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O hipocampo

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O hipocampo talvez seja uma das regiões do cérebro que muito provavelmente quase nenhum professor ou profissional da educação brasileira tenha ouvido falar. Sua importância, no entanto, é tão grande quanto o desconhecimento de seu funcionamento e sua contribuição para com o processo de aprendizagem. Se professores, gestores e políticos conhecessem um pouquinho sobre o hipocampo, muito provavelmente todos os sistemas educacionais brasileiros teriam que ser reformulados. E a razão é bastante simples: quase tudo o que se faz nas escolas brasileiras alcança apenas o hipocampo. E como o hipocampo é local de armazenamento temporário de informações (e de aprendizagem), quase tudo o que se coloca nele é perdido. E a consequência disso é a tão conhecida falta de aprendizagem, muitas vezes confundida com dificuldade de aprendizagem. Este ensaio tem como objetivo explicar como funciona o hipocampo humano.

Muito provavelmente já aconteceu com você a experiência de estudar muito, principalmente para uma prova no dia seguinte, e na hora quase tudo desaparecer, como se tivesse dado “um branco” na sua cabeça, de maneira que quase nada do que você viu durante horas a fio veio à sua lembrança. Se isso lhe aconteceu, não se assuste, você não é anormal. O que lhe aconteceu acontece todos os dias com quase todos os estudantes brasileiros submetidos a sistemas de aprendizagens que desconhecem o funcionamento de um pequeno órgão cerebral chamado hipocampo. Todas as nossas experiências cognitivas têm nele sua primeira etapa (e muitas vezes a única) etapa de aprendizagem.

O hipocampo é o receptáculo das nossas informações. Ele funciona de maneira muito parecida com as memórias temporárias do computador. Quem não teve a surpresa desagradável de escrever páginas e páginas em um processador de texto e, de repente, quando a luz apaga, por exemplo, ou quando alguém desliga inadvertidamente a energia, perder tudo, simplesmente porque não teve o cuidado de salvar na memória permanente da máquina? A mesma coisa acontece com o cérebro: se a gente não passar as informações para a região de armazenamento definitivo, permanente, todas elas serão apagadas. E não adianta se enraivecer. A saída mais inteligente é recomeçar a reaprender tudo de novo. Aquilo que foi perdido não vai voltar nem por milagre.

Esse é o primeiro conhecimento que se deve ter: tudo o que aprendemos passa, primeiro, por essa região, absolutamente tudo. É o hipocampo (na verdade, é todo o sistema límbico, que explicaremos mais adiante a sua estrutura e funcionamento) que distribui o que recebe ou para o cerebelo ou para o córtex, as duas regiões de armazenamento permanente. E por isso devemos conhecê-lo bem para que nossas atividades docentes realmente colabore para com a aprendizagem dos nossos alunos e, também e principalmente, com a nossa própria aprendizagem. Isso quer dizer que devemos testar em nós mesmos esses conhecimentos sobre essas regiões cerebrais responsáveis pela aprendizagem para aferir o seu funcionamento.

O segundo conhecimento é que o hipocampo tem limitações de armazenamento de informações. É isso mesmo. Diferente do que os especialistas da educação imaginam, a ciência tem mostrado que o hipocampo é limitado em armazenamento de informações. Mais do que isso, ele exige uma lógica, um sequenciamento de etapas, para que essas informações sejam transformadas em aprendizado, daquele jeito que a gente entende e que desejamos que aconteça todas as vezes que nós estudamos e todas as vezes que nós ensinamos. Isso quer dizer que não podemos fazer as coisas do jeito que a gente quer. Temos que fazer as coisas do jeito que o hipocampo aceita. Se não fizermos do jeito dele, ele não vai aceitar; e se aceitar, vai armazenar errado permanentemente.

Como consequência, a terceira coisa que devemos saber é que temos que lidar com poucos entendimentos por vez. Entendimento quer dizer esquema lógico, compreensão da lógica da coisa, entender como a coisa que queremos aprender funciona. Essa é a primeira coisa que temos que nos preocupar, se queremos de fato aprender ou ensinar: responder a seguinte pergunta “como isso que eu quero aprender funciona?”. Vamos a um exemplo. Se quero aprender equação de primeiro grau, primeiro tenho que saber o que é uma função, como ela funciona no mundo, em casa, na rua, na televisão, em um texto, na música, enfim, onde eu posso ver o funcionamento da função, para depois eu entender o que significa primeiro grau, onde eu posso vê-lo em casa, na rua, na música, enfim, em todos os lugares possíveis.

Não podemos ficar muito tempo insistindo na mesma coisa do mesmo jeito. O hipocampo não gosta de insistência na repetição do entendimento, mas ele ama, fica encantado, com as demonstrações, com os exercícios da lógica que queremos aprender. Se meus alunos entenderam bem a lógica da equação de primeiro grau, quando eu demonstrar o cálculo, eles vão aprender com a maior naturalidade do mundo, que surpreende todo professor incrédulo na ciência. Mas quase todos eles vão errar quando fizerem o primeiro exercício, vão errar também no segundo, vão começar a errar menos no terceiro e assim por diante. Quanto mais exercícios fizerem, mais o hipocampo vai gostar, porque essa é a quarta coisa que devemos saber: não basta entender, tem que praticar. Se não praticar, o hipocampo não vai fazer a transferência de forma adequada para o local definitivo.

Esse esquema lógico (primeiro, garantir o entendimento; depois, praticar o entendimento) não pode ser feito uma única vez e nem pode ser realizado de forma intensiva. Isso quer dizer que devemos estudar função de primeiro grau por alguns meses, um pouquinho apenas, todos os dias. Estudar significa: entender sua lógica e exercitar. Nada, portanto, dessa imbecilidade de fazer representação simbólica da equação no quadro, mostrar como faz a conta, passar uns cinco exercícios e pular para outro assunto. E muito menos pedir para que os alunos se matem inúmeras horas fazendo a mesma coisa. É tudo inútil. O hipocampo é limitado, por isso gosta de diversificação para consolidar a mesma coisa.

 


 

Daniel Silva é PhD, professor e pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM), e escreve no ac24horas todas às sextas-feiras

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