Indústria vive a terceira evolução de máquinas desde que foi criada e pretende eternizar história com os filhos

Se você é acreano e nunca tomou uma “sopa” de café com leite e bolacha Miragina, lamento informar, mas está sendo acreano de um jeito errado. A tradição que já dura mais de meio século nas Terras de Galvez está fazendo aniversário neste mês de maio e deixa como legado para as próximas gerações uma disputa pacífica e praticamente infinita sobre o formato dessas bolachas: prefere a quadrada ou a redonda? Não precisa escolher, a receita dos produtos é a mesma há mais de 50 anos, criada pela matriarca da família, e, desde 1967, nunca falta à mesa de um bom e velho acreano do pé rachado.

A história dessa empresa pode ser facilmente atrelada à história do Acre, sem nenhum exagero. O Estado está prestes a completar 59 anos de emancipação polícia, a fábrica Miragina acabara de fazer 54 anos de existência. Nesta reestreia da coluna Gente, Economia e Negócios, o ac24horas apresenta o caminho de sucesso percorrido por uma fábrica consolidada, relevante e atualmente ainda mais promissora na indústria local.

O Grupo Miragina é a indústria genuinamente acreana mais antiga que continua em funcionamento no Estado. Os atuais proprietários, os irmãos José Luiz Felício, 61 anos [presidente da empresa] e Abrahão Felício, de 69 anos [vice-presidente], creditam aos pais, Mirian Assis Felício e Abrahão Felício o início, a força e perseverança pela continuidade da empresa.

COMO TUDO COMEÇOU

Quem reside ou transita pela região do bairro Aviário, na capital acreana, sabe muito bem o que é sentir o cheirinho das bolachas e biscoitos Miragina sendo assados no finalzinho da tarde ou início da manhã. Há 54 anos, a indústria funciona no mesmo local, carregando apenas a mudança de um lado para o outro da rua ao longo dos anos.

Foto: Arquivo Pessoal da família

A construção do prédio onde é a fábrica começou em 1967 e as atividades se firmaram em 1968, de forma inteiramente manual. A Miragina nasceu pelo dom da matriarca, Mirian Felício, sempre muito prendada. “Ela era contratada para fazer os banquetes, aniversários, e ela tinha muita facilidade na arte da gastronomia”, diz o filho Luiz.

Mirian é a responsável pelas receitas mais antigas da empresa, produtos de sua criação. “Ela pegou o básico e aperfeiçoou. E até hoje os biscoitos salgados têm muito do que ela começou aqui. Com o tempo fomos aprimorando a receita, pois vai mudando os ingredientes e vai mudando alguma coisa para melhorar a coloração com a modernidade”, salienta.

“Tudo começou com panificação, biscoitos e macarrão. Uma coisa bem ousada para a época, um projeto que ninguém acreditava que teria no Acre algo desse tipo naquele tempo”, diz José Luiz.

Foto: Arquivo Pessoal da família

Luiz garante que sempre produziram biscoitos tentando inovar, renovando as receitas e buscando atingir todas as camadas da população. “Nossos produtos sempre tiveram um preço bom com um produto de qualidade. Isso é o que nos fez permanecer no mercado e também ser prestigiado e valorizado pela população”, afirmam os irmãos.

Não há como negar que os produtos Miragina são hoje uma referência extremamente positiva ao estado do Acre. Há até uma expressão dita pela ex-primeira-dama, Marlúcia Cândida, que diz: “a Miragina está para o Acre assim como as Havaianas estão para o Brasil”.

“O que nos fez chegar a esse ponto de prestígio foi a busca e o respeito pela qualidade dos produtos que a gente oferece à população. Sempre fui a feiras do setor procurando novidades. Enquanto alguns economizam na matéria-prima, nós não economizamos, justamente para não cair a qualidade. Sempre mantivemos a qualidade e sempre mantendo o mesmo padrão do início, e isso é importante”, garante Luiz.

