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Chamada de bruxa, prefeita eleita revela que foi perseguida após “chamado de Deus”

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Formada em História e servidora concursada do Tribunal de Justiça do Acre (TJ-AC). Essa é a prefeita de Tarauacá eleita para o quadriênio 2021-2024: Maria Lucinéia Nery de Lima Menezes, 38 anos, a Néia, casada com o deputado federal, Jesus Sérgio de Menezes, mãe da Nicole, Carina e do Davi Luiz. Foi eleita com 5.461 votos, mas o que muita gente não sabe é que ela já entrou na disputa “eleita”, o que deixou os ânimos acirrados na cidade.

Para quem não sabe ou não lembra, Maria Lucinéia chegou a anunciar que havia recebido profecias de religiosos da igreja católica e evangélica de que seria prefeita de Tarauacá e que havia aceitado a missão por um “propósito divino”.

Em entrevista ao ac24horas, Néia conta que sofreu perseguição machista e religiosa e foi alvo de uma campanha difamatória pelos seus adversários, do tipo: “lugar de mulher é em casa; pare de falar de Deus, pois vai perder votos; ela é bruxa e feiticeira”. Conhecida em sua terra natal como uma mulher de fé devido seus relatos “assombrosos” acerca de experiências reais com Deus, ela conta detalhes de como saiu vitoriosa. Confira a entrevista completa:

ac24horas – Maria Lucinéia, a senhora surpreendeu, e até assustou muitas pessoas, ao anunciar que Deus “falou” com a senhora confirmando que seu marido deveria se candidatar a deputado estadual e, na sequência, para disputar uma cadeira na Câmara Federal e, de fato, ele saiu vitorioso nas duas disputas. Disse ainda que teria revelado, inclusive, o vestido para cerimônia de posse nas duas ocasiões [deputado estadual e federal]. O que a senhora tem a dizer àqueles que duvidam ou defendem a teoria de que religião e política não devem se misturar.

Maria Lucinéia – Eu acho um erro essa mentalidade. Eu creio que é ali na política que tem que ter Deus porque Ele ilumina as decisões, coloca amor e sabedoria no coração dos homens e mulheres para cuidar do próximo. Porque a política é para cuidar dos mais necessitados. A política é bem diferente da politicagem. A politicagem atende interesses próprios, enquanto a política séria é para cuidar de pessoas, administrar com responsabilidade e transparência os recursos públicos.

ac24horas – Deus já lhe revelou qual vestido usará na diplomação e posse como prefeita de Tarauacá?

Maria Lucinéia – Sim, muito antes de colocar meu nome para disputar a prefeitura eu já sabia o modelo, a cor, até os detalhes do tecido. Na diplomação será um na cor verde representando a esperança e na posse será um branco com mangas bufantes representando a paz. Ainda não fui comprá-los, mas quando o vês saberei, pois Deus já me mostrou. Já tenho aqui os acessórios para os dois momentos. Depois de Deus mostrar eu nas duas solenidades, duas missionárias descreveram os mesmos vestidos: modelo, cor e detalhes, porque é sempre assim: Deus revela e usa depois seus servos para confirmar. Sei que para muitos parece loucura, eu entendo, mas está escrito que o ‘o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura’, por isso não guardo rancor de quem me ataca com palavras pejorativas. Não sou melhor do que ninguém, apenas busco sempre agradar a Deus, como já disse: ele é meu melhor amigo, meu primeiro amor.

ac24horas – A senhora é conhecida pelos testemunhos “assombrosos” acerca de experiências reais com Deus. Em outro momento, a senhora relatou uma visita de Deus a sua casa em Tarauacá. Como a senhora define Deus?

Maria Lucinéia – Eu defino Deus como algo tão surpreendente. Ele pra mim é uma pessoa, Ele é o meu melhor amigo. Não é de agora: Deus pra mim sempre foi o meu primeiro amor e as pessoas não entendem isso! Eu amo tanto Deus que não consigo viver sem ele. Consigo viver sem qualquer pessoa, mas sem ele eu não consigo viver. E, por isso, por esse amor, por essa intimidade eu vi ele, em 2014, pessoalmente! Queiram acreditar ou não, eu vi!

ac24horas – Como se deu sua decisão para disputar a prefeitura de Tarauacá? Foi um projeto pessoal, uma causa social ou de fé, já que a senhora contou ao ac24horas, anteriormente, que recebeu a profecia de católicos evangélicos, porém rejeitou, e que só entraria na disputa se fosse um “propósito divino”. Conte como se deu esse processo que culminou com sua pré-candidatura à Prefeitura de Tarauacá (AC)?

