ficou um escritório de vendas.

Ela cita que a decisão de ficar à frente da gestão da empresa foi tomada em conjunto com os pais e irmãos e que segue combinando tudo com o pai, que é um profundo conhecedor do setor cerâmico. Os funcionários também a apoiam na gestão, sendo que 70 por cento dos 30 funcionários estão com a família desde o início da cerâmica na década de 80.

A fabricação arcaica e manual de tijolos foi substituída por uma nova forma, com o uso da tecnologia. O salto qualitativo fez toda a diferença para a empresa, que se mantém entre as três grandes indústrias do ramo na região.

Janaína e os irmãos trabalham com o pai desde a adolescência e a experiência adquirida, além da criação liberal, que sempre teve, foram fundamentais para que ela liderasse o negócio com sucesso. Ela é a rainha do tijolo do Vale do Juruá.

“CRESCI NO BARRO COM MUITO ORGULHO”

O fato do pai, Joaquim Terças, tê-la levado desde pequena para o barreiro da olaria, ter ensinado sobre a liga do barro, dirigir máquinas pesadas e dizer que ela pode fazer qualquer coisa, fez toda a diferença na vida da empresária que agora comanda os negócios da família. Ela conhece cada etapa da confecção dos tijolos da Cerâmica Terças, em Cruzeiro do Sul. Conhece o produto que vende quando ainda é só barro no chão, a passagem pelo forno, a queima, até virar paredes de casas, prédios e ruas da cidade e nas outras 4 cidades do Vale do Juruá.

“Eu cresci no barro, gosto do barro, da cor do barro, da forma como ele se transforma. Não me imagino em outro negócio. Esse é meu ramo. O suor de todos da Cerâmica Terças, há 3 gerações está em muitas casas, ruas e muitos prédios públicos de Cruzeiro do Sul”, afirma a empresária, que deixou de lado o modo arcaico de fazer tijolos, modernizou todo o processo de confecção que era lento, pesado, com muito custo e automatizou a indústria. Com o uso da tecnologia, impulsionou os negócios e o que produzia de tijolos em um mês agora consegue em uma semana.

Foto: Felício Muniz

A dedicação aos negócios é total. Janaína, o pai e a mãe, Dona Graça, passam o dia na olaria. Chegam ao local às 7 horas da manhã, almoçam e só saem às 17 horas. Ela tem um quarto no local, onde descansa com a mãe cerca de uma hora depois do almoço. Só depois que o neto Joaquim nasceu, parou de trabalhar aos sábados para ficar com o bebê, que mora na casa dela.

“Sou a terceira geração da empresa, então tinha que melhorar tudo. Meu avô assumiu a olaria do tio Manoel Pedreira no começo do século passado. Em 1985, meu pai abriu a própria olaria. Em 2010 voltei para o Acre e vi que a empresa estava atrasada, estava instalada no lugar errado e então resolvemos mudar de local, onde o solo é adequado. Saímos do centro de Cruzeiro do Sul para a estrada da Boca da Alemanha, em uma área de 32 hectares. Como eu e meu irmão tinha viajado e conhecido outras empresas, resolvemos modernizar tudo. Nosso processo era arcaico. Era a maromba funcionando, os trabalhadores pegando com a mão e correndo com carrinho de mão, subindo e descendo pequenas vielas feitas de tábua e arrumando os tijolos nas prateleiras. A produção era pequena com custo elevado. De 2010 a 2013, trabalhamos o projeto dessa nova cerâmica, os licenciamentos, maquinários novos. Hoje nosso processo é todo automatizado, a máquina faz tudo: produz os tijolos, coloca nas vagonetas seguindo pra a secagem e, em seguida, os tijolos são cozidos. A tecnologia diminuiu a mão de obra e aumentou a produção e o que a gente produzia em um mês, agora produzo em uma semana”, relata.

Uma das grandes preocupações de Verbena é a manutenção do padrão de qualidade do produto fornecido pela família há 3 gerações. Cumpre rigorosamente a legislação vigente e atende às exigências das esferas municipal, estadual e federal. “A legislação é pesada e demanda tempo, dinheiro e mão de obra especializada. Temos que ter engenheiro de minas, ambiental e geólogo. Tentamos trabalhar de acordo com a legislação vigente”.

