Menu

Ave rara do sindicato acreano

Receba notícias do Acre gratuitamente no WhatsApp do ac24horas.​

O sindicalismo é uma das boas invenções do capitalismo. Ele só é pleno com o trabalho livre, completamente livre. A liberdade é de tal forma exigida que o trabalhador precisa estar livre até da propriedade dos meios e de instrumentos de trabalho – dos meios de produção, em linguagem marxista – para compor a criação do mercado mais importante de todos: o mercado de trabalho urbano. E o trabalhador livre foi o máximo que a humanidade conquistou na escala civilizatória.

Também é fato inconteste de que o capitalismo não se enfeita com o mínimo de escrúpulos morais ou humanistas quando se trata de dar provimento ao seu processo de acumulação e de expansão. Assim, ele reinventou a escravidão; usou-a em sua conveniência e extinguiu-a quando ela pôs-se a atrapalhá-lo. Nos EUA fez até uma guerra civil, a mais atroz já vista nas Américas.

Anúncio

No Brasil, o sistema agiu no mesmíssimo diapasão. Inventou a escravidão e suprimiu-a quando tornou-se inservível às novas exigências, séculos depois.

Foi nesse ritmo contraditório dos interesses de acumulação e de expansão dos ciclos dos negócios que foram criadas a história e a geografia do Acre. Num intervalo de trinta e cinco anos, foi abolida a escravidão no Brasil e foi deslocado um mar de pessoas do nordeste do Brasil – deixando a aridez das secas- para a Amazônia, ávido por acessar as riquezas da borracha. A ironia é que – de par com a abolição da escravatura e criação de um mercado de trabalho livre no Sudeste – foi instituído na Amazônia um sistema de produção mais aparentado com critérios de servidão; em verdade, um cruzado entre a escravidão e a liberdade, mediado pela cadeia do aviamento: o empreendimento seringalista. Enquanto isso, no capitalismo de ponta, Ford implantava a modernidade revolucionária e vigorosa das linhas de montagem fabris.

Para se afastar bizantinas discussões condenatórias moralistas ou ideológicas( de se poderia ou não ter sido diferente ), tem-se
que o sistema de aviamento foi o mais eficiente aplicado no caso. Vigeu por praticamente 100 anos, sendo golpeado, já enfraquecido, somente com o advento do Governo Dantas.

O desenho das propriedades seringalistas obedecia mais à quantidade de seringueiras existentes na mata, à sua ocorrência, de que à área propriamente dita por ela ocupada, ou seja, não era incomum seringais menores em área serem mais produtivos e valiosos de que seringais maiores apenas por terem maior ocorrência de seringueiras. O mesmo sucedia, por conseguinte, com os trabalhadores e famílias de seringueiros.

A disposição das unidades produtivas nos seringais obedeceu ao natural e irremediável critério do isolamento, mortal a qualquer processo associativo. Em casos extremos, seringueiros passavam o ano inteiro sem contato algum com seus semelhantes. Algo inédito na evolução da humanidade, situação mais primitiva de que a do tribalismo. Talvez essa cruel circunstância humana auxilie na explicação da inexistência de conflitos importantes entre seringueiros e patrões, incomum em quaisquer relações de produção humanas conhecidas.

Bom, para o propósito aqui definido – focar o sindicalismo rural acreano – importa constatar que a imensa ocorrência de seringueiras definiram o mapa do Acre e apresentaram das maiores ( senão a maior ) ocupações demográficas rurais do grande vazio amazônico. Não puderam ser ricas, pelas razões apontadas, as experiências associativas e sindicais. À época do Governo Dantas, o Acre distribuía-se em apenas sete municípios: Cruzeiro do Sul, Tarauacá, Feijó, Sena Madureira, Rio Branco, Xapuri e Brasiléia. Em todos eles, era expressiva a população rural de seringueiros das gerações remanescentes da primeira leva, renovada pelas tropas do exército dos soldados da borracha durante a Segunda Guerra Mundial. Com a insolvência da maioria dos seringais, muitas famílias exercitaram, também, por sobrevivência, uma agricultura de subsistência, mesmo que rudimentar. Era evidente, à vista disso, de que a retirada das famílias das áreas há muito ocupadas geraria candentes problemas à implantação do mercado de terras.

Foi este ambiente tenso que João Maia da Silva Filho, Delegado da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura – CONTAG – encontrou por essas plagas. As ações empreendidas sob seu comando tornaram-se referências históricas de época.

Em poucos meses, fundaram-se sindicatos de trabalhadores rurais em todos os sete municípios e um novo ator politico passou a fazer parte relevante nos conflitos agrários do Acre; suas molduras restaram substancialmente alteradas.

A luta principal dos sindicatos e da CONTAG consistiu na transformação dos antigos ocupantes dos seringais em posseiros com
direito de almejar a propriedade da terra. O confronto, naturalmente contido na esfera política, derramou-se para a esfera jurídica onde os embates esquadrinhavam o principal código deixado na área pela ditadura militar: o Estatuto da Terra; aliás um diploma bastante avançado no que tange a direitos de trabalhadores rurais. Algumas personagens ficaram notórias nessa esgrima: dentre muitas, os advogados João Tezza, João Branco e Luís Saraiva pelos chamados “ paulistas “ e Pedro Marques e Walter Limão Montilha, pelos sindicatos, reforçados, posteriormente, pela participação de Arquelau Melo. Saliente-se que varias dessas personagens seguem vivas e ativas nos dias que correm.

Por outro turno, os procedimentos de organização e associação de ocupantes e produtores rurais foi finalmente inaugurada pelos sindicatos nos municípios. Aos poucos foi se criando uma mentalidade de busca de propriedade, de desejo de acesso específico sobre a terra, impensáveis por trabalhadores cativos da empresa seringalista.

É uma lástima que os fatos descritos tenham se perdido nas brumas do tempo, sem que mensurações estatísticas singulares tenham sido feitas sobre a evolução material e patrimonial das famílias protagonistas dessas lutas. Infelizmente, não é um segredo de polichinelo.


João Correia escreve às quintas-feiras  no ac24horas.

Siga o ac24horas no Google Notícias e seja o primeiro a saber tudo que acontece no Acre

Seguir no Google

Veja também

Newsletter

Fique por dentro do que acontece no Acre

Receba em primeira mão as notícias mais importantes do estado direto no seu e-mail. Política, economia, segurança e tudo que impacta a vida dos acreanos.