Maria Lucinéia – Recebi essa profecia na igreja católica, em junho do ano passado, em Tarauacá. Uma pessoa chegou pra mim e me fez essa profecia, só que eu achei tão absurdo que nem quis ouvir. Fiquei meio indignada quando ele falou. Quando chego em casa, vem um irmão evangélico e disse a mesma coisa: ‘minha irmã, tu vai ser prefeita’. Na hora, eu tampei os ouvidos. Ele [evangélico] disse que não adiantava eu tentar ignorar, porque foi o que Deus havia mostrado pra ele. Quando chego em Brasília, no grupo de oração Beata Elena Guerra, um pregador que nunca tinha visto, disse: ‘Não tenha medo porque eu te escolhi e tô te ungindo hoje como Deus ungiu Davi para você consertar aquela cidade. Um grupo se formará contra ti, esse grupo vai dizer que você não ganha, mas eu te escolhi’. Eu passei uma semana doente tentando negociar com Deus, pedia para Deus mudar de ideia e que tinha um monte de gente na cidade que poderia ser prefeito. Eu queria me livrar daquela missão, mas fiquei sem resposta. Depois, fui pedindo confirmação e, quando eu anunciei aquela profecia, as pessoas colocaram em sites e redes sociais. Muitos me chamaram até de bruxa e feiticeira do próprio demônio. Falaram coisas absurdas, gravaram vídeos na rua me insultando. Eu não me defendia, pois Deus pedia para eu ficar em silêncio e que no dia da eleição, Ele ia me justificar. Deus tinha falado que ia surpreender. Tudo foi para a glória de Deus.

ac24horas – Podemos entender que todo projeto político na sua vida e de seu marido é fruto de promessas de Deus. É possível continuar agradando a Deus em meio a um ambiente conhecido pelos escândalos de corrupção?

Maria Lucinéia – Sim, eu sou muito firme! Eu sempre digo o seguinte: eu não tô aqui para agradar o homem, eu estou aqui pra agradar a Deus. No decorrer dessa campanha me foi feita muitas propostas até em relação ao meu vice. Deus me escolheu porque sabe que dentro do meu coração não tem vaidade em relação ao poder e nem ambição a dinheiro. Quem somente Deus conhece nosso coração. No decorrer da campanha, sempre me diziam que eu ia perder muito voto porque eu ficava falando de Deus e pediam pra eu parar de falar Deus. Só que eu respondia: Eu levo Deus aonde eu for. Posso perder minha vida, mas ninguém nunca vai me calar em relação a Deus.

ac24horas – Foi difícil sendo mulher, proclamar e manter uma fé tão grande numa disputa eleitoral acirrada dominada por homens? Em algum momento a senhora sofreu ameaças ou intimidações?

Maria Lucinéia – Sim. Foi muito difícil pra mim ter que me envolver na política tão acirrada como é a política de Tarauacá. E até porque fui chamada por Deus para uma missão, não vejo que era uma campanha qualquer, simplesmente para mim era missão. Foi difícil quanto mulher, eu chegava nas casas, os adversários falavam pras pessoas que eu não faria nada porque eu era mulher, mulher tinha que estar na cozinha. Eu dizia: poxa, vocês nasceram de uma mulher forte e amorosa, e vocês vão ter muito orgulho da prefeita de vocês: mulher e mãe. Eu recebi muito preconceito por ser mulher e sem contar que todos os adversários eram homens furiosos que trouxeram no coração muito ódio. Tínhamos amigos íntimos que andavam na minha casa e passaram a ter ódio de mim. Quanto mais me xingavam, mas eu tinha força, porque como Paulo dizia: Quanto mais eu penso que sou fraco, forte eu estou, porque a minha força vem do Senhor [Deus].

ac24horas – Qual será a bandeira prioritária de sua gestão como prefeita de Tarauacá?