FAMÍLIA TERÇAS FAZ PARTE DA HISTÓRIA DE CRUZEIRO DO SUL

A história da família Terças se mistura com a de Cruzeiro do Sul e demais municípios do Vale do Juruá. São mais de sete décadas, produzindo os tijolos que construíram as casas, os prédios públicos antigos e os modernos, além das ruas do município.

Na década de 30, o português Manoel Terças, comprou do tio, Manoel Pedreira, a primeira olaria da região e deu continuidade ao negócio, que Joaquim Terças fez crescer e Janaína automatizou.

O desenvolvimento da empresa acompanhou o crescimento da região e as telhas, tijolos e outros itens da família Terças estão presentes nos primeiros prédios de alvenaria de cruzeiro do Sul, como o antigo fórum, a associação comercial e a edificação símbolo do município, que é a catedral Nossa Senhora da Glória, a padroeira da cidade, que começou a ser feita em 1957, pelos padres alemães e foi inaugurada em 1965. A primeira catedral foi construída em madeira, porém, por não oferecer segurança aos fiéis acabou em desuso.

Além da catedral, Manoel Terças forneceu itens de material de construção também para outros prédios da cidade como a associação comercial, fórum, correios, mercado central (atual Mercado Joãozinho Melo), 7° BEC (atual 61 BIS).

Foto: Felício Muniz

Edificações mais recentes, mas não menos importantes, também levam a marca Terças, já na gestão do pai Joaquim e de Janaína, como o antigo e o novo aeroporto de Cruzeiro do Sul, o antigo Hospital Geral, onde funciona agora a maternidade e Hospital da Criança, Hospital do Juruá, Hospital de Campanha, Abrigo do Menor, Quartel da Polícia Militar, antigo quartel da Polícia Militar, onde funciona atualmente o Hemonúcleo.

“Dá orgulho ver os tijolos feitos pelo meu avô, meu pai e, agora, por mim. Tenho um enorme prazer em ver o início de uma obra e depois passar e ver pronto um lugar que vai abrigar uma família ou um local público. Nossa marca está em muitos locais daqui”.

Ela gosta do tradicional. Mora na casa feita pelo avó Manoel Terças na década de 40, com os tijolos produzidos por ele e, onde o pai Joaquim nasceu. Vive desde os 6 anos de idade no mesmo local. As paredes originais têm quase meio metro de espessura. “Meu filho e meu neto também moram aqui e espero que outras gerações da família Terças ocupem essa residência tão cheia de histórias”.

O avô de Janaina, o português Manoel Terças, chegou ao Brasil de navio no início do século passado, aportando em Manaus, no Amazonas. Em seguida chegou à Cruzeiro do Sul onde se dedicou a outros ramos de negócios, como a comercialização do látex e de alimentos. Mas, logo descobriu a cerâmica e passou a fazer telhas e tijolos, sendo o pioneiro do setor cerâmico na região. O filho Joaquim Terças, nasceu em Cruzeiro do Sul e ainda jovem seguiu para São Luís do Maranhão, onde casou e Janaína nasceu.

Quando os negócios cresceram, o português Manoel mandou buscar Joaquim e a família no Nordeste. Janaína chegou ao Acre aos 6 anos e o senhor Joaquim Terças fundou a própria olaria e ampliou os itens ofertados. Ele levava os filhos Janaina e Júnior para a olaria e lá mostrava o barro adequado para os tijolos e demais etapas da feitura do produto além de ensiná-los a dirigir máquinas e tratores.

O avô fazia telha de barro, tijolo e telhas. O pai fazia telha de barro, tijolos, lajotas e cobogós. Ela optou em focar apenas nos tijolos de 6 e 8 furos, por serem os produtos com maior demanda do mercado local. Atualmente a Cerâmica Terças tem lista de espera para entregar tijolos, tamanha é a procura pelo produto. A espera que já chegou a 2 meses agora é de, no máximo, 2 semanas. “Meu objetivo é dobrar a produção e não ter mais lista de espera por tijolos”.

A AVÓ QUE GOSTA DE ATIRAR

Verbena é exuberante e vaidosa, mas não se importa com o salto do sapato sujo do barro da olaria. A empresária é assistente social, formada pela UNOPAR, e cursa Direito na Universidade Federal do Acre. “Quero entender sobre as leis para usar esse conhecimento para várias áreas da minha vida, como nos negócios. Meu setor de negócios tem fiscalização do Inmetro e de órgãos municipais, estaduais, federais e conhecimento é poder”, diz.