A empresa se orgulha por nunca ter optado por deixar a qualidade dos produtos ruim em nenhuma época do ano. “Os produtos são produzidos sempre do mesmo jeito, com os mesmos ingredientes, é o que tentamos buscar”, destacam os irmãos.

QUADRADA X REDONDA

Uma disputa que ronda a empresa desde os primórdios é sobre a preferência do público para com os biscoitos salgados de formato quadrado e redondo. Elas sempre existiram e o que é motivo de discussão para muita gente, é explicado pelos próprios donos da marca. Se existe, de fato, um formato de bolacha mais sequinho que o outro, é esclarecido de maneira bem simples. Luiz diz que fica muito feliz com isso acontecendo porque, “quando há uma enquete dessa na internet, a gente só tem comentários positivos”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

Os irmãos Felício se divertem com a discussão sobre as bolachas redonda e quadrada. “Fica uma brincadeira saudável entre o time da quadrada e o time da redonda. Na verdade, é a forma do cozimento que faz a diferença. A massa é a mesma. Mas a gente deixa ficar na imaginação das pessoas porque o importante é que eles fiquem utilizando o produto”, brincam.

A bolacha quadrada é arrumada no forno de forma paralela, e a redonda fica de uma forma que circula menos calor do que num formato que possui cantos. “O calor circula mais entre uma e outra. Enquanto uma é mais simétrica, a outra tem uma irregularidade nos cantos, que não se encontram”, diz José Luiz.

VARIEDADE DE PRODUTOS

As bolachas salgadas são o carro-chefe da indústria, mas atualmente, a Miragina oferece mais de 20 variedades de produtos, incluindo os derivados da castanha do Brasil. A produção foi evoluindo com o decorrer dos anos e hoje o Grupo se encontra num patamar de produzir em torno de 15 toneladas por dia de bolachas.

São bolachas salgadas, biscoitos doces, pão de mel, biscoitos de castanha, óleo e farinha de castanha, entre muitos outros que já estão disponíveis nas prateleiras de supermercados. Ao menos quatro novos produtos estão para serem lançados ao público futuramente.

“Não lançamos ainda por conta da pandemia, pelo fato de não poder haver degustação. Mas enquanto isso estamos aperfeiçoando mais os produtos e vamos analisar qual será lançado primeiro, para que chegue com vontade mesmo no mercado”, garantem.

DIFICULDADES

Como toda empresa, a Miragina também tem alguns momentos difíceis para contar ao longo da história. Acompanharmos as dificuldades da economia no país fez com que a indústria sentisse algumas dificuldades, mas sempre com muita perseverança.

“Insistir na ideia de que tem que continuar, não deixar a peteca cair, são nossas atitudes nesses momentos. Às vezes até nos cobravam que a gente devia fazer outra fábrica em Manaus, outra em Porto Velho, mas é difícil você montar uma outra equipe que funcione como um reloginho como a nossa. E você não estar presente nas filiais também é difícil. Então, considero que fomos até um tanto conservadores por isso, mas foi exatamente isso que nos manteve firmes e dentro de uma tranquilidade financeira. Hoje, na pandemia do novo coronavírus, é um momento difícil, não de vender o produto, mas difícil fazer um produto chegar ao consumidor com um preço baixo”, explica Luiz.

CONCORRÊNCIA DESLEAL

Em meio a tantos percalços, o que mais tem se sobressaído neste momento de pandemia tem sido a alta constante e exorbitante no preço de matérias-primas. “Tá subindo demais e isso tem dificultado a gente a segurar o preço e não repassar para o consumidor final. Porque a gente sofre uma concorrência enorme de produtos de fora, que têm grandes fábricas e uma escala de produção 10 vezes maior”, salientam.