Maria Lucinéia – A minha bandeira será cuidar de pessoas: será o social, com destaque para saúde e educação, principalmente na zona rural, que deixa muito a desejar. A saúde precisa melhorar. Vou chamar uma equipe com assistente social e os agentes de Saúde e vou acompanhar pessoalmente a situação das famílias e vamos elaborar estratégias de ação. Vou priorizar também a parte emocional com assistência psicológica, pois as pessoas estão doentes com depressão e síndromes do pânico. Nossos jovens estão esquecidos, massacrados pela sociedade e acabam se envolvendo nas drogas muito cedo porque não tem chance de evoluir na vida. Então, tudo isso vou ter um olhar de mãe, quero estar junto. Quero implantar políticas públicas e não fazer politicagem.

ac24horas- Pra quem duvidou e até zombou que a senhora sairia vitoriosa: algo a dizer?

Maria Lucinéia – Eu perdoo todos que me xingaram e que ficaram sem falar comigo. Eu perdoo porque eu vou ser prefeita de todos. Não sou de perseguir ninguém. Não gosto dessa politicagem de ódio pelo outro. Não tenho ódio, não tenho raiva e nem guardo rancor. E que eles [ofensores] que peçam perdão pra Deus, pois não me xingaram, eles xingaram e blasfemaram contra o Espírito Santo de Deus. Sempre soube que falavam mal de mim nas redes sociais, e isso vai ser entre eles e Deus. Eu: Néia, tá tudo certo! mas eu peço que cada um reflita, e antes de você falar alguma coisa, você conheça ou busque saber quem é aquela pessoa.

ac24horas – Tem um versículo bíblico que diz: “a quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lc 12:48). A senhora se sente preparada para gerir uma cidade e ao mesmo tempo ser vista como uma mulher “ungida por Deus” e eleita pelo povo?

Maria Lucinéia – Sim. No decorrer dessa campanha, eu ouvi de um jovem uma coisa muito linda: ‘que uma mulher que cuida da sua família era capaz de liderar um exército’. E desde quando me casei, ainda jovem, tenho honrado minha família. E pra mim, a maior dificuldade, hoje, no ser humano, é gerir, cuidar de uma família. Com muito orgulho, não pra minha exaltação, cuidei e cuido do meu esposo, das minhas filhas. Então, se eu cuido deles, eu vou cuidar de um povo que tanto precisa de uma mãe, que tanto precisa de amor e um cuidado de mãe. Hoje Tarauacá, precisa desse amor que eu dou pros meus filhos, pro meu esposo. É desse afeto que Tarauacá precisa, então, me sinto preparadíssima e Deus vai me instruir, me dará sabedoria do alto, como ele deu a Salomão. Quero externar minha gratidão a cada voluntário, campanhista que foram às ruas, no sol e na chuva levando e defendendo meu nome. Aos nossos vereadores que foram verdadeiros guerreiros e, em especial, ao meu marido Jesus Sérgio, que foi meu herói nesse processo. Eles formaram um verdadeiro exército e, claro, a população que acreditou nesse novo projeto, nessa nova política que vai melhorar Tarauacá.

 

 

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Governo diz que fez cinco convocações e contratou 700 novos policiais civis e militares

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O governo do Acre diz que realizou cinco convocações para cargos efetivos nas polícias Civil e Militar, totalizando mais de 700 homens e mulheres. Segundo o governo, foram contratados nos últimos dois anos 240 policiais militares, 256 policiais civis, entre delegados, agentes, escrivães e auxiliares de necropsia. Mais 15 novos peritos e três médicos legistas. A última convocação foi realizada em março deste ano, quando o governador autorizou o chamamento de mais 200 candidatos em cadastro de reserva do último concurso realizado para a Polícia Militar.

“Não esperávamos uma pandemia e tivemos que reformular todo o planejamento de gestão. Mesmo com todos os desafios, não deixamos de priorizar um dos setores mais sensíveis que é Segurança Pública. Sabemos que as contratações ainda não são suficientes pra preencher o efetivo ideal de cada instituição, porém, estamos trabalhando para em breve, poder fazer novas convocações”, destacou o governador Gladson Cameli.

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Rosa Weber mantém ação do “Orçamento Paralelo” e Bittar terá 5 dias para informações

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A ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou o pedido de desistência apresentado pelo Cidadania para tentar barrar o andamento da ação sobre o chamado “orçamento secreto” do governo federal.

