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Livro esmiuça conflito que tornou o Acre parte do Brasil

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O poderio bélico e econômico que o Brasil tinha há mais de 100 anos permitiu a negociação do Acre, território cedido pela Bolívia pelo que hoje seria cerca de US$ 312 milhões, revela o livro “Relaciones Brasil-Bolivia. La definición de las fronteras” de Walter Auad Sotomayor.

Durante oito anos, o jornalista boliviano examinou minuciosamente documentos de ambos os países sobre o “conflito do Acre” e as negociações que levaram à cessão do território ao Brasil, assim como os acordos anteriores de fronteiras que significaram perdas territoriais para a Bolívia no Mato Grosso.

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O resultado foi o livro publicado pela Plural Editores, que será lançado na próxima semana em La Paz, Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra.

Sotomayor, que mora no Brasil há 40 anos, contou à Agência Efe que seu trabalho é “uma aproximação das ideias do momento de formação dos Estados nacionais na América”, que permitem entender alguns processos ainda em curso no século XXI.

O primeiro acordo de fronteiras entre Brasil e Bolívia foi assinado em 1867, após sucessivas conversas nas três décadas anteriores.

Foi estipulado em plena crise regional que provocou a Guerra da Tríplice Aliança, que uniu Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai, e forçado pelo temor de um possível apoio boliviano a Assunção, disse Sotomayor.

Devido ao bloqueio que a guerra do Paraguai impunha, na época a Bolívia era o único corredor que o primeiro tinha para se abastecer e manter contato com o exterior, o que dotou o país andino de um grande valor estratégico.

Apesar da posição de força que essa condição dava à Bolívia, o Brasil acabou ganhando na negociação um território calculado em 150 mil quilômetros quadrados, superior à área de Portugal e à da Áustria, explicou Sotomayor.

Em parte, o autor atribuiu a perda a “presentes, condecorações e declarações de amizade” às quais “era muito sensível o (então) ditador boliviano, Mariano Melgarejo” e que o Brasil ofereceu com fartura.

A segunda parte da pesquisa enfoca o “conflito do Acre”, território que pertencia à Bolívia, mas que o país não ocupava e que no fim do Século XIX exploravam os “barões” brasileiros da borracha e outros bolivianos, embora em menor número.

Os empresários dos dois países tinham bases nas cidades brasileiras de Manaus e Belém, já que era pelo rio Amazonas que escoava à Europa a borracha que deu à região a prosperidade que jamais alcançaria novamente.

Segundo Sotomayor, a origem do conflito, que ocorreu entre 1899 e 1903, foi a decisão boliviana de estabelecer uma alfândega na região e passar a exercer sua soberania, com a devida cobrança de impostos.

Isso gerou uma forte reação dos barões brasileiros, que formaram milícias clandestinas combatidas pelo exército boliviano no meio da selva.

No auge do conflito, entre 1902 e 1903, o Brasil “havia mobilizado 8 mil soldados”, frente aos mil deslocados pela Bolívia, sustenta Sotomayor.

Segundo a pesquisa, “os historiadores omitiram o número de mortos”, que até hoje é um mistério.

Durante o conflito houve episódios curiosos, como a decisão boliviana de arrendar o Acre a um grupo anglo-americano indenizado depois pelo Brasil, e a declaração de “independência” da região proclamada em 14 de julho de 1899 pelo espanhol Luis Gálvez, um aventureiro que havia chegado em busca do “El Dorado”.

O espanhol foi inclusive “presidente” da “República Independente do Acre”, que não durou mais de seis meses e acabou abolida pelos mesmos barões da borracha brasileiros que a apoiavam.

A solução do conflito foi alcançada por José María da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco e ministro das Relações Exteriores do Brasil de 1902 até sua morte, em 1912.

Hábil negociador, Rio Branco já havia dado fim a diferenças com a França na Guiana e a outras com a Argentina, e, segundo Sotomayor, à solução do conflito com a Bolívia deveu “grande parte de seu prestígio como diplomata”.

O diplomata carioca levou a Bolívia à mesa de negociações, embora Sotomayor defenda que deu até de um “ultimato” e ameaçou deslocar mais tropas rumo à região, ao que o país andino não teria resistido.

O fim do conflito foi selado com o Tratado de Petrópolis, de 1903, que custou à Bolívia outros 187 mil quilômetros quadrados, em troca de 2 milhões de libras esterlinas e da construção de uma ferrovia na fronteira.

Agência EFE

 

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