O preço para aquisição de matéria-prima subiu muito, em alguns casos mais do que dobrou, como no caso de embalagens. “Farinha de trigo, que é nossa matéria-prima básica, também dobrou de preço. Isso hoje é o grande gargalo para nós de mantermos a qualidade com o preço baixo. Como não queremos abrir mão da qualidade, aí fica mais difícil ainda”, lamenta o presidente da empresa.

SEM DEMISSÕES NA PANDEMIA

Apesar de o momento de pandemia ter provocado inúmeros problemas a diversos setores da economia acreana, o Grupo Miragina se orgulha por não ter demitido nenhum funcionário nesse mais de 1 ano de crise sanitária. “Não houve demissão na pandemia. Houve somente alguns desligamentos de pessoas que estavam no grupo de risco e que preferiram se acomodar ou aposentar”, asseguram.

O clima de empresa familiar acaba passando para os trabalhadores da indústria. A empresa conta ainda com dezenas de funcionários já aposentados que preferem trabalhar no local ao invés de deixar o serviço de vez. “Tem uma pessoa que tem quase 48 anos de Miragina e está aposentada já há 18 anos. Entrou aqui com 16 anos e hoje é meu braço direito”, explica José Luiz.

Além de não demitir, a empresa diz até estar admitindo pessoas, mas não no mesmo ritmo que tinha antes da pandemia, uma vez que a receita já não representa tanto quanto representava anteriormente. Hoje, a Miragina emprega cerca de 150 funcionários diretos.

A pandemia impactou muito fortemente a indústria, primeiro com a probabilidade de contaminação dos funcionários, depois, com o preço dos insumos. “A gente tinha muito receio do desabastecimento que poderia haver, o aumento no preço da matéria-prima, que está ainda mais forte. O combustível subiu 3 vezes em uma semana, isso impacta no valor final, tudo fica mais caro”, relatam os irmãos.

Para eles, houve uma coisa muito determinante quanto ao desabastecimento, que foi o fato de as pessoas temerem ficar sem os insumos e comprarem demais, como é o caso das resinas plásticas. “As petroquímicas pararam com a pandemia, e quando esfria os fornos das petroquímicas, pra ligar de novo, demora. Esse tempo parado colocou o preço da resina lá pra cima, pensaram que ia acabar e todo mundo comprou e o preço subiu. Hoje está caríssimo”, afirma José Luiz.

O segundo impacto, segundo os irmãos, foi a implementação do lockdown na pandemia. “Mercadinhos fecharam. A pandemia nos afetou, sim, mas a gente encarou a realidade da pandemia e nos adaptamos a ela. Prejudicou a cabeça de todos, mas a gente sempre deu muita importância, nunca deixamos de vir [trabalhar]. Tem que estar dentro de nosso negócio”, destaca Abrahão.

AÇÕES SOCIAIS

Uma função que os produtos Miragina também possuem desde o princípio é o de ajudar os mais necessitados. As ações sociais desenvolvidas pela empresa se tornaram uma marca registrada da fábrica. “Talvez seja isso que nos faça esse prestígio com a população. A gente não esqueceu nenhum instante o lado social, a gente participa em todos os setores de ações esportivas, culturais, patrocinando campeonatos, gincanas escolares, estamos sempre presentes nisso e junto a entidades que necessitam de doação mensal, como as que atendem deficientes visuais, que acolhem dependentes químicos e muitas outras”, explicam os irmãos.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

Todos os meses a empresa recebe a visita de pessoas e entidades que vão buscar alguma contribuição em mantimentos. “Dia dos Pais, do Professor, Dia das Mães, a Miragina sempre está participando de alguma forma. Por meio do esporte, levamos nosso nome até a países asiáticos com patrocínios”.