Rosa afirmou que, no tipo de ação apresentada, é “inadmissível a desistência” e, então, determinou que o presidente Jair Bolsonaro, o Senado, a Câmara e o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, prestem informações em um prazo de cinco dias.

A ação do Cidadania se baseou na série de reportagens do Estadão, que demonstrou a engrenagem usada pelo governo para a distribuição de verbas extras para parlamentares da base de apoio, indo muito além das emendas individuais e de bancada.

O mecanismo é a emenda de relator-geral, que tinha papel secundário na distribuição de recursos até o fim de 2019, quando o Congresso e o governo articularam a criação da versão turbinada deste tipo de emenda, chamada no jargão orçamentário de “RP 9”, emendas que são destinadas pelo relator Márcio Bittar.

O esquema encobre os verdadeiros autores das indicações de milhões de reais em obras e compras de máquinas, por exemplo, muitas vezes com preços acima da tabela de referência do Ministério do Desenvolvimento Regional.

A área técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) identificou indícios de irregularidades na distribuição das verbas de emenda de relator-geral pelo governo, como mostrou o Estadão. O ministro do TCU Walton Alencar Rodrigues determinou que o Palácio do Planalto e o Ministério da Economia enviassem à Corte informações e os arquivos que detêm, como ofícios encaminhados por deputados e senadores com indicações para repasses.

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Conheça a saga do Movimento Autonomista liderado por Guiomard Santos no Acre

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Levantes de grupos prós e contras. Correntes partidárias em constantes divergências de opinião. Um comitê que pregava a autonomia defendendo a necessidade dos acreanos de tornarem-se iguais em direito e deveres aos demais brasileiros. E até a criação de um jornal e a utilização de outro, oficial, com a finalidade de divulgar notícias, artigos e abaixo-assinados em favor da causa autonomista.

Palácio Rio Branco na década de 1950, um dos grandes símbolos da luta pela emancipação do Acre Foto: CDIH

Se você acha que os embates políticos de hoje são de longe os mais polarizados da história do país, pois saiba que a elevação do Território do Acre à categoria de Estado – que nesta terça-feira, 15, faz 59 anos – também foi marcada por uma das mais intensas disputas ideológico-partidárias que se tem notícia no desabrochar do século 20, no Brasil.

Colonos e seringueiros com o governador Guiomard Santos Foto: Acervo Digital/Memorial dos Autonomistas

Nesta reportagem, utilizando-se dos estudos ricamente detalhados pela professora Maria José Bezerra na sua tese de doutorado de 2006 para o Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), a Agência de Notícias do Acre traz os principais aspectos para compreender satisfatoriamente como foi o processo de elevação do Acre de Território a Estado, na tarde do dia 15 de junho de 1962, com a sanção da Lei 4.070 pela caneta do então presidente João Goulart.

Da esquerda para a direita, Lydia Hammes Santos, Guiomard Santos, o presidente João Goulart e o primeiro ministro Tancredo Neves, na ocasião da sanção da Lei 4.070, de 15 de junho de 1962 que elevou o Acre a Estado Foto: Acervo Digital/Memorial dos Autonomistas

O discurso patriótico como arma de persuasão

Jornal O Acre, órgão oficial de imprensa do governo constitucional tornou-se em 1950 aliado da propaganda pela elevação do Acre a Estado Foto: Cedida

“Acre livre e Brasil mais independente. Conterrâneos de coração, saímos do berço desassombradamente e aceleramos os nossos passos em busca de uma bandeira de liberdade para nossa terra, que é minha e que é tua. Saibamos honrar os méritos daqueles que tombaram pela independência deste rincão, num ardil golpe sem medirem consequência e desprendidos de paixões materiais. […] por um Acre livre, num Brasil mais independente”.

Do artigo Exortação Cívica, no jornal O Acre, assinado por Raimundo Sales Vital no dia 19 de maio de 1957.

O texto acima é um de tantos outros lançados pelo Comitê Pró-Autonomia do Acre, grupo criado nos idos de 1956, segundo a professora Maria Bezerra, com “caráter cívico, patriótico e ético”, aparelhado por Guiomard Santos para convencer os acreanos de que o Acre deveria tornar-se Estado.

