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A Insolência dos Barnabés Sangue Azul II

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O objetivo deste terceiro texto é continuar a exposição efetuada nos dois artigos anteriores. Questões de protocolo intelectual impedem-me de omitir ou modificar os conteúdos dos escritos publicados pela Gazeta do Acre, elaborando, por exemplo, um resumo dos fatos.

Continuação de AIBSA I…

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O Depoimento

Sem a presença de advogado, a coleta de meu depoimento foi quase civilizada, ainda que eivada de momentos de tensão pelas abissais diferenças de pensar entre mim e o delegado; por duas vezes ele ( o depoimento ) foi paralisado para a permuta de informações “ in off “. Fora do “ acordo “, o delegado falou muitas coisas, dentre as quais merecem realce a manifestação de um merecido orgulho de que os componentes da Polícia Federal eram selecionados pelo “ concurso público mais difícil do Brasil “; de que ele sempre assumia integralmente a responsabilidade pela ação de seus homens; de que ele tinha carta branca de sua chefia, que nunca interviu ( sic ) em suas decisões; de que o meu comportamento intransigente, de alguma forma, assemelhava-se ao de seu pai etc. Mais de uma vez ele disse-me que eu até poderia representá-lo. Garanti-lhe a certeza do fato.

Chegaram à Delegacia de Epitaciolândia os advogados Erick Nascimento e Roberto Duarte Júnior que, em fina delicadeza, acompanharam o depoimento da Liz. Enquanto isso, fui encaminhado a um outro setor, no qual responderia a um questionário um tanto embaraçoso. Fiquei diante de uma bela moça, de brejeirice acreana, sorridente e quase coquete, que indagou-me por onde eu morara no Brasil, quanto eu ganhava em todas as minhas atividades, como eu gastava minha renda, a quem eu sustentava, se eu tinha sinais íntimos, algo assim. Sabia de que ela não fizera todas as perguntas, algumas ela não teve coragem ou não considerou necessárias. Foi irresistível a lembrança a Graciliano Ramos de Memórias do Cárcere e ao sideral contra-senso, kafkiano, que ali se apresentava: eles praticavam o crime e indiciavam-me por ele com a maior sem cerimônia possível. O camarada Stálin ficaria orgulhoso de seus rebentos temporões.”

Perto das onze da noite, saímos para Rio Branco. Pedi ao Heitor (agora muito gripado) para eu mesmo vir dirigindo; queria pensar no ocorrido. Chegamos pouco depois das duas da manhã de 25 de julho. Minha mãe e o meu sogro ainda estavam acordados. A aflição, o choro, a angústia e o medo haviam substituído a alegria de nosso encontro das oito, frustrado pela selvageria prepotente de alguns aparelhos repressivos de estado de meu país.

Marinez mediu-me a pressão arterial, ainda bem alta, apesar da medicação ministrada pelo Heitor, que pode ter garantido minha vida. Naquela madrugada de 25 de julho eu precisava descansar. Bem cedo, com o novo horário, teria de dar aulas para a engenharia e sistemas de informação na UFAC; as aulas arrastar-se-iam até o meio dia. Pedi arrego ao sono, propus conciliar-me com ele, que ignorou-me. Verrumavam-me os miolos o desagradável de uma prisão e, ainda pior, ser preso, arrastado, algemado e conduzido pela Polícia Federal, em Brasileia-Epitaciolândia, era de má reputação, de fato era a inglória; dada a vizinhança e a estatística, a prisão só poderia ter sido por tráfico de drogas, contrabando de importados ou de armas. Quem poderia pensar em grotesco abuso de poder por parte da Receita Federal e da Polícia Federal? Ninguém, é óbvio. Mesmo com essas atividades distantes de minha vida, recebi muitos telefonemas de pessoas às quais pude oferecer explicações. Por certo existem, e não poucas, aquelas que não me telefonaram e formaram uma opinião deformada sobre o fato.

O Moedeiro Falso

A assessoria de comunicação da Polícia Federal divulgou em toda imprensa uma nota na qual justificava minha prisão por desacato à autoridade. Negou o uso de violência dos policiais ao arrastarem-me pelo chão, afiançou que agredi com palavras de baixo calão os serventuários da Receita Federal, afirmou que chamei os agentes da Polícia Federal de moleques e que exibi-me dizendo que lhes pagava os salários. O grande irmão da Policia Federal não foi capaz, no entanto, de apontar uma única palavra de baixo calão por mim proferida, nem aos agentes da Receita nem da Polícia Federal; tampouco foi suficientemente honesto para contextualizar a expressão que utilizei: “ vocês ainda são moleques “, aos dois adultos jovens, agentes da Polícia Federal, ao responderem minha indagação se eles dispunham de um mandado judicial para efetuarem minha prisão. A expressão foi usada depois deles responderem :” o mandado sou eu ! “, “ o mandado sou eu !”, usurpando o poder da magistratura, para efetuarem uma prisão ilegal e arbitrária.
Quanto à afirmação de pagar-lhes os salários, é uma zombaria. Disse-lhes, e é fato, de que o povo acreano por eles maltratado e achincalhado, inclusive eu, pagávamos-lhes os salários. Individualmente, não. Sou professor da UFAC e ser professor da UFAC é ter um salário de fome. O respeitado professor Furtado, do relevante curso de engenharia, é conhecido, nacionalmente, como professor salário mínimo, porque já recorreu à justiça, mais de uma vez, para auferir, por seu trabalho, um salário mínimo que funciona como teto.

No início do ano, fui à Sena Madureira ministrar um curso de Formação Econômica do Capitalismo Contemporâneo, tentando substituir o qualificado professor Carlito Cavalcante e lá encontrei, além de uma excelente experiência com a turma de economia, alguns jovens professores da UFAC, fazendo o mesmo que eu. Fui no carro popular que guio há sete anos e pareci a eles um burguês. É que testemunhei dois professores de Rio Branco, um, movendo-se a todos os lugares de bicicleta, e outra, já madura e academicamente importante, pegando carona na garupa de uma bicicleta, gentilmente manobrada por uma aluna; ostentavam espírito e bom humor, mas não estavam fazendo fisiculturismo, não. Estávamos tentando ganhar e economizar para sobreviver. Os cursos do interior pagam uma bolsa e são disputamos a tapa. Por isso, meus rendimentos como professor dedicação exclusiva, com trinta anos de UFAC, não pagarão, por certo, o salário de um serventuário comum da Receita ou de um agente iniciante da Polícia Federal; talvez para pagar o salário de um mês do delegado da Policia Federal, que interrogou-me, com trinta e poucos anos de idade, eu tenha de trabalhar não um mês, mas um semestre. Como poderia eu ser tão pródigo?

Também é lícito procurar as razões pelas quais funcionários públicos, tão meticulosamente recrutados, “ desprezaram “ suas mais comezinhas obrigações de respeitar várias princípios da administração pública, no episódio. Apenas para citar um deles: por que a Receita Federal e a Polícia Federal do Brasil não me responsabilizaram administrativa ou judicialmente por um crime tão grave como o de desacato à autoridades tão importantes e poderosas? Pelo bem da administração pública, “ socorrer-lhes-ei “ mesmo com suas omissões, brevemente.

PS: um quarto artigo completará o que foi publicado na Gazeta do Acre de de 13 de julho de 2009.

A Insolência dos Barnabés Sangue Azul III terá como subtítulos: a) As Repercussões; b) O Olhar da Imprensa; c) Nostalgia; d) A Ética do Arbítrio; e) Algumas Providências.


João Correia escreve todas às quintas-feiras no ac24horas 

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