CURIOSIDADE

Uma indústria com mais de 50 anos de existência carrega consigo inúmeras boas histórias. A visita de clientes para conhecer a indústria já é corriqueira. “A gente também convida porque temos o maior orgulho de receber alguém que venha visitar nossa empresa”, diz Abrahão. O local recebe crianças, jovens e adultos. “Fazíamos muitas visitas escolares até antes da pandemia, crianças de 2 a 12 anos. Elas viam todo o processo. Para nós, isso é muito importante. A gente formou gerações aqui. Crianças que hoje são adultas e dizem que vieram aqui aos 6 anos de idade”, comemora Luiz.

A mascote da empresa, a menininha das embalagens Miragina, já existe há bastante tempo. “A gente brincava aqui dizendo que era nossa irmã, chamada Sara, a Sarinha, que faleceu. Éramos três irmãos e hoje é só eu e ele [Abrahão]”, diz o presidente.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

Abrahão conta que quando os pais começaram a construir a empresa, o próprio pai escolheu a área onde funciona a fábrica até hoje. “Ainda era tempo de intervenção militar, era tudo mato aqui, só tinha uma casinha, não tinha mais nada”. Antes disso, os pais trabalhavam com uma embarcação que fazia o transporte de mercadoria pelos seringais, nos tempos áureos da comercialização da borracha.

Os produtos Miragina não possuem conservantes, e os proprietários buscam fazê-los da maneira mais saudável possível. “Não usamos conservantes, nossos biscoitos têm validade de 6 meses. Isso porque sempre prezamos pela qualidade”, afirma. O forno que hoje assa os produtos está prestes a ser trocado por um mais moderno, mas mesmo com bastante tempo em atividade, o equipamento faz 13 tipos de produtos.

Essa é a indústria em atividade mais antiga do estado do Acre. “Miragina sempre foi uma empresa familiar. Nosso pai não queria sociedade com ninguém. Meu pai era uma pessoa que não teve muito estudo, mas tinha uma visão muito grande, uma pessoa dinâmica. E depois, quando viram que o negócio estava dando certo, quiseram fazer sociedade, mas meu pai não quis. Ele dizia: “aqui é só da minha família”, lembra Abrahão.

A irmã Sarah Assis Felício, já falecida, e o primo José Miguel Assaf também tiveram importante participação junto ao Grupo Miragina.

REDES SOCIAIS E NOVO PÚBLICO

A ampliação do mundo virtual também atingiu a marca, que hoje trabalha de maneira assídua na internet. A intenção agora é conquistar a nova geração de consumidores. “Tudo chega a nós. A gente ouve muito: “Miragina, me patrocina”. Pessoas que estão fora do Acre tiram foto com a bolacha e nos enviam, tem mãe que compra caixa de bolacha e manda para os filhos que estão fora, é muito interessante”, comenta Luiz.

Os produtos Miragina são vendidos atualmente em todos os 22 municípios acreanos, em Porto Velho (Rondônia) e Manaus (Amazonas). “Temos uma agência que organiza nosso marketing, hoje uma preocupação nossa é ver que nossos clientes antigos estão com 70, 80 anos, e estamos preocupados em fazer chegar o produto nessa geração nova. Então, tem que chegar na linguagem deles, no linguajar da moçada, temos que acompanhar”, afirma Luiz.

EXPECTATIVAS

A pandemia de Covid-19 também fez com que a empresa desse uma pausa nos planos, uma recuada nos projetos. Mas o objetivo de expandir o negócio ainda está muito vivo em apresentar novos produtos. Abrahão garante: “demos uma maneirada, mas nunca deixamos de ver o que íamos fazer. Até agora, estamos segurando a barra bem legal. Sempre seguimos na linha de manter o padrão”.

O presidente da empresa, José Luiz, deixa um incentivo àqueles que também tentam um lugar ao sol: “faça bem feito, que vai dar certo. Esse é o nosso lema. Procuramos fazer o melhor produto, no melhor preço, para que ele esteja sempre acessível a todas as camadas da população e com a qualidade que todo mundo merece. Nossa política é sempre trabalhar com insumos da melhor qualidade. Um produto bom, demanda boa matéria-prima”, conclui.

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