Hotel Chuí, na década de 1950, onde hoje é a sede da Prefeitura de Rio Branco, no centro da capital Foto: Acervo/CDIH

José Guiomard Santos, do Partido Social Democrático (PSD) foi governador do território entre 1946 e 1950, e eleito deputado federal logo em seguida, em 1951, tendo sido o maior defensor da elevação do Acre a Estado e obtido essa conquista.

Coronel do Exército boliviano Isaac Vasquez, e membros do governo do Departamento Pando, em cerimônia de entrega medalha ao governador do Acre, Guiomard dos Santos, que também era major; curiosamente, pela autonomia do Acre, Santos mencionava os feitos heroicos de Plácido de Castro contra os bolivianos para ganhar o Acre Foto: Acervo/CDIH

Porém, para entender melhor um dos capítulos mais importantes da nossa história, é preciso compreender primeiro que, embora o movimento autonomista tivesse o hábito de colar à sua propaganda ideológica os feitos de Plácido de Castro – de que a elevação a Estado só honraria ainda mais a façanha dos bravos heróis da ‘Revolução Acreana’ -, a anexação do Acre como território nacional já não havia encontrado a simpatia das forças políticas que protagonizaram a ‘Revolução’. O que diria, a elevação.

Balsas de borracha descem o rio Acre, próximas da Gameleira Foto: Arquivo/Museu da Borracha

É que “ao longo do processo da luta contra a Bolívia, [essas mesmas] forças políticas dividiram-se em vários grupos com projetos distintos para a região”, explica a professora.

Proprietários do seringal Benfica, em Rio Branco (à direita) com oficiais dos vapores Arimos e Marcial e seringueiros Foto: Revista O Malho

“Havia aqueles, como Galvez, que defendiam a instauração de um regime republicano, porém subordinado à ‘mãe-pátria’ [o próprio Acre]. E alguns outros, mais ousados, com suas ideias separatistas, que também propunham a separação do Acre do território nacional formando um novo país”, lembra Bezerra. E como exemplo prático, é “neste contexto que se insere o levante de 1910 em Cruzeiro do Sul, quando os seringalistas e comerciantes de maior peso econômico se rebelaram e depuseram as autoridades constituídas”.

Grupo de oficiais do vapor Marcial no barranco do porto Benfica, no rio Acre, em Rio Branco Foto: Revista O Malho

Nesta perspectiva, a instituição da condição de Território pelo governo federal torna-se um freio ao mandonismo das forças políticas locais ante o poder nacional.

Os anos 1950, o petróleo do Moa e a visão do Juruá sobre a causa autonomista

Charge de jornal da época criticando ação do governo federal; na legenda acima, o anúncio de que o “governo expediu ordens terminantes para que sigam batalhões do Exército para o Acre, com fim de sufocar o movimento revolucionário n’aquela região” Foto: Redalyc.org

Para reforçar seus ideais de um Acre elevado à condição de Estado, Guiomard Santos então organizou um bloco pró-autonomista de políticos locais que em 1953 ele mesmo municiava com discursos, artigos na imprensa, abaixo-assinados, correspondências particulares, telegramas e relatos de debates sobre a luta pró-autonomista no âmbito do Território. Mas , o que pensava-se ser uma causa do Acre como um todo acabou não incendiando todas as mentes, sobretudo os pensadores do Juruá.

“No Vale do Juruá, em documento publicado em O Juruá, o jornalista João Mariano enfatiza que os governos territoriais, incluindo o próprio Guiomard Santos, só investiam em Rio Branco – por ser capital -, e nos municípios vizinhos”. Dessa forma, a causa autonomista não empolgava os moradores do Juruá por conta do contexto de miséria a que estavam inseridos, segundo a leitura da pesquisadora da USP.

Passageiros com comandante e tripulação da lancha Rio Cayaté fotografados no rio Juruá Mamichy, quando retornavam do rio Tarauacá Estas designações indígenas justificam a familiaridade do grupo e, sobretudo, a pujança da natureza em torno Foto: Revista o Malho O Malho, RJ, 26 de setembro de 1908, Ano VII, N.315

“O Vale do Juruá não está em condições de fazer parte do Estado autônomo do Acre, pois além da falta de vida própria, há de encarar o fator capital: de todos os proprietários e comerciantes do Juruá, somente um, o sr. Raimundo Quirino Nobre está em condições de carregar, por duas vezes ao ano, navio de quatrocentas toneladas de mercadorias, em Belém para os seus armazéns nesta cidade. Isso indica pobreza da região. […] Faça-se o Território do Juruá. Incentiva-se a sua lavoura e pecuária, organizem-se algumas pequenas indústrias, extraia-se o petróleo do Moa, eis o caminho a seguir”.