Foto: Felício Muniz

Ela tem dois filhos (Yuri e Elisa), é casada com advogado Frederico Filipe e agora também é avó. O neto Joaquim Terças (nome em homenagem ao pai), de 9 meses, que mora com ela é o grande xodó da família. Por causa dele não trabalha mais aos sábados. “Ser avó é a maior experiência da vida. É como filho sem as obrigações (risos), sem ter que amamentar. Nem trabalho mais aos sábados para poder me dedicar a ele e são horas preciosas”.

E a mulher corajosa para os negócios e na vida pessoal, tem como passatempos, o tiro esportivo. Para desestressar, nas horas de folga, prática tiro e é filiada ao Clube Estadual de Tiro e à Federação Nacional de Tiro. Com mira perfeita, acerta uma laranja com uma arma calibre 12 de uma distância de 25 metros. Diz que cresceu em uma casa com armas, já que antes não havia proibição neste sentido. “Eu fui criada em casa com armas e nunca houve problema com isso. Eu gosto de atirar porque tira meu estresse. Além disso, apuro minha mira não só na hora do tiro, mas também em vários aspectos da minha vida e, principalmente, nos negócios. Recomendo para todos e, principalmente, para as mulheres”.

CRESCIMENTO

Janaina quer dobrar a quantidade de tijolos produzidos pela Cerâmica Terças. Não esquece a crise econômica de 2014, quando o setor se retraiu e, para dar o salto qualitativo na indústria da família, com o uso da tecnologia, tiveram que vender imóveis.

Agora está animada porque nos últimos 2 anos, o ramo da olaria tem se mantido em crescimento das obras públicas e particulares, aumentando assim a demanda. Ressalta que essa alta alavanca os negócios nas madeireiras, lojas de material de construção e amplia as vagas de emprego na área da construção civil.

Foto: Felício Muniz

Cita a venda de tijolo como resultado do aquecimento da construção como reflexo do crescimento da economia do Brasil. “A economia está com crescimento de 3 a 5 por cento ao ano e, otimista, acredito nesse crescimento. Estamos aguardando com cautela a continuidade desse ritmo para investir, crescer e expandir. Nos próximos 10 anos quero dobrar minha produção e acredito que todos do setor cerâmico vamos crescer. Não creio no surgimento de novas cerâmicas, mas acredito que as que já existem vão se expandir”.

O filho mais velho da industriaria, Iury estuda medicina, mas desde que ele era pequeno também o levava para a cerâmica e pretende fazer o mesmo com o neto Joaquim. Quer que o negócio que está na família há 3 gerações, tenha continuidade. “Do jeito que meu avô ensinou pro meu pai, ele ensinou para mim, já dei dicas pro meu filho, minha filha Elisa e meu neto Joaquim vão conhecer o barro da olaria”.

FIEAC

Desde maio de 2019, a convite do presidente José Adriano, Janaína Terças é a representante na Federação das Indústrias do Acre — FIEAC, no Vale do Juruá, função que lhe oportunizou a busca pelo desenvolvimento do setor industrial como um todo. Empenha-se na busca de qualificação para os industriais e industriários, mediação e interlocução do setor com o poder público. Ressalta como avanço, a recente legalização ambiental e documental de mais de 40 empreendimentos do Polo Moveleiro de Cruzeiro do Sul.

Conta orgulhosa sobre a organização, representatividade das indústrias, como malharia, areal, moveleiro, madeireiro, e mediação juntos aos órgãos públicos para as soluções de demandas. Destaca que o projeto da FIEAC, em parceria com o governo, de pequenas obras para os municípios resulta no aquecimento da economia. “O grande objetivo é a manutenção de empregos e a geração de renda. Essa terra ter marcas do meu avô e do meu pai. Meu pai, filho e meu neto nasceram aqui e quero que essa região cresça e siga em desenvolvimento. Espero ter contribuído com o desenvolvimento da cidade. Neste momento se faz necessário deixar de lado minhas necessidades pessoais, em prol do coletivo, para assim dar a minha contribuição na melhoria da realidade econômica da minha terra”, conclui Janaína Verbena.

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