Do artigo Autonomia do Acre, no jornal O Juruá, por João Mariano da Silva, publicado no dia 3 de março de 1957.

Visita de Getúlio Vargas e recepção do presidente por estudantes Foto: CDIH

Segundo a tese da professora-doutora, intitulada ‘Invenções do Acre: De Território a Estado – Um olhar social’, a oposição, representada pelo deputado federal Oscar Passos, líder do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), também advogava contra o projeto de elevação do Acre a Estado por considerá-lo eleitoreiro, já que no entendimento de Passos, o Território não tinha ‘sustentação econômica’.

“Os brasileiros do Acre demonstram, há mais de meio século, capacidade, decisão e bravura para repelir violentamente a dominação estrangeira. Se essas qualidades tivessem sido convenientemente aproveitadas e orientadas na paz, como o foram na guerra, já que o Acre, por sem dúvida, estaria a brilhar na constelação dos Estados brasileiros, rico e próspero, hospitaleiro e feliz. Não houve este cuidado por parte de muitos dirigentes, impuseram-lhes o garrote da dominação dos homens pelos homens. Um feudo foi o que resultou de tanta bravura e esforço. […] Acorrentados pelo governo pela inevitável dependência econômica dificilmente poderão essas populações manifestar livremente a sua preferência política ou sequer a sua opinião sobre os detentores do poder local. Politicamente, o Acre e sua população nada lucrariam. […] A eleição do governador e da Assembleia Legislativa seria uma farsa. […] No momento presente como é público, a União entrega ao Acre mais de 300 milhões de cruzeiros por ano e arrecada, através das Mesas de Renda e Coletorias, apenas 3 ou 4 milhões. Com a emancipação do Território, a União não fornecerá mais essas verbas. […] Os 300 milhões terão que ser arrancados do próprio povo acreano”.

Oscar Passos. Considerações sobre a Autonomia do Território do Acre. In: BEZERRA, Maria José. Dossiê – Acervo: Guiomard Santos (Acre). Elevação do Acre a Estado. Rio Branco: Globo, 1982, p. 61-65

Vista aérea da área onde hoje é a Praça da Revolução, o quartel da Polícia Militar do Estado do Acre e a Prefeitura de Rio Branco Foto: CDIH

Para Bezerra, o pensamento liberal de Oscar Passos, ao criticar o projeto de elevação do Acre a Estado é pertinente. “Em primeiro lugar, nos anos 1950, com a crise da borracha pós-guerra, o Acre dependia quase que inteiramente dos recursos financeiros do governo federal, sendo o governo, como ainda é na atualidade, o maior empregador”.

Rua 17 de novembro, no Segundo Distrito de Rio Branco, durante a cheia do rio Acre, hoje a rua Senador Eduardo Assmar Foto: Acervo/Museu da Borracha

“Porém, embora o projeto do Guiomard Santos tenha sido gestado de cima para baixo, ele buscou o referendo popular a partir da compreensão de que cabia aos representantes do poder político ‘guiar e instruir o povo’. Este era o papel do intelectual, do Estado, das instituições. A sua visão ideológica e política não admitia o conflito e a sociedade deveria ser harmônica e integradora”, completa a pesquisadora.

Governador José Augusto de Araújo Foto: Acervo/CDIH

Jovem cruzeirense, professor e ex-militante da União Nacional dos Estudante, José Augusto de Araújo era eleito para o cargo de primeiro governador do Acre constitucional. Paralelo a isso, “a elevação do Acre a Estado significaria, naquela conjuntura, a possibilidade de viabilizar um projeto de desenvolvimento para a região”.

 

Em 1957, como parlamentar da Câmara dos Deputados, Guiomard Santos incorporaria, por meio de um projeto de lei, as discussões que começaram lá em 1954, dentro do Congresso Nacional e fora dele. Esta seria a segunda proposta de Santos, já que a primeira tinha sido em 54 enquanto governador constitucional.

Sede do Congresso Nacional nos anos 1950 Foto: Acervo Câmara dos Deputados

Foi a partir de 1956 que os defensores do projeto de lei de Santos, que ganhara ainda mais visibilidade em nível nacional, começaram a se reunir com os mais diversos segmentos sociais e tornaram comum a elaboração e  divulgação de manifestos, sobretudo, de autoria do Comitê Pró-Autonomia do Acre, que abre esta reportagem.

Casarão de seringalista em Sena Madureira; eles eram contra a elevação do Acre a Estado Foto: Acervo/CDHI

Contudo, em 1958, os debates seguiriam ainda mais acalorados com a oposição ao projeto de Santos – capitaneada por Oscar Passos líder do PTB local -, sendo projetados também pela imprensa nacional. De um lado, a Associação dos Seringalistas do Acre e a Associação dos Seringueiros do Território Federal do Acre criticavam com veemência a possibilidade de uma elevação a Estado por entenderem que ela traria “desordem à vida econômica, mormente com a criação de impostos estaduais, além dos já existentes”.

Prédio da Sociedade Sborba hoje completamente revitalizado Foto: Cedida

Do outro lado estavam outras instituições como a Sociedade Beneficente Operários de Rio Branco, que cumprimentava Santos, do PSD, “pelo passo decisivo para a nossa independência econômica dentre em breve”.

Presidente João Goulart, ao lado de Guiomard Santos, assina a Lei 4.070, que elevou o Acer a Estado em 1962 Foto: CDIH

Relata a professora Maria José Bezerra que no dia 5 de junho de 1962, o projeto de lei foi finalmente encaminhado ao presidente João Belchior Marques Goulart, pelo presidente do Senado Federal, Auro Moura Andrade, depois de meses de peregrinação pelos corredores do Congresso Nacional para análises e aprovações nas várias comissões. Neste mesmo dia, João Goulart “reconheceu o mérito do projeto e a sua importância para o desenvolvimento do Acre”, embora tenha apresentado veto parcial sobre algumas questões.

Da esquerda para a direita, Guiomard Santos, o presidente João Goulart e o primeiro ministro Tancredo Neves, na ocasião da sanção da Lei 4.070, de 15 de junho de 1962 que elevou o Acre a Estado Foto: Acervo Digital/Memorial dos Autonomistas

Mas  neste mesmo dia, em solenidade no Palácio do Planalto, na tarde de 15 de junho de 1962, o presidente João Goulart sancionava a Lei 4.070 que elevava o Território do Acre a Estado. O Acre se tornava definitivamente Estado.

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Destaque 4

Segurança diz que mais de 80% dos veículos roubados ou furtados são recuperados no Acre

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A secretaria de segurança pública do estado do Acre divulgou relatório nesta segunda-feira, 14, afirmando melhoria dos índices de crimes contra o patrimônio e aumento na recuperação de veículos subtraídos em ações criminosas, em todo o território acreano.

Dados do Departamento de Gestão Integrada de Segurança Eletrônica e Contramedidas, mostra que cerva de 83% dos veículos envolvidos em ocorrências de roubo ou furto, são recuperados pelas forças de segurança do Acre.

O levantamento faz referência ao período de 1 de janeiro à 31 maio deste ano. No total, foram registrados 503 ocorrências de roubo ou furto, sendo 472 destes veículos recuperados.

Segundo o chefe do departamento, Alexandre Nascimento, os números refletem os investimentos feitos em tecnologia, com a reativação das câmeras de videomonitoramento e o uso da ferramenta cerco eletrônico que permite o combate à mobilidade do crime em três etapas: 1. Alerta sonoro que indica a passagem de veículos com restrição de roubo ou furto em algum dos pontos de monitoramento; 2. O uso de imagens das câmeras para o acompanhamento do veículo em tempo real; e 3. O acionamento do policiamento de área, que recebe as instruções necessárias e realiza o processo de abordagem.

Em Rio Branco, há 29 pontos estratégicos com câmeras de videomonitoramento instaladas, permitindo o acompanhamento da movimentação da cidade 24 horas por dia, sete dias por semana. O mesmo sistema também está presente nas cidades de Brasileia e Manoel Urbano. Cada município com 10 pontos ativos.

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